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Para dar continuidade à sua campanha de carnificina, o Estado Islâmico construiu as bases de uma economia bem organizada: cobra impostos, vende produtos das suas empresas estatais e paga aos seus “funcionários públicos”. No Ocidente, longe das câmaras, homens de negócios e fabricantes de armas agradecem a oportunidade de lucro…

O Estado Islâmico (EI) ocupa hoje mais território do que as Ilhas Britânicas e governa directamente 10 milhões de pessoas. Entretanto, vários grupos aliados ao EI preparam-se para expandir o território do auto-proclamado “Califado”, havendo ainda a possibilidade de conquistarem mais território em locais sensíveis como a Líbia, onde estão a ganhar força.

Embora não haja um número exacto sobre quantos quilómetros quadrados o EI controla, e o número exacto de súbditos esteja sempre a mudar devido à guerra em curso, este novo regime é uma força que já não pode ser ignorada. O certo é que o Estado Islâmico conseguiu, infelizmente, solidificar as suas credenciais enquanto verdadeiro “Estado”. Para além de um exército semi-profissional numeroso, que poderá oscilar entre 30 e 50 mil soldados (ou mais), o EI também administra escolas, hospitais, uma força policial e órgãos de comunicação social. Como conseguiu arranjar dinheiro para tudo isto?

Petróleo e outros rendimentos

Foi através do seu modelo económico que o Estado Islâmico se conseguiu tornar uma das maiores ameaças terroristas de sempre. Mesmo nos seus dias de maior influência, a Al-Queda sempre operou quase como uma “ONG do terrorismo”, dependendo de donativos de simpatizantes, como alguns príncipes sauditas.

Não levou muito tempo para que os EUA e a Europa tivessem conseguido cortar-lhe uma parte considerável do financiamento através do congelamento de contas bancárias. O Estado Islâmico é diferente, preferindo financiar-se directamente, sem necessidade de intermediários, algo que o torna muito mais perigoso do que o grupo terrorista do falecido Bin Laden.

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Moeda de ouro do estado Islâmico. O grupo terrorista diz querer introduzir moedas de ouro, prata e chapa como base de um novo sistema monetário “islâmico”.

É sabido que o EI controla consideráveis campos petrolíferos. Mas essa não é a única fonte de financiamento: os seus 10 milhões de súbditos também são chamados a “contribuir”. Se tivermos ainda em conta os saques, os negócios com os comerciantes e a produção de fósforo e cimento, concluiremos que o EI tem uma actividade económica diversificada. Segundo a CNN, o negócio do petróleo, apesar de adicionar uma importantíssima receita ao orçamento desta organização, representa menos de metade de todos os rendimentos do grupo terrorista.

Esta revelação complica as contas da guerra na Síria, por duas grandes razões: em primeiro lugar, porque os bombardeamentos contra os poços petrolíferos, mesmo que tivessem um sucesso absoluto, não conseguiriam cortar o financiamento do EI; em segundo, porque os ocidentais vão ter de escolher entre permitir que o EI se financie e bombardear a população civil. Duas más alternativas que mostram como gerir o conflito nesta região é um exercício em escolhas difíceis.

O Estado Islâmico em números

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● 3 mil milhões de euros – Orçamento do Estado Islâmico em 2015.

● 800 milhões de euros – Rendimento dos impostos directamente cobrados à população controlada pelo EI.

● 500 milhões de euros – Rendimento da produção e venda de petróleo.

● 50 milhões de euros – Dinheiro que o EI recebe anualmente em resgates. Quando rapta alguém, o EI exige, em média, entre 1.500 e 3.000 mil euros à família do raptado, caso contrário executam-no. Os raptos incidem sobre pessoas de outras religiões, ou sobre muçulmanos que não são sunitas.

● 140 milhões de euros – Taxas alfandegárias cobradas (extorquidas?) aos camionistas que têm de atravessar o território do EI.

● 200 milhões de euros – Rendimento da venda de produtos agrícolas, nomeadamente trigo, cereais e cevada. 

● Mil milhões de euros – Estimativa do que enormes minas de fosfato e enxofre, bem como as instalações de produção de cimento, podem vir render ao EI durante o ano de 2016.

[Nota: todos estes valores são estimativas. O EI vende a sua produção no mercado negro, onde os preços variam consideravelmente, e os impostos cobrados dependem do sucesso, ou fracasso, das “finanças do terrorismo” em cobrá-los, bem como da capacidade das forças militares para defenderem o território do EI.]

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Qualquer Estado cobra impostos, e o Estado do terror não é excepção. A carga fiscal do EI é considerável, especialmente quando se tem em conta que muito pouco da receita regressa aos contribuintes forçados. E, claro, o castigo por falta de pagamento vai desde amputações à pena capital ou escravatura. Os valores aqui apresentados são estimativas e médias, pois o EI aumenta e diminui as taxas conforme os governantes locais assim o decidem. Nunca mais irá olhar para a sua repartição de finanças da mesma forma… 

● 2,5% de “Zakah” – Imposto fixo cobrado aos muçulmanos que vivem sob o controlo do Estado islâmico.

● Entre 150 e 600 euros de Jizyah – Imposto cobrado aos não-muçulmanos, nomeadamente aos cristãos. Segundo as autoridades do EI, a pena por não pagar é a execução, ou a escravatura sexual (no caso das mulheres cristãs).

● 1.000 euros de taxa de saída – Imposto cobrado a todos aqueles que queiram sair temporariamente do Estado Islâmico. Para além desta taxa, o EI fica, “a título provisório”, dono de toda a propriedade do viajante enquanto ele não regressa. As mulheres são consideradas como parte da propriedade.

● 10 a 50 por cento de imposto sobre os rendimentos – uma espécie de IRS do terrorismo. Embora a taxa a aplicar seja teoricamente decidida consoante os rendimentos da pessoa, na prática a decisão é arbitrária.

● 15 por cento de impostos sobre os negócios e comerciantes – muito similar ao nosso IRC.

● 2 por cento de imposto sobre todas as transacções – O equivalente ao nosso IVA.

● 5 a 10 por cento de imposto agrícola – Todos os agricultores têm de entregar uma percentagem do lucro das suas colheitas. Neste valor não está incluído o confisco regular de produtos agrícolas para o EI alimentar as suas tropas.

● 35 por cento de imposto sobre todos os produtos farmacêuticos –  Apesar de serem uma raridade para as pessoas oprimidas pelo EI, os medicamentos são altamente taxados. Apenas os “ricos” conseguem comprá-los.

● 40 euros de propinas para todas crianças em idade escolar – o ensino no EI não é gratuito.

[Nota: Para fins comparativos, a média do ordenado mensal de um sírio rondava os 300 euros pouco antes da guerra civil. Hoje, o valor deve ser bastante menor.]

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Se as populações debaixo do seu domínio vivem oprimidas e exploradas, os “funcionários públicos” do Estado Islâmico são relativamente bem remunerados face ao custo de vida no território, e ainda beneficiam de privilégios, benesses e serviços:

● 400 euros a 1.200 euros – Ordenado dos soldados e terroristas que trabalham para o Estado Islâmico.

● Mais de 1.500 euros – Salário mínimo dos técnicos especializados recrutados pelo EI, às vezes na própria Europa. Entre estes, incluem-se especialistas em redes sociais, preparadores físicos, engenheiros de todos os tipos, cineastas, entre muitos outros.

● Descontos em compras – Cada indivíduo com “cartão de jihadista” tem um desconto de 50 por cento na compra de produtos dentro do EI, cuja proveniência é quase sempre o roubo ou o saque. Segundo o ‘Financial Times’, um carro roubado, da marca KIA, que custa 4.300 euros no mercado aberto, apenas custará 2.150 euros a um jihadista, e uma televisão de 42 polegadas roubada apenas irá custar 70 euros a um terrorista, enquanto custa 140 euros para todos os outros.

● Abono de família – Cada funcionário público do EI recebe 100 euros mensais por mulher, e 50 euros por criança.

● “Ok teleterrorismo, fala o Ahmed” – O Estado Islâmico tem uma linha de apoio disponível 24 horas por dia, tanto pela internet como por telefone. Segundo testemunhas, os jihadistas que entrem em contacto com este “help desk” recebem apoio técnico sobre armamento, bombas, ou para evitarem a captura.

Função pública terrorista

A administração pública do Estado Islâmico é bipartida: enquanto a gestão dos territórios conquistados é uma actividade relativamente descentralizada, a gestão das “empresas públicas” do EI, especialmente as petrolíferas, se encontra altamente centralizada. Neste último caso, os proventos são entregues directamente ao topo da estrutura do regime terrorista.

Em termos da hierarquia da função pública dos territórios ocupados, existem dois governadores-gerais directamente abaixo do líder, um para o Iraque e outro para a Síria, e cada um controla um número de governadores, intitulados “walis”, que impõem legislação a seu bel-prazer conforme as necessidades do Governo central.

Por agora, o regime do EI é algo tolerado pela população local. Apesar de ser forçada a pagar impostos exorbitantes (os quais, no total, podem levar bem mais de metade do rendimento de uma família), o EI consegue manter um mínimo de serviços públicos em funcionamento, algo que a sua propaganda nunca se cansa de relembrar.

Quase todos os funcionários públicos do regime de Assad passaram automaticamente a sua lealdade para o novo regime, e foi-lhes permitido manter o seu emprego e ordenado. Para colmatar as eventuais lacunas de técnicos especializados, o Estado Islâmico procura sempre recrutar entre os desempregados qualificados no Ocidente, acenando a estas pessoas com dinheiro. O desemprego no mundo livre começa a tornar-se uma das grandes vulnerabilidades de segurança contra este grupo terrorista. Num dos piores casos, o gestor de uma das refinarias do EI, agraciado com o título de “emir” (príncipe em árabe), é um engenheiro recrutado na Suécia.

Por outro lado, a máquina de propaganda do EI, montada em grande parte com tecnologia e técnicos provindos do Ocidente, ajuda a manter a população na linha e a conquistar novos recrutas.

Guerra de dia, negócios à noite

Em termos de exportações, os gestores públicos do Estado terrorista vendem os seus produtos no mercado negro e enviam todo o lucro directamente para o erário público da organização. Estima-se que o EI controla 60 por cento de toda a produção petrolífera da Síria, para além de 20 por cento da produção petrolífera do Iraque.

De acordo com documentos capturados pelos serviços secretos dos EUA durante um ‘raid’ em que abateram Abu Sayyaf, um dos emires do petróleo, a gestão dos poços é meticulosa e em linha com as melhores práticas contabilísticas do mundo capitalista.

Com capas de luxo, papel de qualidade e paginação profissional, não falta certamente dinheiro à revista oficial do EI, “Dabiq”. Infiltrada online e em papel, por via de contrabando, na Europa (popular nos bairros problemáticos do velho continente), a revista está traduzida em várias línguas, incluindo Inglês e Português
Com capas de luxo, papel de qualidade e paginação profissional, não falta certamente dinheiro à revista oficial do EI, “Dabiq”. Infiltrada online e em papel, por via de contrabando, na Europa (popular nos bairros problemáticos do velho continente), a revista está traduzida em várias línguas, incluindo Inglês e Português

E quem são os clientes do Estado Islâmico? Curiosamente, os seus inimigos directos são consumidores do petróleo “made in EI”. O pragmatismo dos terroristas é tal que vendem tanto à resistência anti-Assad, como ao próprio regime de Assad. Suspeita-se que o EI também esteja a vender petróleo barato a clientes turcos e a iraquianos.

Apesar do estado de guerra, todas as facções transaccionam os bens de que precisam sem olhar a quem: o EI precisa de capital, mas os seus inimigos precisam de petróleo para manter a electricidade ligada e a sua própria máquina de guerra em movimento. O processo é descrito como “fazer “guerra de dia e negócios à noite”. Um comandante do Exército Livre Sírio comentou mesmo o desespero por que a sua organização passa, face à falta de apoios do Ocidente: “não temos outra hipótese, somos uma revolução de pobres. Há alguém a oferecer-se para nos dar combustível?”.

Os restantes clientes são comerciantes locais, que pagam uma taxa de 800 euros por cada licença de compra de petróleo ao Estado Islâmico. Cada comerciante tem de fornecer ao EI a matrícula do seu camião-cisterna, bem como a capacidade do mesmo, e depois esta informação é introduzida numa base de dados informática, sendo finalmente atribuída ao comerciante uma lista de datas nas quais pode ir recolher o petróleo.

O processo é burocrático, oneroso e até mesmo arriscado, tendo em conta os bombardeamentos ocidentais. Mas os comerciantes conseguem retirar da operação uma margem de lucro que pode exceder os 100 por cento quando vendem o produto às refinarias, ou mesmo na berma da estrada. Numa região com escassas oportunidades de trabalho, não são poucos os que aceitam financiar o EI com a perspectiva de um rápido lucro pessoal.

Fabricantes de armas satisfeitos

Mas não é só a economia do Estado Islâmico que vai sendo dinamizada pela guerra. No Ocidente, os fabricantes de armas estão contentes com o arrastamento da guerra. O valor das acções bolsistas das principais empresas deste sector subiu vertiginosamente logo após os atentados de Paris e voltam a aumentar sempre que se discute a possibilidade de um maior envolvimento no terreno.

O sector do fabrico de armas e munições é uma indústria de grande dimensão não só nos EUA (onde os fabricantes já gastaram 95 milhões a fazer ‘lobbying’ entre os membros do Congresso), mas também na Grã-Bretanha, cujo maior grupo industrial é um fabricante de armamento.

França, Bélgica, Holanda e Alemanha possuem, também, um poderoso sector industrial de defesa: os franceses são especialistas em fazer caças de guerra, os holandeses fragatas, e os belgas e alemães armas individuais (como a nossa G3 e a FN-FAL). Segundo o ‘International Business Times’, pelo menos cinco presidentes de empresas de armamento descreveram publicamente a situação como sendo, literalmente, uma “grande oportunidade de negócio”. Vários meios de comunicação publicaram já listas das “melhores acções de empresas de armamento a comprar”. Todos ganham na economia de guerra, excepto os desgraçados de sempre.

Por agora, mesmo depois de tantos ataques, o Ocidente ainda parece não ter acordado para o facto de que enfrenta um adversário bem organizado, determinado, e com uma capacidade económica nunca vista entre um grupo de terror. Os comerciantes de armas podem festejar, a guerra adivinha-se longa.