Tecnologias revolucionárias vão permitir a generalização de baterias baratas com capacidades energéticas nunca imaginadas. Portugal, que é um dos países mais solarengos da Europa, pode ter encontrado a chave para a sua independência em termos de energia.

A electricidade em Portugal é cara. Segundo as medições do Eurostat, somos dos países em toda a União Europeia onde a energia custa mais dinheiro: uma família portuguesa gasta 26 euros por cada 100 kWh. Mais cara, só a electricidade na Alemanha: as famílias germânicas desembolsam 28 euros pelos mesmos 100 kWh, mas essa cifra custa-lhes infinitamente menos, uma vez que têm um poder de compra muito superior ao nosso.

A política fiscal para o sector energético constitui um dos primeiros grandes problemas, já que 42% de todo o custo da electricidade derivam de impostos e taxas. Não menos pesado é o custo de utilização da rede energética nacional, que representa 24% do preço total. A produção de electricidade, propriamente dita, apenas representa 34% do total da factura. Dir-se-ia que, sem a rede e sem os impostos, o custo da nossa energia eléctrica poderia ser muito mais baixo.

Mas o problema central é que Portugal tem fontes de energia eléctrica dispendiosas, e em muitos dos casos desajustadas em relação às nossas necessidades. Como se não bastasse termos de importar todo o petróleo consumido em Portugal, o que constitui um significativo deficit para a nossa balança comercial, os famosos aero-geradores (mais coloquialmente conhecidos como “ventoinhas”) instalados no tempo do governo socialista de José Sócrates representaram um investimento extremamente caro que ainda estamos a pagar. O retorno do investimento foi demasiado baixo para um País com parcos recursos como Portugal. Resultado: preços exorbitantes.

Há necessidade de uma alternativa.

O poder de armazenar

Testa PowerwallO progresso tecnológico pode mudar rapidamente o jogo da política energética nacional. Desta vez, a invenção parte dos Estados Unidos da América, onde o empreendedor e visionário Elon Musk, fundador da primeira empresa de exploração privada do espaço, apresentou recentemente as suas novas baterias de baixo custo: as “Tesla Powerwall”. O conceito não é novo, mas a sua aplicação é revolucionária. Aliás, muitos dos especialistas mundiais no assunto não esperavam uma evolução tão grande nesta área até 2030.

Até hoje, as baterias eram dispendiosas e tinham uma capacidade de carga muito reduzida. Um dos grandes problemas na exploração de energias renováveis foi sempre o limitado ciclo de captação e armazenamento: as baterias solares apenas funcionam quando o sol brilha, as eólicas quando o vento sopra. Para conseguir armazenar energia para períodos em que não estava a ser feita carga, o consumidor tinha de gastar quantidades fenomenais de dinheiro em enormes baterias. As baterias de Musk, pelo contrário, são relativamente baratas, pouco mais de 3 mil euros, e podem sustentar uma casa durante uma noite inteira.

Visto que são unidades modulares, podem ser combinadas para fazer ainda mais, como sustentar lojas, recarregar carros eléctricos ou até manter fábricas a trabalhar. Outra informação positiva é que estas baterias vão ter de ser fabricadas no Ocidente, visto que exigem mão de obra extremamente qualificada. A primeira fábrica, localizada na Califórnia, vai começar a produção dentro de 4 meses, e existem planos para a abertura de instalações industriais na Europa. Desde o anúncio do início da produção, já foram encomendadas 40 mil unidades à empresa. E espera-se que o curso e a eficiência do produto continue a aumentar conforme se expande a pesquisa na área.

O poder do sol lusitano

O custo dos painéis foto-voltaicos era proibitivamente caro no início deste século XXI, mas a situação inverteu-se à medida que a tecnologia foi sendo desenvolvida. Neste momento, o retorno do investimento em painéis solares é altamente compensador. Até o próprio Estado o reconhece, notando que o tempo de amortização do equipamento, a preços actuais, fica entre os 4 e os 6 anos.

No caso de Portugal, com as suas características geográficas, o sol constitui um importante recurso estratégico que temos em abundância. Até mesmo a região Norte do País é mais solarenga do que a região de Roma, em Itália. Como se estima que o preço dos painéis foto-voltaicos caia entre 40% e 50% nos próximos dois anos, brevemente poderá ser das melhores opções para os bolsos dos portugueses.

O baixo preço dos painéis, combinado com a capacidade de armazenamento das novas baterias, constrói uma nova oportunidade para o nosso País.

Independência

Solar-Power-MPComo notámos no início deste artigo, apenas uma parte dos custos da electricidade corresponde ao custo da geração da mesma. Caso uma família compre uma unidade de geração de electricidade, ou seja, uma unidade solar mais a bateria, a longo prazo o custo será menor. Em primeiro lugar, o único imposto cobrado será o IVA sobre a instalação. Em segundo, se o cidadão quiser poderá desligar-se da rede eléctrica ou, pelo menos, poderá dar-lhe muito menos uso. A metáfora para este caso será o arrendamento ou a compra de uma casa: a curto prazo o arrendamento é melhor, mas a longo prazo a compra é mais vantajosa.

Libertos da rede, os consumidores já não precisarão de pagar as elevadas rendas derivadas da construção das “ventoinhas” de Sócrates. Para os pequenos e médios empresários e agricultores, este desenvolvimento produz uma vantagem clara: uma despesa muito menor em energia. Se investirmos nesta tecnologia, a economia nacional poderá ficar muito mais competitiva.

Portugal passará a ter a possibilidade de não depender de potências estrangeiras para o fornecimento de electricidade. As baterias de Musk estendem-se até aos automóveis – e se, até agora, as viaturas eléctricas eram relativamente caras e tinham um alcance quilométrico muito limitado, as novas baterias oferecem a possibilidade de renovar a frota automóvel com veículos que se deslocam recorrendo a um recurso nacional como energia.

Mas caso se queira fazer este investimento, caso se queira melhorar a competitividade da infra-estrutura energética nacional, então há que começar a planear rápidamente, porque outros países já estão em acção.

China a investir

Os planos da nebulosa estrutura do Partido Comunista Chinês são sempre uma incógnita, mas tornou-se relativamente claro que o Império do meio está já a investir grandes quantidades de recursos em energias solares. As razões são óbvias: Pequim, tal como Portugal, não tem ao seu dispor recursos energéticos suficientes para ser independente de terceiros. A aposta, nos últimos anos, tem sido no carvão, recurso do qual a China é o maior consumidor, mas os efeitos são trágicos: o ar em muitas cidades daquele país é quase irrespirável.

O perigo, neste momento, reside na possibilidade de os Estados burocráticos do Ocidente travarem o desenvolvimento desta tecnologia porque não a podem taxar tão eficazmente como o fazem com a electricidade fornecida pela rede. No início do século, Portugal proibiu escandalosamente os veículos movidos a bio-diesel porque receava que os contribuintes deixassem de pagar os impostos sobre os combustíveis.

O risco que corremos é o de ficarmos ainda mais atrasados, a competir com países com infra-estruturas energéticas modernas e independentes. Portugal, invocando razões de segurança ambiental, recusou o nuclear. Mas esta nova energia é limpa e adequada às nossas condições geográficas. Será que vamos desperdiçar mais uma oportunidade?

As “ventoinhas” de Sócrates

Para a caixa 1Os aero-geradores tornaram-se uma imagem de marca do despesismo do consulado de Sócrates. Mas corre-se o risco de confundir o valor da tecnologia com o mau uso que lhe foi dado. Portugal gastou milhares de milhões de euros (emprestados) em aero-geradores, apesar de o preço da tecnologia ter caído a pique apenas alguns anos depois. Ou seja, comprámos caro o que podíamos ter comprado muito mais barato anos mais tarde, algo que era previsto na altura em que a compra foi feita.

Em declarações ao ‘Jornal de Negócios’, o antigo secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, admitiu que “houve excessos” e que “não tivemos o cuidado de ir acompanhando mais prudentemente a curva de experiência dos investimentos”. O antigo governante socialista admite hoje que “estamos a pagar a energia eólica demasiado cara”. Estima-se que os custos com as eólicas do tempo de Sócrates vão continuar a pesar muito nos bolsos dos consumidores.

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