Grandes empresas, precisam-se!

Grandes empresas, precisam-se!

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Francisco Lopes Saraiva

As últimas radiografias à economia nacional são animadoras, à superfície – mas retratam um país que pedala em seco para sair da crise. Portugal continua no vermelho, com a economia assente em empresas frágeis e sem dimensão, incapazes de gerarem emprego sólido e duradouro.

Em Junho deste ano, 363 empresas em Portugal pediram insolvência e 887 fecharam as portas. Ainda assim, no mesmo período foram criadas 2.680 novas empresas. A tendência, na primeira metade do corrente ano, parece ter sido positiva: menos empresas portuguesas iniciaram processos de insolvência ou fecharam portas do que em igual período do ano passado, segundo revela o barómetro “Informa D&B”, da conceituada analista internacional Dun & Bradstreet. Tendo em conta a variação dos últimos 12 meses, o número de insolvências caiu 12,8%. O sector da construção continua a ser o mais afectado pelas insolvências e o dos serviços pelos encerramentos.

Das 363 empresas que iniciaram processo de insolvência em Junho, 75 são do sector da construção. Os sectores retalhista e das indústrias transformadoras foram o segundo e terceiro mais afectados, com 74 e 61 empresas, respectivamente. Por outro lado, os menos afectados foram os sectores das indústrias extractivas, gás, electricidade e água e actividades financeiras, com apenas uma empresa, em cada um deles, a pedir insolvência.

Já os encerramentos ou extinções de empresas totalizaram 887 no mês passado, o que eleva para 15,3% a queda acumulada dos últimos 12 meses. De acordo com os dados do barómetro D&B, os sectores em que mais empresas fecharam portas foi o dos serviços, com 212 encerramentos, o retalhista, com 156, e o grossista, com 102.

Em sentido contrário, variaram os nascimentos de novas empresas que, em Junho, totalizaram 2.680, elevando para 0,2% o crescimento do último ano. Se o sector dos serviços foi aquele que viu mais empresas encerrarem, foi também o que assistiu a mais nascimentos em Junho deste ano, com a constituição de 825 novas empresas.

Tendo em conta os últimos 12 meses, o sector da agricultura, pecuária, pesca e caça foi o que registou um rácio mais elevado entre nascimentos e encerramentos. Por cada empresa que fechou portas neste sector, nasceram 6,4.

 Só 1.015 grandes empresas

O retrato da economia portuguesa demonstra claramente que não somos fortes. Somos um País de Pequenas e Médias Empresas, com um Governo que não sabe ou não consegue fomentar a criação de grandes firmas. Apenas 0,3% das empresas em Portugal são de grande dimensão, ou seja, empregam, no mínimo 250 trabalhadores e têm um volume de negócios superior a 50 milhões de euros. Entre 2008 e 2012, e devido à crise financeira, o número de grandes sociedades viu-se reduzido em 9,6% para um total de 1.015, revela o INE.

Apesar de atingidas pela recessão, em termos individuais estas empresas conseguiram resistir melhor do que as pequenas e médias. Em 2012, a dimensão média das grandes organizações era maior do que em 2008, tal como o volume de negócios e a capacidade de gerar valor acrescentado de cada uma das empresas.

Em concreto, empregavam, cada uma e em média, 758 trabalhadores (725 em 2008) e apresentavam um volume de vendas de 136 milhões de euros (128 milhões em 2008). Também o peso das grandes empresas no valor acrescentado bruto (VAB) do sector não financeiro aumentou 3,8 pontos percentuais entre 2008 e 2012 para os 43,7%.

Contudo, olhando para os valores totais, o cenário não é de crescimento. As grandes empresas empregam no total 769.023 pessoas, menos 5,6% do que em 2008. O VAB reduziu 6,6% para 30,6 mil milhões de euros.

A maioria destas sociedades opera nos serviços, mas a maior redução verificou-se na construção (-36,6% para 64), o que reflecte a grave crise que o sector enfrenta.

Emprego que ninguém quer

Os dados, de facto, apenas demonstram uma desaceleração da crise. A taxa de desemprego tem vindo a cair de forma consistente desde Fevereiro do ano passado e o mercado começa a dar sinais de alguma vitalidade. Ainda que se saiba que os números mais recentes do IEFP apontam para uma redução do número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego, menos pedidos de emprego, devido em muito à emigração e a jogos de números que se prendem com os chamados Estágios Profissionais.

Facto é que há mais empregos oferecidos. O problema? É que aumentam também os empregos que ninguém quer. O resultado é simples: há mais emprego, mas também há mais emprego por preencher.

Os números do IEFP mostram que no final de Junho estavam sem emprego 614.982 portugueses, tendo sido registado um total de 870.448 pedidos de emprego – 70,7% por pessoas desempregadas. Por seu turno, as ofertas disponíveis cresceram 24,5% em Junho face ao registado em Maio do ano 2013, ainda que tenha havido menos 2.000 vagas do que em Maio. Mas, de acordo com os mesmos dados de Junho, ficaram por preencher 22.290 ofertas de emprego disponibilizadas pelo IEFP, o que representa uma subida de 38,1% face ao mesmo período do ano passado (relativamente ao mês de Maio, a subida é de 6,2%).

Este aumento das vagas de emprego por preencher é fruto do aumento das vagas disponíveis e de uma redução do número de pessoas que as procuram, mas a oferta ainda está bem longe de se adequar à procura, o que aumenta o peso de um outro factor: a qualidade do emprego oferecido, que se degradou com a crise. São mal remunerados, de curta duração e, muitas vezes, a tempo parcial. Pior: deixam de fora os jovens sem experiência, tal como as pessoas bem qualificadas.

Os números do IEFP mostram que a maior parte das colocações feitas nos últimos meses têm recaído nos trabalhadores não qualificados que, em Junho, representaram 24,4% do emprego criado em Portugal (2.056 empregos criados).

Exemplo disso mesmo é o caso de uma oferta visível no site do IEFP para um Enfermeiro de cuidados gerais, no Barreiro, cujo contracto oferecido é a tempo parcial e a termo certo (6 meses), com uma remuneração mensal de 550 euros. Em Lisboa pode observar-se uma oferta para a área da Publicidade e Marketing em que se exige pelo menos uma licenciatura, se oferece um contrato por 12 meses, a tempo completo – e, em troca, os mesmos 550 euros.

 Só 60% das ofertas preenchidas

Desde o início de 2014 que têm ficado em média, por mês, 5.737 ofertas de emprego por preencher. Os dados, do Instituto de Emprego e Formação Profissional, revelam ainda que, em 2013, das 137.456 ofertas de emprego criadas, só 60% foram preenchidas.

A área da agricultura é uma das mais afectadas pela falta de mão-de-obra, razão pela qual muitos empresários recorrem a estrangeiros para trabalhar – não só agravando as taxas de imigração, mas também contribuindo para um sistema degradante em que os trabalhadores, oriundos sobretudo dos países do Leste europeu, são forçados a uma vida de miséria.

No pico das colheitas, há empresas a empregar 600 pessoas, 90% estrangeiras, pela simples razão de que os portugueses não querem trabalhar nas tarefas disponibilizadas. Não querem perder os subsídios para fazer trabalhos a ‘part-time’ e/ou para receber menos do que estão a receber do Fundo de Desemprego.

O mesmo se passa um pouco em todos os sectores e regiões do País. O ano passado, Eduardo, 57 anos, viu-se perante um processo interno na empresa de cerâmica em que trabalhava. A empresa, comprada pelos angolanos da Prebuilt, foi despedindo pessoal e processando outros com vista ao auto-despedimento. Eduardo – considerando-se injustiçado com o processo – bateu o pé e contratou um advogado para o defender. Acabou por ver reconhecido o facto de ser um trabalhador exemplar, mas não se livrou de ser despedido. Já recebeu toda a compensação acordada com os patrões.

No desemprego desde aí, foi obrigado a ir a cursos do IEFP e a procurar trabalho onde não havia. As ofertas que surgiam no Centro de Emprego eram de valor inferior ao que estava a receber do Fundo de Desemprego, não contemplavam – algumas delas – o subsídio de alimentação e obrigariam a mais de 30 quilómetros de carro todos os dias.

A opção foi simples: ficar desempregado até encontrar uma oferta que cobrisse o que estava a ganhar no desemprego. Começa a trabalhar no início do mês

Crédito às “boas empresas”

Aumentam as vagas de emprego e o número de novas empresas. As que aguentaram a crise também tentam sair do vermelho. O Governo diz estar atento, mas as poucas soluções que apresenta passam todas por linhas de crédito. Redução de impostos, nem pensar.

O presidente da Associação Portuguesa de Bancos considera que actualmente as condições de crédito do sector às boas empresas “melhorou significativamente”, em termos de taxa de juro.

Faria de Oliveira falava no inicio do mês à Lusa, em Lima, no final de um reunião entre representantes da banca portuguesa e peruana, a que também estiveram presentes o ministro da Economia, António Pires de Lima, e o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Miguel Frasquilho.

Instado a comentar declarações recentes do antigo presidente do conselho de administração da Jerónimo Martins, Alexandre Soares dos Santos, que afirmou que a tesouraria da empresa “dentro de um ou dois anos deve estar em Genebra”, já que “é lá que estão os mercados e a banca cá não dá a resposta” necessária, Faria de Oliveira disse que as condições de crédito às boas empresas melhorou.