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PEDRO A. SANTOS

Inicialmente publicado em Novembro de 2015

Uma nova corrente da Direita europeia pretende contrariar, ao mesmo tempo, a loucura despesista da esquerda e o discurso miserabilista dos defensores cegos da austeridade. Só Berlim, onde se cruza a ortodoxia do “oito ou oitenta”, não gosta da ideia. 

A Europa avança para o sétimo ano consecutivo de crise económica. A seguir à recessão, instalou-se a estagnação secular, um período de imobilismo económico semi-permanente. Países duramente afectados pela crise, como Portugal, ainda não regressaram ao PIB anterior a 2008.

O desemprego na UE é oficialmente de 11 por cento, mas o valor real é consideravelmente mais alto quando se consideram as pessoas que já perderam o direito a subsídio. O poder de compra não pára de cair. As grandes empresas multinacionais, pelo seu lado, têm vastas reservas de dinheiro, bem como as classes mais altas, mas não o investem no actual ambiente económico, com receio de não terem retorno. O ciclo é vicioso.

A esquerda europeia, sempre adepta de soluções fáceis, defende o expansionismo económico com recurso a impostos mais elevados, ou à contracção de mais dívida. A direita germânica insiste na austeridade como política “moralizadora” que vai expurgar todos os “pecados” dos não cumpridores. Não é por acaso que a palavra alemã para “dívida” também significa “culpa”.

Está estatisticamente provado que a Europa se encontra estagnada, em grande parte devido a um excesso de políticas austeritárias. Infelizmente, da forma como a UE está montada, a Alemanha arrasta os restantes países-membros atrás de si. Mas há uma nova corrente de direita que rejeita os extremismos da senhora Merkel e do senhor Schauble.

Proposta pouco ortodoxa…

“Atirar dinheiro de um helicóptero” é a metáfora usada por muitos académicos de direita, especialmente os monetaristas, para descrever uma política pela qual se distribui capital entre os cidadãos de um país.

É esta uma das ideias centrais do livro “Entre a dívida e o diabo: dinheiro, crédito, e o conserto da finança global”, da autoria de Adair Turner, académico, membro da Câmara dos Lordes do Reino Unido e antigo director-geral da Confederação da Indústria Britânica.

Na sua controversa obra, Lord Turner considera que na origem da actual crise esteve uma expansão económica “virtual” baseada em dívida e não em melhores rendimentos. De facto, os dados económicos mostram que os rendimentos relativos das classes média e baixa estão estagnados desde o início dos anos 90, embora o crédito se tenha tornado consideravelmente mais acessível. Os activos financeiros em 2008 ascenderam a 400 milhões de biliões de euros (18 zeros), várias vezes mais riqueza do que a que existe fisicamente no planeta.

O excesso de dívida, considera Turner, impede o crescimento económico e está a impedir a recuperação. Fica a nota, no livro, de que a dívida dos países ocidentais, em 1950, era de cinquenta por cento do PIB (em Portugal era consideravelmente menos), o que permitiu o elevadíssimo crescimento económico pós-guerra. A média das dívidas soberanas, hoje, é de 170 por cento dos vários PIB.

No entanto, na sua análise, o autor nota que uma enorme parcela da dita dívida pertence a outros órgãos do Estado, ou aos bancos centrais (por exemplo, só o Banco Central Europeu é “proprietário” de quase 8 mil milhões de euros de dívida portuguesa). A solução de Turner é simples: essa dívida devia, pura e simplesmente, “deixar de existir”. O mesmo aconteceria à dívida detida por países europeus, que seriam compensados com dinheiro criado pelo BCE. Passivos passariam a activos, que poderiam ser usados para estimular a economia sem recurso à contracção de mais dívida. Ao contrário das doutrinas das várias esquerdas, este programa seria executado sem recurso a um aumento de impostos, ou do deficit.

Quanto aos cidadãos, o incentivo ao consumo seria feito, preferencialmente, com a distribuição de “vouchers” por parte do Banco Central, que os recebedores teriam de usar até uma determinada data limite. Caso tivesse sucesso, este “novo dinheiro” seria injectado na economia, financiando mais postos de trabalho, aumentando a receita fiscal do Governo e o lucro das empresas privadas. Naturalmente, este projecto teria o efeito de aumentar a inflação, e é aqui que os nossos “parceiros” germânicos vetam qualquer política nesse sentido.

Alemanha acima de tudo e todos

Já diz o hino alemão, cantado com uma melodia roubada aos austríacos, que a Alemanha está “acima de todos”. Mais valia ser também o hino oficial da União Europeia. Até as tentativas mais moderadas de introduzir reformas monetárias no sistema da moeda única recebem sempre uma oposição determinada da ortodoxia germânica, que teme a inflação tal como teme o diabo. Literalmente.

O líder do Bundesbank, Jens Weidmann, chegou a pronunciar um discurso sobre inflação em que citou várias vezes os textos bíblicos. Noutra ocasião, em 2012, criticou as políticas de Mário Draghi com recurso à obra “Fausto”, de Goethe, descrevendo o satânico Mefistófeles, disfarçado de tolo, a convencer um imperador a imprimir grandes quantidades de dinheiro – o que resolve, por algum tempo, os problemas do Reino, mas acaba por gerar uma enorme inflação.

Weidmann foi o único político a votar contra a compra de dívida soberana por parte do BCE, uma das poucas políticas europeias que favoreceu Portugal nos últimos anos. Tendo nós abdicado da nossa soberania económica, seria de esperar dos líderes da UE uma análise baseada mais em dados económicos, e menos em textos sagrados ou poemas trágicos. Infelizmente, sem soberania monetária, há pouco que Portugal possa fazer sozinho para atenuar a grave crise económica que assola o País. Sem investimento, dificilmente se poderá expandir a frágil economia portuguesa, num quadro em que a via do despesismo não pode ser retomada, pois Portugal não tem mais crédito.

Turner foi aplaudido pela sua obra pela Europa fora, excepto em Berlim, onde a ortodoxia domina. Berlim tornou-se a âncora que afunda toda a Europa.

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