Disseram-nos que podíamos viver apenas a exportar “serviços”, sem a maçada de termos de produzir fosse o que fosse. Afinal, não era bem assim. Agora, sem indústria, com o sistema produtivo reduzido à expressão mínima, Portugal tenta competir num mercado infestado de “tubarões”.

Os números do Eurostat revelam a má notícia, o índice de produção industrial do nosso país ainda está abaixo dos níveis de 2010. Mas não parece haver no nosso País quem se preocupe muito com tal coisa: o debate sobre o tema tem sido escasso, e raramente se ouve aos políticos uma palavra de preocupação pela absoluta dependência produtiva em que nos encontramos.

Uma possível razão para essa indiferença é estarmos ainda a viver aquilo a que já alguém chamou “o mito da economia pós-industrial”, uma das fábulas mirabolantes que varreu o mundo desenvolvido durante 20 anos. A ideia era bonita, se bem que utópica: os cidadãos dos países “evoluídos” tinham chegado a um patamar tão elevado de superioridade que se podiam dar ao luxo de apenas prestar serviços uns aos outros, enquanto que países “plebeus” produziriam todos os bens de consumo de que nós precisávamos.

Premonição

weld-67640Era um sistema apenas preguiçoso, em que inevitavelmente se antecipava o fracasso. E os avisos foram sendo feitos. O livro “O mito da economia pós-industrial”, originalmente publicado em 1987 por dois importantes académicos (Stephen Cohen e John Zysman) e recentemente reeditado, lançava o alerta: o sector dos serviços é complementar ao da indústria (e vice-versa), e não uma alternativa que substitui o outro.

Os serviços precisam sempre de bens industriais: as lojas precisam de produtos para vender, os trabalhadores de escritório precisam de computadores, as linhas aéreas precisam de aviões, a imprensa de papel e maquinaria de impressão, o artista de telas e tintas, os hospitais de medicamentos – e, já agora, todos nós precisamos de pão, leite, carne, arroz e peixe…

A mensagem era clara: a desindustrialização acarretava um risco elevado – o de, no fim, o dinheiro acabar por ficar com os produtores industriais e de os serviços, sozinhos, não serem capazes de compensar a falta de exportações industriais.

Os resultados previstos nos anos 80 estão à vista hoje: desemprego estrutural elevado, crise política e social nos países que se desindustrializaram.

Foi uma premonição que acertou em cheio. O maior produtor industrial do mundo, a China, amealhou milhares de milhões de dólares, euros e libras, enquanto que o Ocidente, a brincar aos bancos e a criar dinheiro artificial através de crédito, criou uma bolha económica enorme de cujos efeitos ainda não se salvou.

O semanário “The Economist” revelou, numa das suas edições, qual foi a maior exportação britânica em 2014: capital. A velha Grã-Bretanha serve assim como um dos piores exemplos: está a sofrer uma severa hemorragia de dinheiro, tendo de usar capital acumulado para pagar importações.

Segundo o Eurostat, o Reino Unido conseguiu um simpático ‘superavit’ de 10 mil milhões de euros em termos de serviços prestados ao estrangeiro, mas isso não compensa o facto de os britânicos terem importado 400 mil milhões de euros em bens e só terem exportado 300 mil milhões.

Por outras palavras: 114 mil milhões de euros foram parar às mãos de estrangeiros, o equivalente a metade de toda a economia portuguesa. Portugal já passou por algo similar.

Da “utopia” de Abril ao pesadelo do real

O processo de destruição da nossa indústria começou no dia 26 de Abril de 1974. Imposta a revolução, era hora da loucura radical. A nossa agricultura foi arrasada por “ocupações” e expropriações selvagens com o apoio do “governo” de Lisboa, a nossa indústria foi desmantelada pela insanidade que foram as nacionalizações.

Grandes grupos económicos, como a CUF, instituições que teriam sido necessárias para competir no mercado global, foram espoliados, colocados sob controlo de comissários políticos e vendidos a retalho.

A “descolonização”, servindo apenas os interesses da União Soviética, deixou milhares de milhões de contos em capital, infra-estrutura, investimento e até mesmo tecnologia nas províncias ultramarinas. Tudo para depois arder na fogueira das guerras civis que deflagraram imediatamente. Os cubanos bem se riram com a situação, levaram para casa milhões em tecnologia agrícola e património espoliado aos portugueses.

Ainda hoje não se sabe quanta riqueza Portugal perdeu nos anos de 1974 e 1975, mas o certo é que não demorou muito até o FMI fazer a primeira, mas infelizmente não a última, visita ao nosso País.

Foi com base nesta economia fragilizada que a Europa entrou por Portugal adentro. Tal como um traficante de droga, a então chamada Comunidade Económica Europeia perguntou ao jovem regime abrilista: “psssttt, queres subsídios?”.

E assim ficámos subsídio-dependentes.

Nos anos 80 e 90, influenciados por uma mistura do mito da sociedade pós-industrial com chico-espertismo, fomos desmantelando a indústria lusitana em troca de subsídios europeus.

A vasta maioria destes subsídios destinava-se, muito teoricamente, a modernizar a produção nacional, mas o fraco controlo sobre a sua aplicação e a corrupção ao nível do poder político teve um resultado desastroso: os Porsches abundaram, mas o produto nacional não.

Em troca destes subsídios, Portugal comprometeu-se a abrir as suas fronteiras e o seu mercado interno e, com o tempo, o produto chinês jorrou pelas nossas fronteiras adentro. A nossa indústria não conseguiu competir e muita dela faliu.

No Norte, outrora a região mais industrializada do País, hoje o que não faltam são ruínas de fábricas.

Em 2013, Portugal exportou bens no valor de 46 mil milhões de euros, mas em contrapartida importou 54 mil milhões – um prejuízo de 7 mil milhões. Mesmo assim, este é o valor mais baixo desde os anos 90. A nossa capacidade industrial foi tão desbaratada que em 2008, no auge da loucura do consumismo a crédito, Portugal perdeu 16 mil milhões de euros para o estrangeiro. Para se compreender a perda: ela equivale à compra de 17 submarinos ou a sete nacionalizações do BPN. Sócrates pouco mais fez do que andar a tentar vender computadores Magalhães aos venezuelanos.

Só já no mandato de Passos Coelho a hemorragia de dinheiro para o estrangeiro foi estancada, mas em contrapartida a China estava prestes a dar uso ao capital acumulado.

Competição injusta

container-ship-560789Desde o início da recessão na Europa que a China está a comprar propriedade europeia. Esta propriedade está a ser vendida a preço de saldo por donos com falta de liquidez e a ser adquirida com o dinheiro que em tempos nós enviámos para a China. Em Portugal, os chineses compraram um quarto da Rede Energética Nacional (REN) e uma empresa estatal, controlada pelo Partido Comunista Chinês, tornou-se a maior accionista da EDP.

Com apoio funcional dos “vistos gold”, cada vez mais imobiliário português transita para chineses. Mas nem grandes e históricas marcas europeias escapam ao surto de aquisições do “reino do meio”. As famosas Volvo, MG e Rover (agora escrita como Roewe porque os chineses não conseguem pronunciar Rover) foram adquiridas por escassos milhares de milhões de euros. A Volvo, por exemplo, foi comprada à Ford por apenas mil milhões. Em 2014, o investimento chinês na Europa superou o norte-americano pela primeira vez na História.

Durante décadas, a classe dirigente chinesa, acoplada ao Partido Comunista, beneficiou de subsídios estatais generosos, de uma moeda artificialmente baixa e da ausência de concorrência dado o controlo absoluto do partido sobre o mercado chinês. Usando o poder da mão-de-obra semi-escrava, “made in China” tornou-se uma frase demasiado comum no mundo.

Começou com t-shirts, afia-lápis e sapatos, e avançou para motores, máquinas industriais e computadores. A fama (geralmente merecida) de atroz falta de qualidade pouco fez para diminuir a procura de produto chinês. Pior, o governo da China usa medidas altamente proteccionistas para “blindar” a sua economia, como impostos punitivos sobre importações e quotas-limite para a entrada de produtos vindos de fora.

Para Portugal, tornou-se impossível competir: muitos dos nossos concidadãos morreriam à fome se lhes pagássemos o mesmo que se paga a um trabalhador chinês: um engenheiro na China ganha 250 euros por mês, um carpinteiro ou um mecânico 120 euros e um pasteleiro 75 euros.

Ordenados que apenas lhes permitem sobreviver, embora com grandes dificuldades, devido ao baixo custo dos bens de consumo no seu país, fruto da moeda artificialmente desvalorizada e do facto de a China produzir internamente quase todos os bens de que os seus habitantes precisam.

Em contrapartida, Portugal importa grande parte do que os seus cidadãos consomem, e os trabalhadores são pagos em euros, uma moeda sobrevalorizada.

Infelizmente, não temos como defender-nos.

Desvalorizar a nossa moeda é impossível, visto que estamos presos a um euro ainda gerido para beneficio de outros. Colocar barreiras proteccionistas também é impossível: não só a UE o proíbe, como seria um exercício em inutilidade devido aos tratados que assinámos.

Bastaria aos chineses exportar para qualquer país da UE, e depois esse país exportar para Portugal através das fronteiras abertas da União.

Mas, mesmo assim, o comércio livre continua a ser uma religião em Washington DC, Berlim e Bruxelas. É nestas capitais que são negociados grandes acordos de liberalização de fronteiras, resultando em “pérolas” da diplomacia como o novo tratado transatlântico.

Mas, curiosamente, estas nações não são seguidoras devotas da religião que pregam.

Faz o que digo, não o que faço

Segundo o “Global Trade Alert”, um grupo de estudos coordenado pelo Centro para a Investigação de Política Económica, instituição sediada no Reino Unido, os Estados Unidos da América, o grande defensor do comércio livre, é dos países mais proteccionistas do mundo.

Tecnicamente, muitas das medidas que os EUA colocam em prática são ilegais face aos tratados que o próprio país assinou, bem como segundo as regras da Organização Mundial de Comércio, mas os Estados Unidos dão-se ao luxo de ignorar as normas que eles próprios ajudaram a criar. E muitas vezes mudam as normas a seu favor.

Um exemplo concreto é o facto de os EUA serem o único país que tem direito a uma excepção sobre a implementação de taxas punitivas de importação no tratado que formalizou a entrada da China na Organização Mundial de Comércio.

Durante os anos 80, os americanos tinham feito algo similar, dessa vez com os japoneses. Nessa altura, face à evidência de os carros “made in USA” não terem capacidade para competir com os modelos japoneses, os americanos impuseram, sob ameaça de um mini-embargo, uma “quota voluntária” de exportações de carros japoneses para os EUA.

No entanto, quando a UE quis aplicar uma medida similar sobre o mercado dos têxteis, Washington disse resolutamente que não.

Ao mesmo tempo que os EUA insistem na liberalização da agricultura europeia, os agricultores americanos são generosamente subsidiados, razão pelo qual os consumidores americanos beneficiam do leite mais barato do planeta.

Até mesmo no mercado aeroespacial, no qual a empresa Boeing compete ferozmente com a Airbus, os americanos queixam-se constantemente dos apoios que a UE dá à empresa pan-europeia, ao mesmo tempo que subsidia activamente a Boeing através da adjudicação de chorudos contratos militares. 35% das receitas da Boeing provêm de contratos com o governo dos Estados Unidos.

A organização bizantina que é a UE tem dificuldade em lidar com as pressões dos EUA e da China, mas quando os interesses de algumas nações são colocados em questão, elas conseguem resolver os seus problemas.

A França não teve qualquer dificuldade em contornar o embargo sobre a venda de armamento que a UE aplicou à China para lucrar alguns milhões. Similarmente, a Alemanha sempre defendeu o comércio livre até que a China planeou começar a vender aero-geradores e painéis solares na Europa. Nesse momento, apareceram rapidamente medidas de protecção dessa indústria.

E, no entanto, quando chegou o momento de nós protegermos os têxteis nacionais, a resposta foi que a indústria portuguesa tinha que se tornar mais competitiva.

Dois pesos, duas medidas, e duas pedras na mão sempre que se trata de Portugal.