John C. Edmunds, Charles Winrich, Mark F. Lapham

Uma solução simples, mas genial, pode ajudar a mudar radicalmente as pequenas economias rurais, tropicais e insulares. Aqui fica a sugestão de três especialistas a nível mundial sobre o assunto.

Analisemos três assuntos teoricamente díspares, mas operacionalmente relacionados: um, a óbvia insuficiência da teoria económica neoclássica para analisar as micro-economias rurais, tropicais e insulares; dois, as consequências negativas, bem como a falta de aplicabilidade, das políticas económicas governamentais criadas com base nestas teorias, quando aplicadas às micro-economias; três, a razão pelo qual um investimento muito modesto em pequenos geradores eléctricos baseados na energia eólica, solar ou particularmente na biomassa, pode dinamizar centenas de micro-economias rurais, tropicais e insulares.

A teoria económica clássica tem a sua génese em países que se situam nos climas temperados da Europa do Norte, num longo período de industrialização e urbanização. Em economias localizadas nestas condições, e nestes pontos do planeta, o controlo de recursos escassos, como capital, matéria-prima e mão-de-obra qualificada, é uma necessidade fulcral. Tendo isso em conta, logicamente todas as análises, bem como todas as políticas resultantes dessas análises, são feitas na óptica da escassez, em vez da abundância, de recursos.

A aplicação directa destas teorias neoclássicas a ambientes rurais, tropicais e/ou insulares inevitavelmente conduz-nos à conclusão de que não existe qualquer esperança de sucesso para estas micro-economias: elas encontram-se quase totalmente desprovidas dos tais escassos recursos-chave.

Segundo estas teorias, a única esperança das nações africanas e latino-americanas, bem como da maioria das nações asiáticas, reside em atrair jovens para enormes metrópoles, que por sua vez já se encontram num processo de autodestruição. Estes jovens vão tentar competir em áreas como a produção industrial ou os serviços, onde existe um enorme excedente de trabalho, bem como demasiados novos recrutas. O espaço rural fica, então, desprovido da sua juventude, bem como do seu futuro.

Nós não sugerimos que a teoria económica neoclássica é uma teoria errada, apenas que ela não é adequada para planear economias que são drasticamente contrastantes com aquelas onde foi inicialmente pensada.

O Noroeste Europeu, bem como o Nordeste dos Estados Unidos, são locais frios onde até os recursos mais básicos são escassos. Só para se conseguir sobreviver é necessário um fornecimento constante de ferro e carvão ou petróleo, uma infra-estrutura sofisticada e uma gestão cuidadosa da escassez. Pelo contrário, economias tropicais como as da América Central ou das Filipinas, não têm necessidade de carvão ou de ferro, e necessitam apenas de pouco, ou mesmo nenhum, petróleo. As suas redes de transporte podem ser descritas, no melhor dos casos, como caóticas e com períodos de funcionamento apenas ocasionais. O que estas economias, no entanto, têm é quantidades maciças de terreno, água, luz do sol e mão-de-obra (embora largamente não qualificada). Todos estes recursos encontram-se virtualmente por explorar.

Consequentemente, sugerimos uma análise baseada não apenas em recursos escassos, mas naqueles que são abundantes. Se existe um lote de terra, o que pode naturalmente ser aí plantado? Se existe abundância de água da chuva, luz do sol, e mão-de-obra disponível, o que se pode fazer com estes recursos? Particularmente, o que pode ser feito sem uma infra-estrutura sofisticada de transportes, ou sem muito capital ou gestores qualificados?

Se uma análise baseada na normalidade norte-americana é inadequada, torna-se óbvio que políticas centradas nesta normalidade estão igualmente condenadas a falhar. Análises e cálculos baseados na escassez e com uma óptica limitada ao campo do capital e do trabalho invariavelmente conduzem a tentativas de industrialização, bem como de criação de serviços, de acordo com o modelo norte-americano. O resultado é, de forma excessivamente comum, um desapontamento para os habitantes destes países. Seja como for, as ilhas e as áreas rurais para além do alcatrão das grandes cidades não costumam sequer entrar na equação. Em alternativa a isso, vamos gerir abundância, não escassez.

Antes de passarmos às recomendações concretas de políticas económicas a adoptar, retenhamos a breve síntese da economia feita por Samuel Johnson: “Se acabares a semana com seis cêntimos a menos, morres à fome; se acabares com seis cêntimos a mais, estás rico”. Traduzindo: mesmo as mais pequenas mudanças nos fluxos de caixa tendem a produzir mudanças radicais para um indivíduo ou uma comunidade, sejam elas positivas ou negativas.

Então, que pequena, mas finita, mudança pode ser muito rapidamente introduzida numa economia insular, tropical e/ou rural de forma a aumentar radicalmente a sua viabilidade? Simples: é só processar a vegetação tropical e transformá-la em energia. Junte-se a isso a energia eólica e solar. Faça-se isso agora mesmo!

Qualquer comunidade, não importa o quão isolada esteja, usa electricidade, cuja produção deriva geralmente de materiais importados como gás propano, ou de um derivado do petróleo. Ora, há cada vez mais literatura disponível sobre a transformação de biomassa em metano, e nesta área temos bastantes exemplos de unidades geradoras, de tamanhos variáveis, em pleno funcionamento. É isso que sugerimos: que, em vez de se enviar moeda forte para uma economia marginal de forma a financiar empresas petrolíferas, se pague aos trabalhadores locais pela apanha e entrega de material verde (material esse que chega a ter de dois a três metros de altura em cada estação). Uma central eléctrica funcionando à base de biomassa poderia também processar dejectos humanos e animais, não só gerando ainda mais electricidade, mas também ajudando a melhorad a higiene e o saneamento nestes países.

Este material verde cresce em solo tropical, que é pobre, e onde a plantação de “culturas de rendimento” é, no mínimo, marginal. Este material seca sempre que se entra na estação seca, e é geralmente queimado como lixo. Assim, se for queimado pelo seu valor energético não piora a situação do “efeito estufa” na nossa atmosfera.

Onde o material verde é menos abundante e/ou o capital e mão-de-obra qualificada se encontram de forma mais abundante, que se adicione painéis solares ou aero-geradores de forma a converter energia solar e eólica em mais dinheiro local. O fluxo de caixa melhora, talvez de forma significativa, e os rendimentos locais também, sem prejuízo do ambiente.

Quem perde com esta solução alternativa? O distribuidor local de gás propano, que pode ser uma pessoa de poder e influência. Então, que se lhe ofereça primeiro a ele a gestão dos geradores, bem como o financiamento e a ajuda técnica para a sua operação. Não queremos que ele fique mais pobre, queremos sim que ele transfira uma modesta quantidade de dinheiro para as famílias locais, em vez de o entregar às grandes multinacionais petrolíferas.

As ilhas arruinadas pelos furacões das Ilhas Filipinas e algumas áreas rurais da Europa são sítios muito bons para se começar. As agências de financiamento e de ajuda externa que comecem a fazer o seu trabalho!

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