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Precisamente quando a China quer apresentar-se ao mundo como a “mega-super-potência” emergente, milhares de chineses abastados e com formação superior estão a abandonar o seu país para virem viver no Ocidente. Porquê? Será que o Império do Meio tem pés de barro?

As pessoas votam com os pés, esta é uma realidade histórica da qual é difícil fugir, por mais que certos regimes tentem escondê-la. Porque com os pés, literalmente, se aproximam e se afastam dos regimes que lhes disputam o voto, a confiança e as forças.

As antigas repúblicas populares bem apregoavam ser o paraíso dos trabalhadores, mas tiveram que construir muros para evitar que os “beneficiários” fugissem. Similarmente, apesar dos discursos positivos (e eleitoralistas) da nossa classe política, a emigração de portugueses continua a aumentar desde a bancarrota de Sócrates, e continuará durante os próximos anos.

Entretanto, também os chineses abastados, e de classe média alta, estão a passar um voto de não-confiança ao regime de Pequim: numa sondagem recente, 40 por cento admitiram estar a considerar emigrar.

Para os ocidentais, e portugueses em especial, adeptos do social-derrotismo e do nacional-masoquismo, esta parece certamente uma movimentação estranha: afinal, a China parecia ser o grande magnate que ia superar as super-potências americana, russa e europeia e se preparava para um dia mandar em Portugal inteiro.

Mas, na verdade, nem tudo está bem para os lados do Reino do Meio, e a grande compra de propriedades em Portugal por parte de chineses reflecte isso mesmo.

China endividada

china+2Uma crise na China tem sempre de ser tratada como uma coisa relativa. Enquanto que para nós, ocidentais, uma crise é uma recessão, para os chineses uma crise é somente uma quebra nas taxas de crescimento. Mas, aqui, os números podem enganar: uma taxa de crescimento de 5 ou 7 por cento do PIB chinês não só é inferior, em termos de economia real, ao crescimento americano de 3 por cento, como é insuficiente para uma nação que, para todos os efeitos, ainda é muito pobre.

Os relatos vindos dos Estados Unidos sobre o iminente colapso da economia chinesa são, em termos gerais, exagerados, e provavelmente politicamente motivados em vez de isentos. O Império de Mao ainda tem um pulso forte sobre os agentes económicos e mantém-se em condições de evitar que haja uma recessão. Mas os sinais recentes não são positivos.

A célebre “bolha imobiliária” de que os norte-americanos falavam acabou por não rebentar de forma desorganizada, mas isso não evitou que o preço das casas tenha caído, em média, 6 por cento só no ano passado. O combate à especulação na China conseguiu reduzir o preço do imobiliário, mas no processo aniquilou milhares de yuans (moeda local) às famílias locais, que tinham grande parte das suas poupanças em propriedade.

Outro problema que a China enfrenta é a sua enorme dívida. Tal como em Portugal durante o consulado de Sócrates, o Estado chinês injectou quantidades astronómicas de capital na economia através de grandes obras públicas, muitas das quais sem retorno económico. Mas a forma principal de injectar dinheiro foi através dos bancos. Estas entidades controladas pelo Estado partidário foram forçadas a emprestar dinheiro com juros muito baixos a empresas que o regime comunista tinha vontade de incentivar, especialmente na área do imobiliário.

Ocidente compra menos

Antigamente, tal como em Portugal, a dívida das empresas públicas e dos bancos controlados pelo Estado não era considerada na contabilidade orçamental, mas agora passou a entrar nas contas. E é assim que descobrimos que a China tem uma dívida gigantesca. Se por um lado o Estado-governo, por si só, “apenas” deve o equivalente a 50 por cento do PIB nacional (Portugal já vai em 130 por cento), as empresas e o sector financeiro sob controlo estatal elevam esse valor para 200 por cento. E ainda mais preocupante para os comissários económicos é o facto de que a dívida das famílias subiu de 1 por cento em 2000, para mais de 40% do PIB no ano passado.

Associada ao decréscimo dos preços está uma quebra na produção de matérias-primas e nas contratações na área da construção civil. Resultado: o volume de crédito malparado subiu exponencialmente. A China costumava pagar a sua dívida através do crescimento económico, mas agora já não consegue crescer à mesma velocidade de antigamente, logo o peso da dívida continua a crescer.

Já nem as exportações salvam a República Popular, visto que o Ocidente importa hoje muito menos do que durante a fase da loucura do crédito fácil. Um certo sentido de patriotismo económico também está a dificultar a vida aos chineses. Gigantes americanos do retalho como o Wallmart, numa tentativa de não perder clientes, vergaram-se à opinião popular e já prometeram, e estão a cumprir, que grande parte dos seus produtos passariam a ser fabricados nos EUA. Na velha Europa, entretanto, o consumo afundou por completo, um efeito da anemia económica do velho continente.

Sem as opções do passado, Pequim passou então ao plano B.

Consumo à força

china+3Apesar de se afirmar ao mundo como “moderno”, o Estado do Partido Comunista Chinês continua a exercer um enorme controlo sobre as pessoas e as famílias. Pequim apenas permitiu aos chineses a possibilidade de comprarem casa, automóveis e electrodomésticos porque os planos económicos o reclamavam.

Depois de décadas de condenação da “dissolução consumista do capitalismo”, os descendentes comunistas de Mao preferem que o glorioso proletário chinês se endivide e esbanje o dinheiro em bens de consumo.

Contudo, graças a uma longa e persistente doutrinação maoísta, o chinês médio ganhara hábitos de grande frugalidade e estava a poupar demasiado. Como tal, o governo decidiu tomar medidas drásticas: fez descer o preço das casas e os juros bancários para mínimos históricos. Para todos os efeitos, o Estado disse aos chineses para esquecerem a poupança e começarem a gastar.

Para milhares de chineses bem informados, este foi o sinal de alarme e a prova última da desagregação económica do gigante asiático.

A saga dos vistos Gold

Para uma nação tão antiga como a nossa, a compra de grande parte do património nacional por parte de um povo distante, culturalmente estranho, é algo que não pode deixar de causar preocupação. Mas, na generalidade, os vistos Gold e os investimentos privados chineses são menos uma tentativa de nos dominar pela força do dinheiro, e mais uma escapatória face a um regime em crise.

Cerca de dois terços dos chineses mais ricos e com maior qualificação técnica e académica estão a comprar propriedade em países como Portugal, muitos na esperança de poderem ficar a residir nos países de acolhimento. Longe de uma tentativa de conquista, a corrida aos vistos Gold representa um enorme êxodo de pessoas em busca de um local onde possam colocar o seu dinheiro a salvo.

Portugal, tal como grande parte dos países do Ocidente, tem leis fortes que protegem a propriedade privada – leis essas que não existem na China, onde o Estado é, em ultima instância, dono e senhor de pessoas e bens. Quando entrevistados pelo ‘Wall Street Journal’, vários empresários chineses de sucesso responderam que a razão dos enormes investimentos que têm vindo a fazer nos Estados Unidos era simples: desejo de criar um pé-de-meia seguro para o dia em que se reformassem. Um dos entrevistados reconheceu que a China “ainda é um país muito atrasado”.

Muitos empresários têm também uma razão extra para fugirem: quando se encontram, muitas vezes acidentalmente, do lado errado do favor político, aparecem invariavelmente na lista dos “mais procurados”.

Não é só cá que os vistos Gold estão a ser passados em grandes quantidades. Nos EUA, país com práticas ainda mais restritivas em termos de imigração, foram emitidos 6.895 vistos Gold só este ano. O Canadá foi forçado a suspender o seu programa de vistos Gold devido ao excesso de procura.

Mas não é só por razões puramente económicas que os chineses fogem: é também pelo enorme atraso em que ali se vive.

O inferno dos trabalhadores

Protective Measures Taken Against Spread Of SARS In Asia“Mesmo o indivíduo mais rico tem de conviver no mesmo espaço com os cidadãos comuns, nem que seja a respirar o mesmo ar” – foi assim que um milionário chinês justificou ao ‘New York Times’ a sua decisão de abandonar o país. Apesar da sua enorme fortuna, o ar poluído de Pequim estava a arruinar-lhe a saúde.

Outra entrevistada, desta vez para o ‘Wall Street Journal’, é uma jovem mãe licenciada da classe média alta. Estava de partida por causa da asma da filha: “respirar livremente é um direito básico”, explicou.

A outros incomoda o facto de não poderem sair da sua “gaiola dourada”, pois a criminalidade na China ainda é elevadíssima. Para a classe média educada ainda existem mais problemas: a qualidade das escolas nas cidades está a cair a pique e o sistema de ensino mantém-se demasiado rígido, não sendo fundamentalmente alterado há quase um milénio, sobrevivendo até à loucura da revolução cultural. Aliás, a mesma mãe que abandona agora o país também o faz porque os talentos da sua filha se encontram nas artes e na criatividade, algo quer ela reconhece que o monolítico sistema educativo reprime activamente em prol de memorização, obediência e sistematização.

Não há como esconder o facto de que a China é um país paupérrimo, mas os números inflacionados do PIB esconderam durante muitos anos essa realidade. Os mais recentes estudos, em vez de analisarem números oficiais de escassa credibilidade, medem índices reais como os direitos de propriedade, a estabilidade legal, a saúde, a educação, as oportunidades e a mobilidade social. E em todos eles a China aparece quase no final da tabela mundial.

Para muitos chineses abastados e com formação, a opção é clara: ou ficam e sofrem, ou transferem-se para um país como Portugal, onde podem desfrutar de uma vida confortável, sem os problemas de um regime opressivo e de uma sociedade fracturada e poluída.

Um número cada vez maior de chineses está a votar com os pés, e o voto deles é contra Pequim e o seu regime.

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