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Foi a grande notícia do fim do ano: o Sporting, o Benfica e o Porto assinaram acordos milionários de direitos de transmissão de eventos desportivos, bem como de publicidade, com as operadoras NOS e MEO. Só que a factura acaba sempre por ir parar a alguém – geralmente os mais pequenos…

Numa vaga de fervor emocional que só o futebol parece causar por estes dias, adeptos fervorosos chegaram ao ponto de publicar gráficos e folhas de ‘excel’ pela internet fora, numa tentativa de demonstrar que o seu clube fez o melhor negócio. O que não seria este País se tanto entusiasmo se repetisse com o Orçamento do Estado? O que ficou por explicar nos jornais é a questão do costume: quem paga a conta?

No total, os “três grandes” vão receber quase 1,4 mil milhões de euros durante uma década. Se contarmos com os restantes clubes da liga, incluindo a notícia de que o Sporting de Braga poderá auferir 100 milhões de euros, e de que o Benfica poderá tentar renegociar o seu acordo para a casa dos 600 milhões de euros, então os valores envolvidos atingem valores muito elevados, e nunca vistos na nossa praça desportiva.

Esta vaga de “generosidade” parte de uma guerra concorrencial entre a empresa NOS e a Altice, a empresa israelo-francesa que comprou a PT e, por arrasto, a MEO. O objectivo final da Altice, segundo apurou o semanário ‘Expresso’, teria sido mesmo que os jogos de futebol, o grande passatempo e paixão nacional, passassem a ser transmitidos em exclusivo na MEO, ficando os clientes da NOS, Cabovisão ou Vodafone TV sem possibilidade de ver o seu clube jogar.

Ambos os lados aumentaram a parada até se ter chegado aos valores finais que foram anunciados, tendo a NOS resistido com sucesso à ofensiva comercial da MEO. Os clubes, pela sua parte, ganharam um financiamento nunca visto, tendo mais do que duplicado os valores que recebiam anteriormente. No entanto, e com parcialidades clubistas colocadas devidamente aparte, no fim estes negócios têm custos, e “alguém” tem de os pagar…

2016 é ano de aumentos

Se o estimado leitor gosta de ver “a bola”, então fique a saber que a sua factura vai aumentar, em média, 4 por cento já em Janeiro. Aliás, segundo um relatório da Autoridade Nacional de Comunicações, ANACOM, entre 2011 e Novembro de 2015, “Portugal foi o país da U.E. com o aumento de preços mais elevado” nos serviços de telecomunicações, nos quais se incluem os pacotes de televisão. No estudo realizado pela ANACOM, fica estabelecido que os preços aumentaram 3,5 por cento durante o ano de 2015, um valor consideravelmente mais elevado do que a média da União Europeia, que viu um aumento de apenas 0,6 por cento. No mês de Novembro os preços das telecomunicações na UE chegaram inclusive a cair 0,20 por cento.

Já segundo um relatório encomendado pela Comissão Europeia, os preços dos pacotes de telecomunicações em Portugal são, em média, 20 por cento superiores aos dos restantes Estados-membros, incluindo os mais ricos.

Uma parte destes aumentos irá, sem dúvida, para financiar esta “largesse” paga aos clubes. A operadora NOS, que resultou de uma fusão entre a ZON e a OPTIMUS, garantiu uma enorme parcela dos direitos desportivos dos principais clubes de futebol, com a notável excepção do Futebol Clube do Porco. A NOS também é dona de metade do canal de televisão por subscrição Sport TV, sendo que a outra metade é detida pela PPTV, do empresário Joaquim Oliveira.

Assim, com os direitos desportivos exclusivos, garantem que os jogos de futebol são transmitidos apenas neste canal, cuja subscrição supera os 25 euros mensais. A este valor acresce, naturalmente, o valor que o cliente tem de pagar ao operador pelo pacote básico de televisão. Para a NOS, deter os direitos exclusivos de tantos clubes é um bónus, pois irá ganhar dinheiro tanto dos seus clientes, como dos clientes dos restantes operadores.

Portugal isolado

Entretanto, com estes acordos milionários, o plano da Liga de Clubes de centralização das negociações dos direitos desportivos cai por terra. A ideia foi uma das plataformas centrais da candidatura de Pedro Proença, actual líder da organização, que tinha como objectivo criar uma estrutura similar à que existe em quase todos os países da Europa, onde os rendimentos dos direitos televisivos são partilhados de forma equitativa. Cada liga desportiva negoceia os direitos televisivos em nome dos seus clubes-membro, e redistribui essa maquia de uma forma mais equilibrada. Cada clube depois gere, e mantém exclusivamente para si, todos os lucros de publicidade, venda de bilhetes e ‘merchandising’.

A famosa Premier League inglesa usa este sistema, e o primeiro classificado apenas aufere mais 2 vezes mais do que o último. A Bundesliga germânica faz o mesmo, bem como a liga francesa e a liga italiana, e agora até a liga espanhola. O objectivo desta estratégia é evitar grandes disparidades de rendimentos entre clubes, criando um campeonato mais competitivo e, por arrasto, mais aprazível para o telespectador e adepto desportivo. O resultado é um lucro muito maior para todos, visto que, desde que esta fórmula foi adoptada, 14 dos 30 clubes mais ricos do mundo são da Premier League. A Liga inglesa em si, muito mais competitiva, consegue negociar valores elevados, e assinou, há poucos dias, um acordo de 7 mil milhões de euros anuais para três anos com várias operadoras para distribuição doméstica e internacional.

Espanha operava segundo o modelo português, pelo menos até este Verão. Os dois principais clubes, o Real Madrid e o Barcelona, negociavam sozinhos com as operadoras, e concentravam em si quase todos os rendimentos dos directos televisivos da liga espanhola, auferindo 140 milhões de euros por época. Este estado de coisas permitiu uma inflação descontrolada dos gastos destes clubes, e os ordenados multimilionários de jogadores como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.

O Estado espanhol há muito que se encontrava preocupado, pois embora tivesse duas das empresas desportivas mais lucrativas do mundo no seu território, quase todos os restantes clubes tinham dívidas astronómicas ao fisco. Mariano Rajoy, primeiro-ministro de Espanha, decidiu intervir e determinou, por lei, que os direitos televisivos passariam a ser negociados centralmente, e que a Liga espanhola passaria a distribuir esses rendimentos de forma equitativa. A Liga conseguiu chegar a um acordo de distribuição de 3 mil milhões de euros. Madrid espera, agora, que impostos em atraso sejam finalmente pagos.

Em Portugal, as tentativas de se chegar a um acordo desta natureza saíram gorados mais uma vez, e agora durante uma década não há hipótese de se alterar nada. Estamos outra vez na cauda da Europa.

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    … “com a notável excepção do Futebol Clube do Porco” …