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Ainda não é desta que podemos dormir descansados. Sete anos após o início de uma das maiores recessões económicas que o Ocidente já conheceu, os mercados mundiais voltam a tremer. O modelo económico centrado na globalização e nos mercados livres pode não sobreviver a mais uma queda no abismo financeiro. E Portugal está no centro da tempestade.

A “grande recessão” ainda não está acabada na Europa. Prisioneiro da mitologia da globalidade, o Velho Continente escancarou as suas portas, apenas para descobrir que é pouco competitivo face à mão-de-obra quase escrava de outros países. A piorar ainda mais o caso, os Estados europeus continuam inflacionados, excessivamente pesados para economias que já os suportam com grande dificuldade através de pesadíssimos impostos sobre uma população cada vez mais envelhecida.

Todos estes problemas puderam ser ignorados enquanto a indústria financeira manteve os Estados europeus artificialmente mantidos com crédito barato. Partidos e políticos pouco escrupulosos continuaram a ser eleitos na base do despesismo, ficando sempre à espera de uma mirífica bonança económica para poderem pagar as dívidas que iam contraindo.

Essa bonança nunca chegou: em vez disso, o sistema financeiro que sustentava artificialmente a Europa estoirou, e os últimos anos têm sido de intenso reajustamento para as economias mais vulneráveis.

Os europeus decidiram, por isso, copiar a Alemanha, centrando-se em criar poderosas economias de exportação. Mas a recessão, desta vez, é mundial. E os prometidos “grandes motores” da economia global estão todos com problemas.

China: o fim da fábula

Mil milhões de consumidores – foi assim que nos “venderam” a China. Numa mirabolante operação de ‘marketing’, o regime chinês passou de besta a bestial sem nunca ter alterado a sua estrutura política. A opressão de Mao subsiste, mas sob a fachada dos edifícios brilhantes de Shangai, que substituíram os cartazes revolucionários do fracasso criminoso do “grande salto em frente.”

Desde a fatídica visita de Nixon à China, nos anos 70, o Ocidente habituou-se a aceitar um regime que consegue a proeza de misturar os piores aspectos negativos, tanto do capitalismo como do comunismo, evitando quase todos os aspectos positivos. Aceitamos na expectativa de se virmos a ganhar uns cobres, e hoje até uma parte significativa da rede energética portuguesa (através da REN) pertence à metade comunista da China.

Mas o “milagre” tem limites. A imprensa, como sempre escrava do imediatismo, durante muito tempo defendeu a emergência da China como maior potência mundial, ao mesmo tempo que fechou os olhos ao facto de que a economia desse país é muito pouco sofisticada ou desenvolvida.

Os sinais de uma crise no “Reino do Meio” estão bem visíveis desde o início deste ano: os níveis de dívida dos bancos estatais superam agora o nível de dívida dos bancos norte-americanos, imediatamente antes da crise do ‘subprime’. No caso de uma onda de crédito malparado (e o fim da infame “bolha do imobiliário” indica que isso pode acontecer), o Estado chinês poderá ver-se a braços com uma súbita crise bancária e de financiamento.

O fracasso do esclavagismo interno chinês está presente no facto de que não existe uma população que agora compre os produtos que a China fabrica em excesso. Sem mercados de exportação, sem consumo interno e com o Estado a ficar com menos capacidade de investir em projectos dispendiosos, a China “apenas” cresceu 5% no início deste ano. Oficialmente – pois, como estes dados são inflacionados pelo regime, os especialistas consideram que o valor real se ficará pelos 2%.

Angola falida

O actual regime português, que já vai na terceira bancarrota, nunca teve grande problema em aceitar a opressão político-social em Angola, desde que esta continuasse a financiar a falida III República Portuguesa. A relação entre os dois países até correu bem durante algum tempo: Angola usou Portugal como porta de entrada nos mercados europeus, Portugal usou Angola como mercado onde despejar produtos.

Mas a árvore das patacas secou no final do ano passado. A queda abrupta do preço do barril de petróleo foi um duro golpe nas finanças de um país em que 93% das exportações dependem do “ouro negro”. Os portugueses que foram em busca de uma oportunidade de trabalho descobriram que lhes queriam pagar em kwanzas, e começaram a regressar. As exportações para Angola começaram a diminuir, visto que nenhuma empresa nacional está disposta a aceitar kwanzas como pagamento.

Este é o primeiro em que o crescimento do PIB de Angola fica abaixo do crescimento da população, o que significa que o PIB per capita entrou em queda: existe menos riqueza para distribuir por cada angolano. O “milagre angolano” chegou ao fim.

Brasil: regresso à realidade

Outro foco de excitação mediática tem sido o ‘el dorado’ que os portugueses descobriram há mais de 500 anos, o Brasil. As terras de Vera Cruz foram-nos apresentadas como “o país do futuro” (dizem as más línguas que sempre o será), e até nos sujeitámos a um humilhante acordo ortográfico para, na expectativa dos seus defensores, explorarmos melhor as oportunidades económicas, criando uma economia atlântica mais forte.

O acordo (infelizmente) ficou, a prometida prosperidade brasileira foi-se. O país vai entrar este ano em recessão, fruto da política económica desastrosa dos governos socialistas do Partido dos Trabalhadores. O despesismo tem sido a ordem do dia dos governos de Lula da Silva e Dilma, enquanto falham as medidas para reforçar a competitividade do país.

O escândalo do “petrolão” assustou os investidores estrangeiros, e a mão-de-obra brasileira é excessivamente tosca para atrair novas empresas (estima-se que 30% dos brasileiros são analfabetos), e ao mesmo tempo, graças às políticas de Dilma e Lula, excessivamente cara.

O acesso privilegiado à economia brasileira, que Portugal tanto desejava, não se veio a concretizar. O Partido dos Trabalhadores continua a insistir numa economia altamente protegida, e até o nosso vinho do Porto paga taxas elevadíssimas de importação.

Outros potenciais mercados na América Latina estão também a fechar-se. Em países como a Argentina, a única pessoa a enriquecer é a presidente, que durante o seu mandato passou de advogada de classe média a detentora de uma fortuna de vários milhões de euros. Já em “paraísos” socialistas como a Venezuela o colapso social e económico é total.

Nação “obsoleta”

Quando nos impingiram a ideia peregrina do fim das fronteiras e dos limites à circulação de pessoas, bens e serviços, o discurso era autoritário e directo: “este é o caminho do futuro, todos os que não seguem este caminho estão condenados ao retrocesso e à miséria”. Pouco debate existiu sobre a matéria: o radicalismo liberal ganhou e encerrou a conversa.

Quando se questionou o Euro, até mesmo na perspectiva da dúvida moderada sobre se Portugal estaria pronto para adoptar imediatamente a moeda única, os radicais puseram logo fim o debate: o Euro era inevitável, desse por onde desse.

Nem a Grécia nem Portugal estavam prontos para pertencer à Zona Euro, e o desastre está presente na duríssima crise económica que vivemos. O nosso País ficou em apuros e a Nação mais comprometida – mas isso não é um problema para os radicais, que não acreditam na Nação.

O conceito de Estado-Nação, segundo esses figurões, estava obsoleto e, em especial na União Europeia, a visão dominante era que todas as Nações inevitavelmente iriam ser condensadas num “super-Estado” de cariz federal.

Para os ultra-liberais, a própria Nação era mero resquício de um passado negro, causa de tantas guerras e sofrimentos. A longo prazo, todas as diferenças culturais desapareceriam do “super-Estado” Europeu. Tivemos um pequeno vislumbre de honestidade sobre esta ideologia quando o eurodeputado Paulo Rangel proclamou que “vai haver um dia em que não vai haver portugueses”, chegando mesmo a prever a extinção da nossa Nação quase milenar, apagada da realidade, atirada para o caixote do lixo da História, juntamente com entidades outrora gloriosas como o Império Romano. Mas parece que, afinal, é o radicalismo liberal que caminha para a extinção.

Desglobalização

Nos Estados Unidos da América, tanto a direita como a esquerda reclamam agora medidas proteccionistas que salvaguardem a segurança económica e social dos trabalhadores (de cujos votos os políticos precisam para serem eleitos). Na semana que passou, até os deputados do partido de Obama recusaram ao Presidente poderes para assinar um novo tratado de comércio livre no Pacífico.

Na Europa, um quarto dos eurodeputados pertence hoje a movimentos que querem abolir a União. Em França, a Frente Nacional prepara-se para captar votos tanto da esquerda como da direita. O partido eurocéptico “Alternativa pela Alemanha” está em vias de substituir os liberais-democratas como terceira força política. E o UKIP, o terceiro partido mais votado no Reino Unido, forçou os conservadores a convocarem o referendo sobre a permanência na UE.

Tal como previsto por muitos cientistas políticos conservadores, o avanço da globalização está a ser recebido com uma forte resposta de forças regionais e locais, com as quais os povos se identificam com mais facilidade.

O comércio mundial já decresceu 1,6% em Janeiro deste ano (e 0,9% em Fevereiro) e os números da Organização Mundial do Comércio mostram que os cidadãos ocidentais começam a dar preferência aos produtos locais em vez das importações. A imigração descontrolada também começa a ser contestada devido à elevada taxa de desemprego.

À beira do colapso

O único argumento que restava aos defensores acérrimos do sistema globalizante era a economia, mas a crise mundial mostra como a simples abertura de fronteiras não conduz necessariamente a mais prosperidade.

Hoje, as grandes multinacionais fogem aos impostos com quase total impunidade, criando empresas-fantoche em paraísos fiscais, deixando a carga fiscal para os cidadãos dos países onde foram buscar os seus lucros. Os muito ricos transferem dinheiro de parte a parte sem qualquer limite ou controlo, sentindo-se à vontade para escaparem à lei e aos impostos.

Os postos de trabalho, muitos dos quais criados com muito esforço no Ocidente, são transferidos para locais mais baratos sem qualquer explicação, e as classes políticas aceitam a “fatalidade” mesmo quando o desemprego atinge níveis astronómicos. Como “compensação” da perda de empregos bem pagos, estáveis e dignos, os políticos oferecem estágios intermináveis. A prosperidade europeia foi empacotada e enviada para além-mar.

Os ultra-liberais argumentarão que as economias estão demasiado interligadas para se protegerem. No entanto, a História mostra-nos o contrário. No início do século XX, antes da Primeira Grande Guerra, os países da Europa encontravam-se tão interligados como se encontram hoje, e os teóricos apresentavam dois argumentos para afiançarem que nunca iria haver guerra: os dois lados tinham exércitos demasiados fortes e cada economia dependia demasiado da outra.

De facto, a Alemanha importava quase todos os bens que consumia e a França precisava desesperadamente do carvão alemão. Mas isso não impediu o conflito. Não raras são as vezes em que a política e o orgulho nacional se sobrepõem àquilo que os teóricos consideram “racional”

O isolamento dos países em pequenas fortalezas não é considerado benéfico para ninguém, mas a constante fuga de capitais e postos de trabalho criou demasiada instabilidade no mundo. No meio termo está a virtude, e a globalização radical poderá estar à beira do colapso.

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