Recessão na Alemanha aperta o cerco a Merkel

Recessão na Alemanha aperta o cerco a Merkel

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A Alemanha desliza para a recessão e a coligação da austeridade desfaz-se, deixando Angela Merkel cada vez mais isolada. Será que a detestada política económica europeia de “apertar o cinto” tem os dias contados?

A economia da Europa está estagnada desde 2008. Bom, nem toda a Europa: a Alemanha parece um oásis num deserto de miséria, continuando próspera mesmo rodeada de países submersos em problemas.

Mas nem sempre foi assim. Há menos de uma década, a economia germânica petrificara e sofria com elevadas taxas de desemprego que não conseguia fazer diminuir. Muitos alemães não sabiam como iriam suportar o Estado Social face a um decréscimo das receitas, enquanto a despesa subia à medida que a população ia envelhecendo.

A resposta foi austeridade. E, curiosamente, a ideia partiu de uma coligação de esquerda. Foi um chanceler do partido social-democrata alemão, Gerhard Schröder, em coligação com o partido dos “verdes”, que pôs em prática a “Agenda 2010”, um corte drástico em termos de salários, protecção laboral e subsídios de todos os tipos, inclusive de desemprego. Foi o maior corte na despesa pública e na segurança social desde a II Guerra Mundial.

E correu mal, pelos menos inicialmente: o desemprego disparou, a desigualdade também, e o prometido crescimento económico não apareceu. Em 2007, uma em cada seis crianças alemãs vivia na pobreza. O chanceler culpou a “preguiça” das empresas, argumento que não convenceu.

Face a este fracasso, o chefe do governo alemão pediu eleições antecipadas e foi derrotado por Angela Merkel. É possível que se tenha precipitado ao forçar a ida às urnas, pois apenas alguns meses depois a economia começava a recuperar, o desemprego a baixar e as exportações a subir face a uma economia mundial próspera.

Merkel ficou com a glória de boa gestão da economia (fama que lhe deu duas reeleições seguidas) e abraçou uma convicção obstinada: a austeridade e a via liberalizante da economia funcionam como forma de tirar uma nação da crise, mesmo que doa de início. O facto de a política de austeridade ter coincidido com uma fase de grande prosperidade nos mercados internacionais passou-lhe ao lado.

A professora de ferro

Quando a “grande recessão” estalou na Europa, Merkel era a única líder a dirigir um Estado com uma economia funcional, o que lhe deu margem de manobra para ser a “professora da Europa”. A lição que ia ensinar era a mesma que tinha aprendido antes: “a austeridade liberta”.

Cortes na despesa, cortes na protecção social, cortes, cortes, cortes, até as contas do Estado estarem em ordem. E se a economia estiver a cair a pique? A solução é mais cortes! Tal como no caso alemão, Merkel está convencida de que as economias europeias, após uma fase de dor, vão começar a recuperar.

O resultado? Desastre completo, até agora. Segundo o Eurostat e as várias agências estatísticas nacionais, a Europa está estagnada, os países do Sul europeu estão perante uma situação económica desesperante, e o tecido social da velha Europa parece que se desfaz perante os nossos olhos. Mesmo assim, Merkel acredita que a retoma, o paraíso depois do sofrimento, está mesmo ao virar da esquina.

E não se cansa de garantir que Portugal está no bom caminho.

Às urnas!

Detentores de uma poderosa arma, o voto, os povos europeus preparam-se para, em retaliação contra o que pressentem ser uma submissão dos seus líderes a Merkel, tirar os partidos pró-Alemanha e pro-UE do poder.

Em Portugal, Pedro Passos Coelho pode vir a ser seriamente penalizado pelo seu “seguidismo” em relação à chanceler, cujas políticas adoptou como “bom aluno”.

Na Grécia, o actual governo apenas consegue manter a confiança do parlamento por 5 votos, e o partido neo-comunista de extrema-esquerda, Syriza, prepara-se para brevemente ser governo: já tem uma vantagem de 10 pontos percentuais sobre a direita.

Em França, a Frente Nacional promete muito em breve varrer o cenário político. Marine Le Pen, tal Marianne a ordenar soldados franceses para a batalha contra o antigo inimigo do outro lado do Reno, é uma possível, ou já mesmo provável, candidata presidencial de peso.

Na Grã-Bretanha, o partido da independência britânico, o UKIP, conquistou na última semana o seu primeiro assento parlamentar, e só não conseguiu eleger um segundo deputado por uma diferença de 600 votos. Promete ganhar muitos mais nas eleições de Maio do próximo ano, contando já com mais de 14% das intenções de voto.

Chuva de desastres

Face à insatisfação popular e aos fracos resultados económicos, os líderes da Europa começam a mobilizar-se contra Merkel. O novo primeiro-ministro de Itália já anunciou publicamente que vai afastar-se das políticas de austeridade e admoestou Merkel a não ameaçar os parceiros europeus.

Em França, um Hollande descredibilizado procura desesperadamente fugir a uma associação à detestada líder alemã. O seu novo primeiro-ministro anunciou que a França vai ter um orçamento “sem austeridade” e que tentará consertar as finanças “ao seu próprio ritmo”.

Até Mário Draghi, chefe do Banco Central Europeu, já veio a público defender medidas de estimulo económico.

Mais: com a Europa a virar-lhe as costas, Merkel pode ter encontrado um novo adversário: os seus próprios concidadãos. Após anos de triunfalismo teutónico, a Alemanha desliza também para a recessão. As exportações diminuíram, a economia estagnou e está à beira da recessão, o desemprego voltou a subir e a Bolsa está em queda.

Esta chuva de desastres está a gerar descontentamento, não só entre as massas populares mas também nas elites informadas e influentes. Um dos êxitos editoriais do momento no país de Merkel é o livro “A Ilusão Alemã”, em que Marcel Fratzscher, director do Instituto Alemão para a Pesquisa Económica, tece duríssimas críticas à política económica e financeira da chanceler.

Merkel é acusada de não ter conseguido desenvolver uma economia moderna de serviços na Alemanha (que ainda depende muito do seu sector industrial) e de ter negligenciado a infra-estrutura nacional numa busca cega de redução de despesa.

Mas Merkel e o seu principal apoiante, o ministro das finanças Wolfgang Schäuble, continuam determinados em manter a austeridade a qualquer custo. A sua principal prioridade para este ano não é o crescimento, mas sim conseguir um orçamento federal excedentário.

Mas pode ser que, desta vez, as coisas não lhe corram tão bem como até aqui…