A falência da sétima maior empresa armadora mundial, a sul-coreana Hanjin, é um dos sinais de uma crise dramática no comércio naval. Portugal não escapa às ondas de choque. 

Onze dos doze maiores armadores do mundo anunciaram nos últimos meses prejuízos recorde, e inúmeras empresas de transporte naval de menores dimensões estão em risco de fecharem. No Japão, estão agora à beira da falência mais três empresas armadoras de médias dimensões.

A desaceleração da economia mundial vem provocando, desde há anos, uma diminuição drástica do volume de matérias-primas, em especial (e de carga, em geral), para transportar de porto para porto. Esse decréscimo afectou, necessariamente, a facturação da generalidade das empresas do sector naval, já de si dependentes de um conjunto altamente variável de factores de risco.

Como O DIABO oportunamente noticiou, em Janeiro deste ano houve dias sem um único navio de carga a fazer viagens transatlânticas, um caso inédito na história recente da economia mundial. O ‘The New York Times’ classificou o acontecimento como “prova de que o comércio está literalmente parado”. Devido ao excesso de oferta face à procura, o preço de despachar um contentor caiu a pique, em alguns casos é agora metade do que era há apenas dois anos. A sul-coreana Hanjin, sétima maior empresa armadora mundial, estava a perder uma fortuna por cada contentor que transportava. Não resistiu à crise e fechou portas.

A indústria em si encontrava-se num estado de grande fragilidade. Os armadores, com apoio de generosos créditos bancários, fizeram investimentos quase megalómanos para aumentar a capacidade de carga. Em dez anos, a capacidade média de carga dos navios contentores duplicou, e só em 2015 os armadores despenderam 20 mil milhões de euros a comprar barcos novos, muitos dos quais estão agora parados. É quase assumido como certo que, em breve, milhares de navios terão a sucata como destino.

Neste momento, dezenas de navios da falida Hanjin sulcam os oceanos, sem destino certo, com um total de 14 mil milhões de euros de carga a bordo distribuída por meio milhão de contentores (incluindo um lote de toneladas de telemóveis Samsung). Muita desta carga estava destinada a ser vendida no Natal. Contudo, os operadores dos portos recusam-se a descarregar a carga sem serem pagos – e os administradores liquidatários da Hanjin não têm um cêntimo em caixa. O destino de todos este navios, bem como da carga, ainda era desconhecido à hora em que esta edição seguia para a rotativa.

Portugal, cuja fragilidade económica recomendaria largas doses de prudência, tem pelo contrário desbaratado todos os trunfos de que poderia dispor no quadro marítimo e naval.

No primeiro semestre do corrente ano, sucessivas vagas de paralisações laborais afastaram armadores dos nossos portos, “vacinando” inúmeras empresas de transporte naval contra o uso de Lisboa, Setúbal, Sines ou Leixões como destinos a considerar. O poderoso sindicato dos Estivadores – que é afecto ao PCP mas que nem os comunistas controlam verdadeiramente – conseguiu (com uma greve que se arrastou durante meses) “matar” as hipóteses de rentabilidade dos terminais portuários do Tejo. E “nos últimos dez anos o porto de Lisboa enfrentou 100 pré-avisos de greve, o que levou os terminais portuários da capital a perderem cerca de um terço da actividade que desenvolviam”, segundo o responsável da Associação dos Agentes de Navegação de Portugal (AGEPOR), António Belmar da Costa.

Como se a crise mundial não bastasse…

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Os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), cujo fim oficial vem sendo sucessivamente adiado, tem agora a sua extinção marcada para o dia 17 de Outubro. Fonte do gabinete do Ministro da Defesa Nacional adiantou à Agência Lusa que a prorrogação do prazo de liquidação foi solicitada pelos ENVC à Comissão Liquidatária da Empresa Portuguesa de Defesa (Empordef), devido ao facto de “não estar ainda concluído o contrato com a Petróleos da Venezuela, S.A. (PDVSA), para a construção dos navios asfalteiros”, e sem a conclusão deste processo não será possível proceder à respectiva extinção dos ENVC”. Em causa está a necessidade de definir um novo titular para este contrato, tendo em conta o processo, em curso, de liquidação dos estaleiros públicos, cujos terrenos e infra-estruturas foram sub-concessionados em 2014 ao grupo Martifer.

O contrato para a construção dos navios, no valor de 128 milhões de euros, foi celebrado em 2010 entre a empresa Petróleos da Venezuela Naval e os ENVC. Por este contrato, os ENVC receberam cerca de 12,8 milhões de euros e iniciaram em Maio de 2013 a aquisição de matéria-prima e outros equipamentos para a construção dos dois navios, com 188 metros de comprimento, que se destinam ao transporte de asfalto.

Entretanto, um grupo de ex-trabalhadores dos ENVC, desempregados e a receber subsídio de desemprego até 2017, constituiu uma comissão representativa para discutir o seu futuro com forças políticas e agentes do poder. Em causa estão as penalizações que alguns deles sofrerão se, ao terminar o período de subsídio, optarem pela reforma; e também a situação indefinida de outros que, sem terem idade para a reforma, não têm garantido o seu sustento a partir de 2017.

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