“As campanhas de África na Primeira Guerra Mundial foram uma grande tristeza”

“As campanhas de África na Primeira Guerra Mundial foram uma grande tristeza”

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Filipe Ribeiro de Meneses, é um historiador e investigador português a leccionar actualmente na Irlanda. É autor de várias obras, mas foi “Salazar. Biografia política”, publicado em Portugal em 2010, que o tornou conhecido do público português. Veio a Lisboa na sequência do lançamento de “Impérios em Guerra – 1911-1923”, uma nova perspectiva da Primeira Guerra Mundial, que inclui um capítulo da sua autoria sobre o Império Português. O DIABO entrevistou-o.

O DIABO – Ler o seu capítulo sobre a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial custa muito como português…

Filipe Ribeiro de Meneses – As campanhas de África foram uma grande tristeza. O que me espanta sempre, sobretudo nas campanhas de Moçambique, a debandada perante o avanço alemão, é no fundo a falta de conhecimento do que era a guerra em África num exército que tinha uma longa experiência das campanha anteriores, sobretudo em Moçambique. Eles sabem como é combater em África.

Como é que se perdeu memória institucional em tão pouco tempo?

Não podem ter perdido. Há figuras, como o Freire de Andrade, que foi um dos heróis dessas e campanhas e que faz a transição para a República, tem contacto com Paiva Couceiro. Há pessoas dentro do Exército e dentro do regime que têm experiência do que é combater em África.

Como se explica o desastre?

O desprezo pelos soldados. O desprezo pelo bem-estar, pelas condições de saúde, pela alimentação. A questão do bacalhau salgado como alimentação dos soldados, por exemplo, é algo que me ultrapassa. É preciso água para demolhar o bacalhau, é preciso água para cozê-lo e depois é preciso água para matar a sede que causa o bacalhau…

Como se explicam os abandonos das posições que até permitiram aos alemães capturas armas e mantimentos?

Quando se cria o pânico nessas unidades é generalizado. São terríveis essas campanha e saldam-se apenas por insucessos. O maior é em 1917, que permite ao exército alemão entrar por Moçambique adentro, onde fica até 1918. Há uma descrição de um bóer que ajuda o general alemão Von Lettow-Vorbeck, que diz: “Isto é uma guerra muito curiosa, os ingleses perseguem-nos a nós e nós perseguimos os portugueses”. Há aqui uma hierarquia de exércitos.

A culpa principal é do comando militar ou também dos políticos?

Sim. Soldados que não se sentem respeitados pelos oficias, não terão respeito por esses oficiais. Se sentem que não há respeito, não se vão sujeitar a certas circunstâncias e não há um cálculo político por parte do primeiro governo da União Sagrada, de António José de Almeida, que é o seguinte: a guerra em África está quase a acabar e nós precisamos de vitórias, por isso vamos enviar os homens que encontrarmos, as armas que encontrarmos, para Moçambique, para conquistarmos território alemão, para termos uma vitória, porque aquilo está quase a acabar. Mas infelizmente não estava e o resultado é catastrófico. Morreram qualquer coisa como oito mil portugueses na Primeira Guerra Mundial, mas mais de cinco mil morrem em Moçambique, quase todos por doença, não por acção do inimigo.

Enviar tropas para África e para a Europa, no Portugal daquela altura, cria grandes dificuldades naquilo a que chamaríamos hoje os recursos humanos. Encontrar homens válidos, como idade para combater, não é fácil num país minado pela tuberculose, pela sífilis e por aí fora. Por isso, vão homens para morrer, porque não terão a mínima condição de suportar o clima e as condições em África. É uma tragédia humana enorme.

Quando pensamos na participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial é mais na Europa e em África pensamos nos combates contra os alemães, mas não foi apenas assim…

Sim, mas na realidade, muitos dos combates dos portugueses são contra as populações indígenas, que aproveitam um momento de fraqueza para se insurgir contra uma presença portuguesa nalguns casos bem recente. Por isso, mesmo a ideia da presença secular de Portugal em África era limitada a certos pontos. No interior de Angola e Moçambique essa presença essa presença e essa soberania são muito recentes. Por isso era pouco estável e pouco reconhecida pelas populações. Grande parte do esforço português em África é feito contra essas populações locais.

É o oposto do que acontece com os outros países europeus…

Exactamente. Enquanto outras potências coloniais aproveitam os respectivos impérios para se fortalecer na Europa, Portugal gasta os recursos que tem, materiais e humanos, para tentar segurar o império. É uma excepção durante a guerra.

Em relação à aliança entre Portugal e Inglaterra, considera que não era entendida da mesma forma pelos dois lados?

Para Portugal, a aliança inglesa era e foi durante muito tempo o pilar principal da nossa diplomacia. Tudo assenta na relação com a Inglaterra. Assim que os republicanos chegam ao poder em 1910 apercebem-se disso e rapidamente mudam a opinião quanto à Inglaterra e ao papel da aliança. Para a Inglaterra, para o império britânico, a relação com Portugal está longe das suas prioridades. O que há na diplomacia britânica é uma corrente que percebe a importância estratégica do mundo português para o mundo britânico. Por isso, sabe que por muito difícil que seja lidar com governantes portugueses vale a pena apoiar a existência de Portugal e do império colonial português, porque mais vale esse território ser português do que ser outra coisa qualquer. Não é pelos nossos lindos olhos, não é pelos nossos talentos, é uma pura questão de geopolítica estratégica.

Qual era a ideia de império que tinham os portugueses que iam combater para África?

Não era nenhuma. Para os portugueses que iam daqui, África era o pavor tornado sítio, com as doenças, as populações indígenas, as feras, os insectos e tudo isso. Era um lugar associado única e exclusivamente à morte e ao medo. Só mais tarde, com o Acto Colonial de Salazar e especialmente com Armindo Monteiro é que há uma tentativa de criar uma consciência imperial. Mas durante a Primeira Guerra Mundial, a noção de missão e de consciência imperial não existe.

A participação na Primeira Guerra Mundial era uma arma política em Portugal?

Sim, mas falha principalmente porque falham as recompensas internacionais. Portugal afirma claramente que se a Bélgica receber um mandato em África da Sociedade das Nações, Portugal também quer. A Bélgica recebe o Ruanda e o Burundi e Portugal não recebe nada. Há também a questão da Espanha, um país neutral durante a guerra, receber um lugar no Comité Executivo da Sociedade das Nações e Portugal não.

Salazar ainda é uma figura presente hoje?

Salazar ainda é um ponto de referência muito grande, mas o que acontece também é que há uma linha, há uma interpretação política quer da História quer do nosso presente, que sugere que não houve uma mudança radical. Por isso, quem realmente tem poder não mudou. Não houve uma revolução. Esboçou-se uma revolução, sobretudo em 1975, essa revolução é derrotada, há uma contra-revolução, e que o regime que vivemos hoje, com as suas virtudes, os seus defeitos e as suas contradições, não nasce da revolução mas da contra-revolução, nasce do 25 de Novembro, não nasce do 25 de Abril ou do 11 de Março.

A sua biografia de Salazar foi um sucesso comercial, mas sofreu várias críticas, entre elas a de que fazia a defesa de Salazar. Como comenta?

Certas críticas nascem de uma interpretação para a qual tudo o que não seja abertamente contra o fascismo, supostamente existente, é a favor. Daí parte das críticas que foram feitas ao livro tal como ele foi escrito.

Mas para além da esquerda, que criticou o livro por não fazer um ataque cerrado a Salazar, também em sectores mais direita houve críticas. Para eles a biografia de Salazar é apenas a de Franco Nogueira?

Essas críticas sugerem-me que algo de bem fiz, porque não consegui agradar aos dois extremos. Quanto à biografia de Franco Nogueira, encaro-a como uma fonte primária e não como fonte secundária. Ele foi alguém que privou com Salazar muito tempo e que com ele trabalhou e a sua biografia é a forma como ele vê e como ele interpreta Salazar. Mas é um livro que também tem muitos defeitos. Franco Nogueira dá sempre o benefício da dúvida ao Salazar, sempre. É um livro interessante e útil, mas em termos de fontes deixa muito a desejar. São poucas as notas de rodapé, o que deixa pouco caminho para os historiadores.