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Em França assiste-se a uma “onda neo-reaccionária”, pelo menos segundo a esquerda. Mas serão estes intelectuais que criticam o “politicamente correcto” um bloco homogéneo ao serviço da extrema-direita? Ou, pelo contrário, pensadores livres que se afirmam perante o vazio de ideias? O jornalista Nicolas Gauthier entrevistou o filósofo Alain de Benoist sobre o tema para o “Boulevard Voltaire” e O DIABO garantiu o exclusivo de publicação para Portugal.

  • Nicolas Gauthier – Éric Zemmour, Michel Onfray, Alain Finkielkraut, Régis Debray e os demais… A esquerda não se farta de denunciar o regresso dos “neo-reaccionários”. Laurent Joffrin chega a afirmar que estes constituem o verdadeiro “pensamento único”! Afinal, o que é que se passa na paisagem intelectual francesa?

Alain de Benoist considera que 'a esquerda tornou-se num disco rachado. Já não tem mais nada a dizer'Alain de Benoist – Passam-se duas coisas. A primeira é que a ideologia dominante deixou de se renovar. A esquerda em particular, que no passado tinha dado provas, muito mais do que a direita, das suas capacidades intelectuais e teóricas, tornou-se num disco rachado. Já não tem mais nada a dizer.

O PS pensou que podia substituir o socialismo pelo projecto europeu. Tendo em conta o que é de facto a União Europeia, tal mais não fez do que acelerar a sua conversão ao sistema de mercado. É o que constata Gaël Brustier na sua última obra (“À demain Gramsci”): “Submissão à ideologia da crise ou evocação da ideologia de antanho, a esquerda já não cria nada.” A segunda é que um crescente número de autores, de universitários, de escritores se tem vindo a rebelar, por diversas razões, contra os ditames estereotipados do “politicamente correcto”.

Todavia falar de “novo pensamento único” é francamente ridículo. Se é verdade que hoje em dia podemos constatar evoluções notáveis e novas clivagens, se é verdade que o icebergue se começa a desagregar, seria ingénuo pensar-se que passámos para o outro lado do espelho. Algumas andorinhas não fazem a Primavera e a ideologia dominante continua a ser, mais do nunca, maioritária nos criadores de opinião.

Que eu saiba, nenhum professor universitário foi até agora vaiado pelos seus alunos por se ter proclamado como apoiante da ideologia dos direitos do homem ou da do progresso! Por conseguinte a provecta hegemonia está ainda em vigência. A diferença está em que esta hegemonia se torna cada vez menos suportável, porque a discrepância entre o discurso oficial e a realidade nunca foi tão grande.

  • Os partidários do “politicamente correcto” não fariam melhor em dedicarem-se a outras questões em vez de organizarem caças às bruxas?

O “politicamente correcto” é o herdeiro directo da Inquisição, que preconizava a luta contra a heresia pela despistagem dos maus pensamentos. A ideologia dominante é, também ela, uma ortodoxia, que encara como heréticos todos os pensamentos dissidentes. Como já não tem os meios para os refutar e estes são incomodativos, tenta deslegitimá-los – não enquanto falsos, mas como sendo maus. É por isso que “não cessa de se expandir o campo dos temas que já não se debatem”, como dizia Philippe Muray. A insípida verbosidade sobre os “valores” (“valores republicanos” contra “valores tradicionais”) substituiu o debate sobre verdadeiras convicções.

O método mais comum consiste em reconduzir todo o discurso que se afaste da ‘doxa’ mediática ao já visto e já desqualificado (o colonialismo, o racismo, os “anos trinta”, as “horas mais sombrias”, etc.). A “redução ao pior” (Pierre-André Taguieff) permite a consecutiva justificação da sua exclusão. Tal é explicitamente o programa de dois pequenos inquisidores, entre outros, Geoffroy de Lagasnerie e Edouard Louis: “Negar-se a constituir certos ideólogos como interlocutores, certos temas como discutíveis, certos assuntos como pertinentes”, (sic). Dialogar com o “inimigo” seria, com efeito, reconhecer-lhe um estatuto de existência. Seria como expor-se a uma mácula, a uma contaminação. Não se dialoga com o diabo. É pois necessário diabolizar.

Um outro método, de uma simplicidade bíblica, consiste em afirmar que os propósitos dissidentes “fazem o jogo da Frente Nacional”. Uma vez mais, que as proposições em questão sejam justas ou não, não tem a estritamente a menor importância. O que conta é a maneira como se julga que estas poderiam ser instrumentalizadas contra o império do Bem.

Evidentemente que isto já não engana ninguém, uma vez que todos sabem que a única coisa que faz o “jogo da Frente Nacional”, são os actos dos que estão no poder (já para não falar do fosso que se abriu entre a esquerda e o povo), mas que importa! O procedimento é prático, tornou-se num ritual. Usa-se pois sem moderação. Como se a FN se tivesse tornado no primeiro partido de França graças a Zemmour ou a Michel Onfray!

  • Toda esta evolução traduz verdadeiramente uma “direitização” do pensamento?

É o que afirma uma certa esquerda e do que se regozija ingenuamente uma certa direita. Ambas se enganam. Tomemos o exemplo da imigração. Para a vulgata oficial, ao criticar-se a imigração é-se de direita. Que esta critica se propague, como é o caso hoje em dia, torna-a desde logo numa prova de “direitização”.

Mas a premissa é falsa, uma vez que podemos muito bem criticar a imigração sem que por causa disso sejamos de “direita”. O que seria necessário afirmar, na realidade, é que a crítica da imigração abarca hoje em dia os mais variados meios políticos, o que não é evidentemente a mesma coisa.

É igualmente necessário recordar que, contrariamente ao que imaginam os que os não leram, aqueles que são designados sob a etiqueta absurda de “novos reaccionários” estão bem longe de representar um bloco homogéneo. Éric Zemmour é um bonapartista antiliberal que procura falar em nome do povo.

Alain Finkielkraut é um conservador judeu, imbuído do pensamento de Hannah Arendt e de Milan Kundera, que se desespera com a “desintegração francesa”.

Michel Onfray é um proudhoniano que censura a esquerda pelo facto desta já não o ser.

Jean-Claude Michéa é um discípulo de George Orwell que reprova ao progressismo societário o facto de este ter traído o socialismo.

Régis Debray é um republicano nostálgico do Gaullismo e teórico da vídeo-esfera.

Pierre Manent, Marcel Gauchet, Jacques Julliard, Élisabeth Lévy, Natacha Polony, etc., acantonam-se noutras tantas posições diversas. O único ponto que têm em comum é que hoje em dia são todos tratados como suspeitos. Quando não como proscritos.