“Portugal não acabou. Tenho a certeza”

“Portugal não acabou. Tenho a certeza”

0 2003

“O nosso século de grandeza vai de 1415 a 1515, da conquista de Ceuta à morte de Afonso de Albuquerque”

_foto Jaime novaJaime Nogueira Pinto é doutorado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, foi director do jornal “O Século”, administrador da Bertrand e actualmente é accionista e administrador de empresas na área da consultoria estratégica e da segurança privada.

Autor de uma extensa obra, publicou recentemente “Novembro”, o seu primeiro romance, “Ideologia e Razão de Estado – Uma História do Poder”, a sua tese, uma reedição do seu “Portugal – Os Anos do Fim” e o ensaio “Portugal – Ascensão e Queda”. O DIABO entrevistou-o.

O DIABO – No seu livro “Portugal – Ascensão e queda”, considera o nosso país como uma “nação singular”. Porquê?

Jaime Nogueira Pinto – É uma nação que tem, na sua História, o mais alto e o mais baixo. É ao mesmo tempo messiânica e comercial: fizemos fortuna com as especiarias da Índia, no século XVI, o açúcar do Brasil, no séc. XVII, o ouro e os diamantes também do Brasil, no século XVIII, e o café de Angola, no século XX. Destas quatro fortunas não nos ficou praticamente nada. Fomos um imperialismo original, “imperial”, mas pouco imperialista.

Porquê pouco “imperialista”?

Para os teóricos do imperialismo, o inglês Hobson e depois Lenine, o imperialismo era uma forma em que o poder político-militar e a dominação que garantia serviam para assegurar a exploração económica de outros povos. A dominação servia ao povo dominante para extrair as mais-valias do trabalho e dos recursos da terra, dos dominados, dos colonizados.

Com certeza que não fomos uns anjos do céu ou umas Madres Teresas de Calcutá. Tivemos de tudo, do mais repressivo ao mais generoso. Mas deixámos lá quase tudo: ficámos no Brasil para sempre e, em África, ajudámos a criar sociedades destribalizadas, miscigenadas, como em Angola e Cabo Verde.

Isto é menos sabido e repetido porque fomos vítimas de várias lendas negras: desde já, apanhámos por tabela com a “lenda negra” anti-espanhola que os ingleses, mestres na matéria, foram difundindo sobre as trevas do “papismo” dos países católicos. Isto apesar de tudo o que os povos peninsulares contribuíram para a Geografia, para a Cosmografia, para as ciências naturais e matemáticas dos séculos XV a XVII. Depois, fomos vítimas dos próprios espanhóis que com a “Monarquia Dual” nos trouxeram a inimizade dos seus inimigos e privilegiaram a defesa do que era deles e só deles.

Modernamente retomaram-se os clichés sobre a suposta inferioridade do Sul católico em relação ao Norte reformado. Ainda há pouco via isso num livro, aliás bem escrito, sobre o 27 de Maio em Angola de uma inglesa progressista. E temos, o que é pior, o autoflagelo dos nossos próprios intelectuais que acham chique repetir e exagerar os clichés anti-portugueses.

Qual foi o ponto alto da grandeza de Portugal?

O nosso século de grandeza vai de 1415 a 1515, da conquista de Ceuta à morte de Afonso de Albuquerque. É um tempo de excelência nacional, de uma dinastia luso-britânica em que uma sociedade nova, saída da guerra da independência, aproveita a circunstância peninsular e as crises de unificação da Espanha para ganhar massa crítica ultramarina e assim ficar pronta a enfrentar o futuro.

A sociedade portuguesa tem então liderança, apesar do choque de lideranças, como na crise que terminou em Alfarrobeira; tem um projecto e uma estratégia, que continuam com D. João I, o Infante D. Henrique, D. Afonso V, D. João II e D. Manuel. Isso resultou de uma convergência muito interessante de poderes e saberes políticos e religiosos, de uma mistura de interesses privados, curiosidade científica e sentido e razão de Estado.

O século sintetiza-se nos quatro heróis portugueses de Oliveira Salazar – o Condestável S. Nuno, o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. Um refunda e defende o Reino, o outro concebe a Cruzada e a Descoberta, o terceiro faz a Viagem, o último faz a Conquista do Índico e do seu comércio.

Vem depois um meio século de aguentar – com uma interessante política de equilíbrio na Europa e os princípios da colonização do Brasil. A seguir é Alcácer-Quibir e a queda, em 1580.

Depois da glória, vem esse tempo ainda misto até ao desastre de Alcácer-Quibir e à ocupação filipina: aquilo a que, em termos dinasticamente correctos, se chamou Monarquia Dual.

Os grandes poetas e visionários como Camões e o Padre António Vieira tiveram a noção disto. O povo e a parte corajosa e marginal das elites – como D. João de Castro – viveram-no e, para sobreviver, valeram-se do mito Sebástico, uma forma de resistência e de activismo patriótico.

Fernando Pessoa recontou e reformulou esta História no século XX, com os seus mitos fundacionais, os seus heróis e protagonistas. E Eduardo Lourenço vem acompanhando, de modo crítico, o que deles ainda vive, vale e interessa.

Mas hoje estamos num “limbo virtual”, uma “espécie de purgatório pós-moderno”, como afirma. Porquê?

Estamos sim. Fomos o primeiro Império ultramarino da modernidade e fomos também o último. Passámos também, caso raro num país europeu, por um curto ciclo revolucionário em que repetimos as ilusões trágico-cómicas da utopia comunista – isto nas vésperas do Comunismo real desaparecer como modelo político-económico e social.

A esquerda doméstica, criada no ódio vesgo a Salazar, que a afastou por quase meio século do poder, acabou por ser a grande sobrevivente do salazarismo. Com os seus mitos resistencialistas, com a sua dramatização heróica de um tempo em que não teve protagonismo, com a sua caricatura negra dos “Quarenta e Oito Anos de longa noite fascista”. Talvez estivesse no seu direito de vingança e compensação. Mas também não conseguiu ocultar, fora do ideológico, a modernização que aconteceu em Portugal nos últimos quinze anos do Estado Novo.

A radicalidade do PREC foi vencida graças à aliança objectiva entre a Intelligence norte-americana, a pressão europeia, o peso de Yalta e a resistência, às vezes brutal, do povo do Norte e Centro-Norte.

Em Novembro de 1975 (por isso chamei Novembro ao romance que escrevi e publiquei em 2012), acabaram os dois “projectos globais” portugueses – o da Direita, que era o Império ultramarino, e o da Esquerda, a Revolução socialista. Céus e Infernos trocados.

Fomos então para o purgatório, para esta espécie de liberal-social-democracia, mais ou menos de mercado, mais ou menos social, na faixa pobre da Europa. Por isso lhe chamo purgatório, pois saímos do Inferno ou da sua visão (do comunismo pêcêpista e dos esquerdismos maoístas), mas estamos longe do Céu – da nação independente, livre e desenvolvida, que nos foi sendo prometida.

Na classe política oriunda do velho Reviralho, os “antifascistas de sempre” converteram-se ao esquerdismo utópico e politicamente correcto. Renunciaram a todo e qualquer realismo político. São utópicos porque acham que lhes fica bem.

Agora que o liberalismo passou de moda (tantos foram os seus efeitos perversos), a direita sistémica refugia-se num catecismo eurocrático, mais ou menos funcional e asséptico. Ideias, nem vê-las, quanto mais tê-las.

Não há, em Portugal, um partido nacionalista – como há em França, na Grã-Bretanha e em muitos países da Europa Central e de Leste. Restaurar no léxico político-ideológico a nação como valor político corrente, seria um bom princípio.

Como pode o nosso país recuperar a sua soberania e, como refere, restaurar a “a ideia do primado da Nação como valor político”?

Como? Talvez comece a ser possível, esgotado que começa a estar o discurso do individualismo enumerador de direitos, garantias e liberdades sem fim nem conta e de “direitos sociais” extraordinários mas nunca aplicados.

Se a União Europeia não sabe para onde vai, qual a solução? Outro modelo europeu?

A Europa tem que se repensar como espaço económico, e até financeiro, mas no respeito das suas nações, das suas pátrias. Isto vai acontecer naturalmente, à medida que as nações se libertam do conformismo e do imobilismo e se desfazem os slogans que pretendem reduzir o nacionalismo à agressão e à guerra, agora tão repetidos por ocasião do centenário de 1914.