Angola: está a secar a árvore das patacas

Angola: está a secar a árvore das patacas

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Os rios de dinheiro para comprar empórios na Europa, a exibição escandalosa de riqueza nas lojas mais caras do mundo, a abastança de uma classe dirigente que em poucos anos passa da miséria à opulência, as negociatas paternalistas com um Portugal empobrecido, os empregos a rodos e a febre dos arranha-céus – tudo isso está em vias de extinção na antiga província ultramarina portuguesa. O petróleo angolano tem os dias contados.

Quando, há menos de um mês, o banqueiro Ricardo Salgado foi a Luanda pedir aos capitalistas do regime angolano que o ajudassem a salvar o grupo Espírito Santo com mais uma injecção de dinheiro, tinha à sua espera uma recepção fria. Como se sabe, regressou a Lisboa de mãos vazias. O desinteresse de Angola, contudo, reflecte mais do que uma simples estratégia de interesses ou de negócios: é um sinal, mais um, de que o dinheiro já não abunda em Luanda como abundou nos últimos dez anos.

A capital de Angola continua a ser uma das cidades mais caras do mundo (ler caixa), as esplanadas dos ‘resorts’ de luxo continuam a abarrotar, as multinacionais ali instaladas continuam a pagar fortunas aos seus “quadros”. Mas algo começou a mudar em Angola: a abastança não vai durar sempre e os magnatas do MPLA começam a fazer contas à vida e a preparar um futuro menos risonho.

O primeiro toque de alarme surgiu há cerca de um ano, quando um estudo do Banco Mundial avisou que, a manter-se a produção actual, as reservas de petróleo em Angola estarão esgotadas dentro de apenas duas décadas. Segundo então revelou Shantayanan Devarajan, economista-chefe do Banco Mundial para África, mesmo que “a dependência de recursos de petróleo tenda a continuar no curto e médio prazo”, os depósitos energéticos angolanos já só representam metade dos recursos do principal produtor do continente, a Nigéria, que tem ainda reservas para quatro décadas, pelo menos.

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Metade do PIB

A previsão, evidentemente, assenta na presunção de que não serão descobertos outros locais para extracção de petróleo – mas, mesmo que novos poços sejam encontrados e explorados, Angola terá de passar a contar com a concorrência de outros países africanos onde as grandes multinacionais passaram recentemente a explorar importantes jazidas petrolíferas, entre eles o Gana e o Uganda.

Como conselho, Shantayanan Devarajan alvitrou que os rendimentos da exploração do petróleo angolano deveriam ser aplicados, enquanto é tempo, numa melhor estruturação económica do país e na melhoria da qualidade de vida das populações. Mas os dirigentes de Luanda têm mais com que se preocupar.

Segundo um relatório do Deutsche Bank, o negócio do petróleo assegura cerca de metade do Produto Interno Bruto, 95 por cento das exportações e 75 por cento das receitas de Angola. Seria compreensível que, neste quadro de dependência económica, as autoridades de Luanda mantivessem mão firme sobre a “árvore das patacas”. Mas nem isso está a acontecer: deslumbrada pelo dinheiro fácil, a elite angolana descura o rigor técnico da exploração petrolífera, pondo em causa recursos que já de si se revelam limitados. Esta incúria tem uma explicação.

Após os acordos de paz de 2002, sentindo que podia lançar-se mais profundamente nos negócios sem o empecilho das guerrilhas nacionalistas da UNITA e da FNLA, o governo de José dos Santos promoveu uma política de contratação de técnicos estrangeiros altamente qualificados para dirigirem a exploração das jazidas, já que os “quadros” locais se revelavam pouco eficazes. Assistiu-se então a um “boom” do negócio petrolífero, que durou uma década. Foi neste período que os capitalistas de Luanda firmaram uma posição de grandes investidores na Europa, com especial destaque para Portugal.

“Quadros” locais

Simplesmente, ao fim de uma década de “galinha de ovos de ouro”, uma nova geração de “quadros” angolanos começou a despontar. E, ainda que formada em escolas locais e sem experiência de gestão rigorosa, começou a disputar, nomeadamente na toda-poderosa Sonangol, os lugares de direcção até então ocupados por “know how” estrangeiro – tanto mais que começavam também a expirar os contratos de exploração por 20 anos celebrados aquando do primeiro investimento angolano no petróleo, em 1991.

Em muitas grandes empresas angolanas ligadas à indústria petrolífera, a atmosfera é hoje de “auto-gestão”, com os consultores estrangeiros a serem dispensados ou ignorados. A burocracia e a corrupção voltaram a ganhar terreno, com o consequente abrandamento da ‘performance’ económica.

Outra consequência desta “emancipação” foi uma quebra significativa de produção nos poços de petróleo, o que inevitavelmente se traduz no aumento dos preços do “ouro negro” no mercado internacional. Perante o alarme da OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo), as autoridades angolanas insistiram em que poderiam produzir até dois milhões de barris por dia. Mas a verdade é que as taxas de produção têm vindo a baixar (o maior pico, na última década, verificou-se em 2008, com 1,8 milhões de barris diários), situando-se agora nos 1,3 milhões. Os peritos internacionais só encontram uma razão para este desleixo: negligência na manutenção dos poços. E à medida que vão expirando os contratos com companhias estrangeiras, mais poços de petróleo ficam inteiramente nas mãos da Sonangol e dos “quadros” locais, com os resultados conhecidos.

Caso paradigmático é o do “Projecto Angola LNG”, um complexo produtivo de gás natural e gás de petróleo, instalado no Norte do país, junto a Cabinda. Só as empresas norte-americanas do sector empataram no LNG 10 mil milhões de dólares – o maior investimento estrangeiro alguma vez feito em Angola.

O “flop” do LNG

Depois de um atraso de 18 meses na construção do complexo, marcada por incêndios e acidentes graves (algo que já deixou os investidores estrangeiros com os cabelos em pé), o LNG foi oficialmente inaugurado em Junho do ano passado, com pompa e circunstância, e ainda conseguiu efectuar um carregamento de gás com destino ao Brasil. Foi o único. No início deste ano, a administração do LNG suspendeu as actividades da fábrica por doze meses, alegando “problemas técnicos”.

E, na verdade, foram técnicos os problemas que afectaram as operações de carregamento de gás para os navios. Mas foram disputas entre o escol administrativo estrangeiro e os novos “quadros” luandenses que estiveram na origem da deficiência dos preparativos de arranque do complexo.

Fontes d’O DIABO em Angola indicam que, para além dos problemas de carregamento, foi recentemente detectada uma grave fuga no depósito central. Cansada de percalços e de má gestão, a petrolífera francesa Total já se confessou publicamente “decepcionada” com a unidade de produção de gás liquefeito. “Estamos pelo menos com um ano de atraso ou mais em termos de início da produção”, afirmou um desconsolado Yves-Louis Darricarrere, chefe da divisão de ‘upstream’ da Total.

Entretanto, no ‘site’ da AngoNotícias circulam comentários de carácter “nacionalista” sobre o ‘flop’ em que o LNG se transformou: “Angolanos, nós somos pioneiros na produção de gás. As falhas que se estão a verificar eram de se esperar. Apesar de os prejuízos serem avultados, maior prejuízo seria se continuássemos a deixar que os estrangeiros fizessem tudo por nós. Só com a união de todos angolanos mostraremos ao mundo que somos capazes de isso e muito mais”. Com critérios destes, não admira que o LNG continue parado.

De Angola para Moçambique

A descoordenação gestionária e a ineficiência técnica estão a pôr em risco a “árvore das patacas” que tem permitido aos capitalistas do MPLA comprarem empórios na Europa, exibirem uma riqueza escandalosa, tratarem com desdém as economias europeias em crise, oferecerem empregos sem olharem a custos e embarcarem num frenesi capitalista que ofende a miséria em que vive a maioria dos angolanos.

Mas o problema maior é que essa “árvore das patacas” já começou a secar. Aos avisos do Banco Mundial de que o petróleo angolano estará esgotado dentro de 20 anos, os dirigentes de Luanda respondem com bravata que os poços do país contêm ainda reservas de uma dezena de milhar de milhões de barris. Mesmo que assim fosse, poucas pessoas fazem as contas. E elas são simples de fazer: com uma produção de 1,5 milhões de barris por dia, o petróleo angolano deixará de existir dentro de 18 anos, e não 20…

As fontes angolanas d’O DIABO indicam que, em círculos bem informados, já começou a “transferência de interesses” de Angola para Moçambique, país que tem vindo a fazer um percurso menos ruidoso mas mais seguro. “Dentro de dez anos, o ‘el dorado’ angolano terá acabado”, prevê uma dessas fontes, que por razões mais do que óbvias pediu o anonimato.