Dilma continua a pilotar a economia, mesmo com as montanhas já muito perto...

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A “presidenta” socialista do Brasil prometeu “amanhãs que cantam”. Agora, tem de gerir uma economia em queda livre numa situação de total instabilidade política.

Foi um momento de humilhação nacional que uniu esquerda e direita, mas que passou tão rapidamente como veio. Em 2011, Portugal ainda andava deslumbrado com o Brasil “lulista” e precisava mesmo de um empréstimo para se salvar: a bancarrota estava ao virar da esquina. José Sócrates convidou, pois, Dilma Rousseff para vir a Coimbra receber um inopinado doutoramento ‘honoris causa’, no meio de muita pompa e circunstância. O namoro entre socialistas e esquerdistas portugueses e brasileiros parecia estar no seu ponto tórrido.

Contudo, essa visita teve para Sócrates o travo amargo das grandes desilusões amorosas. No final da cerimónia académica, Dilma vira-se para as câmaras da televisão e afirma, de forma cínica, que iria ajudar Portugal, logo ressalvando que, “no caso dos títulos, nós temos de cumprir os requisitos que dizem respeito ao uso das reservas do Brasil. Quais são os requisitos do banco central? Que sejam títulos triplo A”.

Ora, Portugal tinha tido o seu ‘rating’ internacional rebaixado para BBB- no mesmo dia desse infame comentário. Logo, o que Dilma anunciou em Coimbra foi um redondo “não” sob a capa de “sim”: uma estalada na cara dada com um sorriso de ocasião. Aliás, logo que se soube do rebaixamento do ‘rating’, Dilma regressou ao Brasil sem sequer terminar a visita. Poucos meses mais tarde, Sócrates teve de chamar o FMI para resgatar a república.

Avancemos quatro anos, até aos dias de hoje. Portugal viu o seu ‘rating’ (finalmente) subir para BB+ e o Brasil juntou-se-nos na categoria “lixo”, exactamente com o mesmo ‘rating’.

Com uma agravante para Dilma: enquanto Portugal tem por si o peso da União Europeia, o que significa que consegue financiar-se com juros relativamente baixos, o Brasil não possui qualquer respaldo. E a queda a pique dos preços do petróleo significa que o país do samba está a ficar sem dinheiro, e sem capacidade de se financiar.

Produção parada

Para os socialistas brasileiros, o cenário é negro: o governo federal viu-se obrigado a aplicar um corte inicial de 26 mil milhões de euros no orçamento do Estado e prepara-se para introduzir novos impostos para tentar equilibrar as contas, cuja “engenharia” estava dependente de um preço do petróleo elevado.

Quando foi eleita, Dilma jurou que não faria cortes orçamentais nem aplicaria a famigerada “austeridade”. A profunda recessão, aliada a uma inflação fora de controlo, dinamitou esta promessa vã. Os aumentos dos funcionários públicos foram congelados, as pensões reduzidas e os concursos públicos suspensos. Vários programas sociais do seu antecessor e patrono, Lula da Silva, como a muito mal distribuída Bolsa Família (uma espécie de rendimento mínimo brasileiro, mas ainda mais generoso), vão sofrer cortes significativos. Qualquer semelhança com o caso português é pura, e irónica, coincidência…

A direita brasileira só não se ri da situação por razões patrióticas, visto que alertou incessantemente para a situação crítica que se avizinhava. O Partido Social-Democrata do Brasil, PSDB, há anos que ressalva que o país precisa de reformas profundas para tornar a economia mais produtiva. Dilma, no entanto, insistiu em fortes barreiras tarifárias que protegem trabalhadores sindicalizados e empresários dependentes do Estado, mantendo uma indústria obsoleta e pouco competitiva. As exportações do país, durante anos, centraram-se no envio de matérias-primas e produtos agrícolas para a China. Agora que o “boom” chinês entrou em reversão, há vastas toneladas de inventário em excesso nos portos do Brasil. A máquina produtiva parou em muitos sectores.

Instabilidade total

Aplicar as reformas estruturais de que o país desesperadamente precisa pode revelar-se muito complicado, devido ao estado terminalmente doente em que se encontra a classe política brasileira. Dilma é a presidente mais impopular de sempre do Brasil, com uma taxa de aprovação de apenas 8 por cento, e a cada dia que passa a sua remoção do cargo parece mais próxima. Tanto na oposição como no seu próprio partido, afiam-se as facas para pôr fim ao mandato de Dilma, cujo alegado envolvimento no gigantesco esquema de corrupção da Petrobras lhe retirou quase toda a legitimidade enquanto presidente. Até os seus mais ferrenhos apoiantes de ontem reconhecem que, caso o pacote de medidas fiscais que Dilma vai enviar ao Congresso Federal seja chumbado, a queda se tornará inevitável.

Infelizmente para os brasileiros, a sua renúncia ou remoção do cargo pouco resolverá. Em caso de ‘impeachment’, o resto do mandato será cumprido pelo vice-presidente do Brasil, Michel Temer, também ele implicado no esquema de corrupção. Se também ele fosse afastado, o cargo passaria temporariamente para o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que por sua vez também está implicado no mesmo esquema e teria poucas condições de governar nos 90 dias antes de se realizar uma eleição especial para presidente da república. O próximo na lista, o presidente do Senado, também está implicado no esquema.

O facto de quase todas as “figuras de Estado” brasileiras estarem implicadas no “petrolão” indica bem a situação de total instabilidade governativa. Tal como na Grécia, tal como em Portugal, a esquerda prometeu mundos e fundos ao povo. No caso brasileiro, o samba do forrobodó está dar as suas últimas notas…

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