Cada vez mais pessoas cada vez menos água

Cada vez mais pessoas cada vez menos água

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“No século XXI vão travar-se guerras pela água”

O Ministério da Defesa do Reino Unido divulgou recentemente o seu relatório “Global Strategic Trends” – um estudo que, baseado em dados estatísticos e na opinião de um grande número de especialistas, delineia os vários aspectos que se prevê que vão mudar nas nossas sociedades até 2045. O DIABO, que vem analisando esta temática durante o mês de Agosto, debruça-se esta semana sobre a questão dos recursos e da demografia.


Duas graves crises demográficas do mundo dos nossos dias, simultâneas mas de sentido oposto, poderão vir a afectar seriamente o futuro do planeta. Nos países desenvolvidos, o problema é a quebra das taxas de natalidade que diminui drasticamente o número de jovens em relação a idosos e ameaça reduzir ainda mais as populações (a previsão para Portugal é de que em 2045 poderá não ter mais do que 6,6 milhões de habitantes). Nos países subdesenvolvidos, o problema é o inverso: a população cada vez aumenta mais, e de uma forma descontrolada.

Apesar de ambos os casos serem problemáticos, a situação dos países desenvolvidos poderá trazer alguns benefícios a longo prazo. De facto, a crise reside nos rácios entre população activa e não activa, mas o declínio da população poderá não ser um problema tão grave a longo prazo quando tivermos em conta os avanços na automatização.

Em contrapartida, uma enorme população pode criar problemas gravíssimos. Globalmente considerado, o planeta está cada vez mais sobrelotado: hoje já há mais de 7 mil milhões de humanos a viver na Terra. Mas em breve seremos ainda mais: algumas previsões apontam para uma população mundial de 9 mil milhões em 2045, outras prevêem números ainda mais altos.

Esta não é uma questão nova. Thomas Robert Malthus foi, no final do século XVIII, o primeiro economista a analisar as crises demográficas que assolavam periodicamente a Europa, chegando à conclusão de que o crescimento populacional era um processo exponencial que não estava dependente dos índices de produção agrícola. Ou seja: mesmo escasseando a comida, a população continuaria a aumentar até esse crescimento ser travado por meio de doenças ou por meio da fome quando finalmente a produção de comida não chegasse para alimentar toda a população.

Existem duas formas genéricas de olhar para as conclusões de Malthus. Há aqueles que consideram que o importante é aumentar a produção, dessa forma evitando a “armadilha demográfica”, e há aqueles que consideram que é importante limitar o aumento descontrolado da população.

Durante a revolução industrial do século XIX e a revolução verde dos anos 70 do século XX, propagou-se a ideia de que o Malthusianismo era uma teoria ultrapassada. De facto, o enorme aumento de produção de comida permitiu alimentar mais bocas do que nunca. Só que, agora, o problema poderá não estar apenas na escassez de comida em si.

 A ironia do desenvolvimento

Nas últimas duas décadas, milhões de pessoas saíram da miséria nos países em via de desenvolvimento. Hoje, mais pessoas têm acesso a condições de vida aproximadas das da classe média ocidental. Infelizmente, não existe a garantia de que os recursos disponíveis sejam suficientes para manter estas condições de vida, pelo menos para tantos milhares de milhões.

O relatório britânico prevê que, graças a desenvolvimentos na agricultura, a produção de alimentos poderá aumentar algo como 70% nos próximos trinta anos – um valor que, apesar de impressionante, simplesmente não será suficiente para alimentar vastos milhares de milhões de pessoas.

Pior: o aumento da popularidade do ‘biodiesel’ (obtido pelo processamento de produtos agrícolas) está a colocar muitos países perante um dilema – ou cultivam para comer ou cultivam para produzir ‘biodiesel’. À medida que o petróleo se tornar mais escasso e aumentar o recurso ao ‘biodiesel’ (especialmente porque os velhos automóveis poderão ser convertidos com facilidade para esta nova energia), um número crescente de cultivadores tenderá para uma exploração energética, e não alimentar, das suas plantações. A procura excederá em muito a oferta, e como tal os preços dos bens agrícolas subirão.

As previsões mais optimistas apontam para um aumento mediano de 30% no custo dos produtos agrícolas, mas as menos optimistas apontam para 100%, ou mais. Não será um cenário inédito. Um choque similar aconteceu já em 2006, quando os preços da comida dispararam em todo o planeta, só sendo a crise solucionada por meio de intervenções estatais.

As consequências políticas e sociais seguir-se-ão, caso o pior aconteça. Nada de novo ou inédito na história. A revolução francesa, por exemplo, teve como causa próxima a insatisfação dos parisienses com o preço da comida.

Para os países em desenvolvimento, o cenário ainda piora mais no futuro. Não só terão de resolver todos os problemas inerentes a uma taxa demográfica descontrolada, como enfrentarão um problema extra, para o qual os cientistas vêm chamando a atenção: as alterações climáticas vão levar a que a produtividade agrícola decresça nos países mais próximos do Equador, nomeadamente em África e no Sudeste e Sul da Ásia. Curiosamente, é provável que a produtividade aumente nos países em latitudes mais elevadas, como Portugal por exemplo.

A triste ironia é que os países que vão precisar mais de comida serão, precisamente, aqueles que vão ter cada vez mais dificuldade em produzi-la.

Todas as gotas contam

Água: todos dependemos dela. A humanidade e a sua civilização dependem de um fornecimento constante de água doce, um recurso finito, cuja “produção” não pode ser aumentada facilmente e sem enormes custos (a dessalinização, por exemplo, é um processo proibitivamente caro). Mas, mesmo sendo um recurso finito, o seu consumo está a aumentar cada vez mais.

Uma das principais causas deste aumento de consumo? A necessidade de aumento da produção agrícola para sustentar o enorme crescimento populacional que o planeta regista.

As mesmas alterações climáticas que farão diminuir a produção de comida em muitos países menos desenvolvidos tenderão também a reduzir o ‘stock’ de água disponível. A quantidade de água usada hoje já é manifestamente inferior às necessidades, e muitos países no mundo ainda dependem de fontes de água insustentáveis, como aquíferos (formações geológicas com águas subterrâneas).

Estima-se que o consumo aumente em cerca de 40 por cento até 2045, com uma diminuição da oferta sempre a espreitar. É por esta razão que vários cientistas avançam com um número drástico: 40 por cento da população mundial poderá ter um acesso muito limitado, ou mesmo nenhum acesso, a água potável dentro de 30 anos.

As consequências prometem ser graves. Além dos conflitos políticos já mencionados, os britânicos prevêem que, em situações de desespero, a disputa de recursos poderá ser particularmente brutal, dando azo a guerras prolongadas e sangrentas. No século XX travaram-se guerras pelo petróleo; no século XXI, parece que se vão travar pela água.