Comunismo cubano receia o poder dos computadores

Comunismo cubano receia o poder dos computadores

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Há seis anos que a venda de computadores foi liberalizada pelo governo cubano. Mas comprar um continua a ser uma missão muito complicada. Os cubanos têm de encontrar soluções criativas e recorrem quase sempre ao mercado negro. Ainda assim, Cuba é dos maiores exportadores mundiais de tecnologia informática.

Quando há seis anos, numa manhã de Março, a notícia se espalhou, foram muitos os que consideraram que a liberalização dos computadores era o início da abertura que há muito Cuba esperava. Mas a revolução digital não chegou. Os preços praticados fizeram perder toda a esperança.

Os portáteis já não têm de ser escondidos de amigos e conhecidos, mas as máquinas são muitas vezes obsoletas. A medida de Raúl Castro, quando chegou ao poder em 2008, surgiu como uma brisa de esperança. Mas que rapidamente desapareceu.

Até então, apenas empresas e estrangeiros podiam adquirir este tipo de equipamentos. Quando a notícia da liberalização se espalhou, milhares de cubanos foram espreitar os monitores, leitores de CD-ROM ou discos-rígidos que estavam expostos nas montras. Mas os preços eram proibitivos. Os cubanos estavam convencidos de que a informática se tornaria mais barata e a oferta mais diversificada. Nada disso aconteceu.

Um último inquérito oficial ilustra uma evolução penosa: em 2007, havia em Cuba 45 computadores por cada mil habitantes; em 2008, eram 56; e em 2012, apenas 74. Houve, é certo, um aumento. Mas Cuba está longe de uma liberalização do mercado. Está muito longe da era digital. Os cubanos estão parados no tempo, e o governo continua a privar o povo dos benefícios de uma indústria que, em exportações, lhe dá milhões de euros todos os anos.

Cuba não aparece no radar de qualquer dos grandes estudos anuais sobre o uso de tecnologias de informação, mas paradoxalmente tem vindo a registar um aumento das receitas pela venda de produtos e serviços relacionados com a informática.

A aliança estratégica com a Venezuela foi uma peça-chave para o avanço da ilha no competitivo mercado das telecomunicações. Aliás, a Venezuela não só se transformou num dos seus maiores clientes, como cedeu técnicos que contribuíram com a formação de pessoal técnico. O sector ocupa hoje o terceiro lugar na lista de exportações cubanas.

As vendas só são superadas pelas da agro-indústria e da indústria farmacêutica e biotecnológica. Os números mais recentes do Escritório Nacional de Estatística de Cuba mostram que, em 2009, a exportação de pacotes de ‘software’ e serviços informáticos rendeu a Cuba cerca de mil milhões de euros. No ano seguinte, esse número mais que dobrou, ultrapassando os 2 mil milhões. A quantidade representa, por exemplo, um terço dos lucros obtidos pela gigante Microsoft em todo o mundo com a venda do programa Windows, em 2012.

 Batalha das ideias

O ponto de inflexão para o ‘boom’ da informática cubana aconteceu em 2007. Naquele ano, a Venezuela de Hugo Chávez outorgou à ilha dos irmãos Castro o contrato para a elaboração de um novo cartão de cidadão electrónico e a modernização do sistema de identificação. Esse acordo foi a ferramenta de Cuba para entrar em contacto com os grandes fornecedores mundiais de programas e equipamentos para serviços de identificação e segurança. Além disso, deu-lhe luz verde para exportar para outros países os mesmos bens e serviços desenhados para a Venezuela, que também adquiriu ‘software’ cubano para equipar praticamente toda a administração pública nacional.

Fidel Castro concebeu o plano para digitalização da ilha no final dos anos 90, no contexto da “Batalha das Ideias”, um programa para reforçar a doutrina comunista de seu governo. Em 2002, criou em Havana a Universidade de Ciências Informáticas, na velha sede de uma base de espionagem e escuta soviética. Cerca de 5.000 estudantes e professores constituem hoje o principal núcleo de produção de ‘software’ da ilha.

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Raul Castro, ditador comunista de Cuba

A universidade foi criada com assessoria e financiamento da Venezuela. O principal objectivo foi abrir a Cuba a porta do comércio exterior. O que podiam oferecer era só o talento humano, porque não tinham acesso à tecnologia nem a processos industriais. Eram bons engenheiros teóricos, mas muito fracos na prática. Com a intervenção venezuelana, tiveram acesso a equipamentos e entenderam como funcionavam.

 EUA criaram “twitter cubano”

Cuba vende a tecnologia, mas tem medo de pô-la nas mãos do povo. Porque sabe do poder de um computador, sobretudo nas mãos de jovens mais interessados na liberdade e no progresso do que no socialismo científico.

Aliás, descobriu-se este ano que os Estados Unidos orquestraram secretamente a criação de uma rede social em Cuba para iludir o controlo do regime comunista sobre a Internet e minar o Governo de Havana. O projecto, desvendado pela agência Associated Press, durou mais de dois anos e atraiu milhares de subscritores, sobretudo jovens cubanos, que as agências secretas americanas queriam despertar para a dissidência. O “twitter cubano” era implementado por companhias fictícias e financiado através de bancos estrangeiros.

O projecto denominava-se “ZunZuneo”, um dos nomes informais que os cubanos dão aos ruídos produzidos pelo colibri. Os utilizadores nunca suspeitaram que tinha sido criado por uma agência com ligações ao Departamento de Estado dos EUA, nem que empregados ao serviço do Governo Federal norte-americano estavam a recolher dados pessoais dos subscritores, na esperança de que a informação pudesse vir a ser útil mais tarde, para fins políticos.

O esquema foi lançado em 2009, depois de Alan Philip Gross ter sido detido em Cuba. Gross era um empregado da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) que foi preso pelas autoridades de Havana por ter introduzido na ilha telefones-satélite e computadores sem obter as permissões exigidas pela lei cubana.

Acusado de trabalhar para os serviços secretos norte-americanos, foi condenado em 2011 por “actos contra a independência ou integridade territorial do Estado” e encontra-se a cumprir uma sentença de 15 anos numa prisão de Cuba.

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