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No Ocidente, até há meses, a extrema-esquerda sempre teve um trunfo em relação às outras forças políticas: ao contrário dos socialistas, dos liberais ou dos conservadores, que ganharam eleições e formaram governos, os radicais nunca tinham sido obrigados a assumir responsabilidades. As suas “utopias”, mesmo na mais moderna versão “caviar”, nunca tinham sido realmente testadas na prática – o que lhes permitia prometer aquilo que os eleitores queriam ouvir, por mais irreal que fosse. Até que, em Janeiro deste ano, os flautistas de Atenas chegaram ao poder…

Se recuássemos a período anterior a 2008, véspera do início da crise financeira e económica que se vive hoje na Europa, poderíamos encontrar Yanis Varoufakis e Alexis Tsipras num qualquer café chique de Atenas a verberar os erros do capitalismo e a tecer loas às “utopias” da moda. Não passariam de dois ricos meninos-de-família que, por graça e desfastio, matavam o tempo a imaginar como seria se eles, por absurdo, chegassem um dia ao poder.

Mas uma crise pode ter efeitos inesperados – e desconcertantes. Escassos anos depois, os gregos entregam mesmo os destinos da sua nação a dois extremistas sem qualquer experiência governamental: Tsipras e Varoufakis. E as promessas que os levaram ao poder pareciam, de facto, conversa de café: “acabar imediatamente com a austeridade, romper com a troika, restaurar a dignidade e independência da Grécia, sem no entanto abandonar o euro, e alterar a forma como a Zona Euro é governada”.

Nas palavras de um burocrata em Bruxelas: “Eles estão a viver na Terra do Nunca”.

Infelizmente os gregos que os alcandoraram ao poleiro, é na realidade que têm hoje de viver. E a realidade é dura. Enquanto países como Portugal e Espanha, à custa de grandes sacrifícios, conseguiram reestruturar a sua economia o suficiente para este ano verem alguma retoma económica, os gregos estão à beira da bancarrota e do caos económico.

Cruzada quixotesca

shield-512019_1280Acabar com a austeridade provou-se difícil, visto não haver dinheiro nos cofres. Ainda assim, Tsipras mandou recontratar todos os funcionários públicos anteriormente dispensados pelas medidas de austeridade, mesmo que a maioria não tenha absolutamente nada para fazer nas vastas repartições do Estado. Num país com onze milhões de habitantes, o número de funcionários públicos ascende a um milhão, e mesmo isso não chega para a esquerda radical.

As nacionalizações anunciadas nunca chegaram a ir para a frente, e o porto do Pireu, que o Syriza prometeu nunca vender, acabou por ser privatizado na mesma, por um preço abaixo daquele que havia sido acordado pelo governo anterior. Os compradores chineses aperceberam-se de que tinham o Executivo grego encurralado e desesperado por dinheiro.

Atenas está, de facto, falida, e os radicais rapam desesperadamente o fundo do tacho para ganhar tempo. Os fornecedores de bens e serviços ao Estado já não são pagos há dois meses: se Atenas honrasse esses compromissos, ficaria sem dinheiro para pagar aos funcionários públicos e para cobrir os juros da dívida.

Todos os tostões contam, e Tsipras obrigou já as autarquias a entregarem ao Estado todo o dinheiro que tinham em caixa. Infelizmente para os radicais, os autarcas também já não tinham muito, e os que tinham recusaram-se a cumprir, um sinal da autoridade que Tsipras tem.

Entretanto o Syriza conseguiu cometer mais uma “proeza”: pagou ao FMI com dinheiro que estava depositado… no FMI, e que precisa de ser devolvido muito em breve. Nem as Embaixadas se salvam: os radicais no poder mandaram vir das representações gregas pelo mundo tudo o que pudessem encontrar na tesouraria, com a maior urgência, se necessário por mala diplomática.

O cheiro a falência é forte mas todos os cêntimos que lhes restam estão a ser gastos numa cruzada quixotesca contra a União Europeia e os credores. Tal como o flautista de Hamelin, os flautistas de Atenas tocaram a sua música, e no processo arrastam o povo, feliz, contente e ignorante do seu destino, para o abismo da bancarrota. Um “grande salto em frente” para a catástrofe.

O falhanço da “grande coligação”

Os últimos cinco meses de negociações da Grécia com os credores, algo que o Syriza garantia ser uma peça central do seu programa, têm sido um exercício de insanidade que ficará para a História. A agressividade de Yanis Varoufakis para com os seus colegas tornou-se proverbial. A rapidez com que saltam de disparate para disparate, também. Num momento Varoufakis diz que as negociações estão a chegar a bom porto, no outro é apanhado em vídeo a mostrar o dedo do meio quando fala de Merkel. Num momento diz que as relações com a União Europeia nunca estiveram melhores, no outro diz que “agradece o seu ódio”.

A paciência dos “lobos maus” está, entretanto, a esgotar-se. O ministro alemão das Finanças já afirmou que está preparado para uma falência grega e o presidente do Eurogrupo chegou a recusar-se a atender telefonemas de Varoufakis, tal foi a forma como se sentiu insultado. Nem mesmo o périplo de Varoufakis e Tsipras pelas capitais dos países do Sul serviu para alguma coisa: de uma Península Ibérica endividada por décadas de má gestão socialista, nem uma palavra de simpatia. De Paris e Roma, lideradas por governos de esquerda, surgem alguns abraços, cumprimentos, votos de solidariedade… mas mesmo esses insistem em que a Grécia deve respeitar os seus compromissos. A “grande coligação” contra a Alemanha falhou porque os radicais gregos não têm credibilidade.

Espelho meu, espelho meu…

Talvez ainda não seja o capítulo final nesta história, mas Varoufakis já sacode a responsabilidade pelo iminente desastre, culpando os “parceiros europeus” por não deixarem Atenas fazer as “suas” reformas. Note-se, no entanto, que os credores rejeitaram as “reformas” de Varoufakis e companhia porque estas pouco ou nada reformavam. Como último “trunfo”, Varoufakis diz que “é óbvio” que os pagamentos da Grécia vão ter de ser adiados. Os credores discordam: ou a Grécia paga, ou entra em incumprimento.

Varoufakis e Tsipras contam, no entanto, com minúsculos grupos de fãs em toda a Europa, entre eles a delegação do Syriza em Lisboa, mais conhecida como Bloco de Esquerda.

“Espelho meu, espelho meu, haverá partido mais parecido com o Syriza do que o meu?”, perguntaram-se os radicais portugueses que se colaram, de forma implícita, aos destinos da “experiência grega”. O certo é que a experiência está a correr mal. E agora, que o “benefício da dúvida” terminou, não são as capas dos jornais portugueses, que chegaram a anunciar a vitória de Tsipras como a ressurreição de Jesus Cristo, que vão alterar a percepção que os portugueses têm da situação. Na sondagem realizada pela Aximage, os bloquistas apenas alcançam quatro por cento das intenções de voto, um resultado ainda pior do que o das eleições de 2011, nas quais o BE já perdeu metade dos seus deputados.

Fim da linha?

euro-373008_1920Já nem os próprios gregos, pelo menos os que ainda têm dinheiro, confiam no governo radical do Syriza. Só desde Janeiro foram retirados 30 mil milhões de euros dos bancos nacionais. A iminência da bancarrota levou também a generalidade dos contribuintes a deixar de pagar impostos. Não que antes fossem cidadãos muito cumpridores das suas obrigações: mais de metade dos gregos deixa, alegremente, as suas dívidas ao fisco prescrever.

A instabilidade em que o Syriza lançou o país já mostra os seus sinais. Enquanto Portugal e Espanha voltaram a crescer, o novo “paraíso dos trabalhadores” está de regresso à recessão. O desemprego também aumentou, e dessa forma a base de apoio dos radicais de esquerda está em queda livre. De todas as formas, conseguiram atirar o seu país para uma situação muito pior que aquela em que estava antes das eleições de Janeiro passado. Se cair na bancarrota, a Grécia vai sofrer tremendamente, e o choque durará, pelo menos, uma geração (a Argentina ainda não recuperou da bancarrota de há mais de uma década).

Caso eventualmente cedam nas negociações, os credores vão impor condições ainda mais duras aos gregos, nomeadamente que o governo finalmente obrigue os contribuintes a pagar impostos – algo que, inevitavelmente, destruirá a imagem laxista que cativou tanto grego inconsciente. Neste quadro, subsistem as maiores dúvidas de que o Syriza, eleito com base em descontentamentos pueris e fantasias, consiga colocar tais medidas sequer em prática sem cometer suicídio político.

No fim de tudo, acima de quaisquer questões ideológicas, esta é uma questão de confiança. Os japoneses têm uma dívida pública muito superior à grega, mas ninguém tem dúvidas sobre a credibilidade do governo japonês. Os gregos mentiram no passado, já pediram, e receberam, um “corte de cabelo” (termo eufemístico para perdão de divida) de 70 por cento, e depois elegeram um governo radical que ainda piorou mais a questão.

Um conto de fadas que vai custar muito caro.

  • Anselmo Heidrich

    Excelente, direto ao ponto.

  • Manuel Lopes

    Os fãs do Syriza por cá perderam o pio