Contra o sistema: os partidos do descontentamento

Contra o sistema: os partidos do descontentamento

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No Reino Unido, em França, na Grécia e na Suécia, os partidos “anti-sistema” continuam a subir nas intenções de voto e aproximam-se da área do poder. O desemprego galopante, a imigração descontrolada e a estagnação económica estão a favorecer os partidos alternativos aos olhos de um eleitorado farto dos “políticos do costume”.

Se algo os une, é a subida à ribalta pela via do descontentamento popular. A partir daí, divergem: há-os de esquerda e de direita. Mas, mesmo dentro de cada um dos lados da barricada, apelam a eleitorados diferentes e fazem propostas distintas.

É por isso difícil imaginar uma coligação europeia entre o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) e a Frente Nacional Francesa, apesar de serem ambos, pelo menos tecnicamente, partidos de direita.

Os partidos “anti-sistema” começam a ter influência nos seus países de origem, e já representam um terço do Parlamento Europeu. Serão apenas um passageiro fenómeno populista – ou uma alternativa viável e duradoura? Conseguirão ser governo? Que querem, afinal?

Se se pode confiar nas sondagens, tudo indica que o Reino Unido caminha para um quadro parlamentar em que nenhum dos partidos terá maioria absoluta. Este é um fenómeno muito invulgar na política britânica, tão insólito que tem a designação de “hung parliament” (parlamento pendurado).

Uma perspectiva pouco agradável para uma nação que nos últimos anos tem sido governada por uma coligação altamente disfuncional de liberais e conservadores.

Cedências conservadoras

Nigel_Farage_of_UKIPMas esta coligação, formada depois de as eleições de 2010 terem posto fim a 14 anos de controlo trabalhista do parlamento, é uma das duas causas para se recear uma crise política em Maio.

De forma a funcionar, o Partido Conservador teve de fazer cedências críticas aos seus novos aliados, os Liberais-Democratas. Foi um mau acordo: os dois eleitorados eram demasiado diferentes.

O UKIP nasceu do descontentamento da direita do Partido Conservador, geralmente identificada com o Thatcherismo. As suas exigências são a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e uma política mais forte em relação à imigração.

Estas são duas áreas onde o primeiro-ministro, David Cameron, não pode agir unilateralmente, visto que os seus “aliados” no governo, os Liberais, são a favor da União Europeia, do “multiculturalismo” e da imigração aberta.

O resultado tem sido um aumento da influencia do UKIP à custa do Partido Conservador.

Aliás, até já lhe está a ficar com os representantes: dois deputados Conservadores decidiram mudar recentemente para o UKIP, pedindo depois um mandato popular para continuarem deputados por meio de eleições antecipadas nos seus círculos eleitorais (no Reino Unido, cada círculo elege um deputado). Ambos triunfaram sobre o seu antigo partido, e sobre todos os outros, por uma grande vantagem.

O UKIP é já detentor da maior representação do Reino Unido no Parlamento Europeu e, segundo as mais recentes sondagens, poderá arrebatar 17% dos votos nas eleições gerais de Maio de 2015.

Escoceses em alta

Quanto aos Liberais-Democratas, descobriram de forma dolorosa que trair o eleitorado pode custar caro. Apesar de serem um partido de centro-esquerda, aliaram-se a um governo que teve de aplicar fortes medidas de austeridade de forma a compensar o despesismo socialista dos governos de Tony Blair e Gordon Brown.

As sondagens indicam que podem perder 60% dos seus anteriores eleitores, ficando reduzidos a 8% dos votos, tendo em 2010 ganho 24%.

O colapso do eleitorado liberal poderá ter como resultado a ascendência de outro partido que tem vindo a beneficiar do descontentamento popular, ainda que seja muito menos referido na imprensa do que o UKIP. Falamos do Partido Nacional Escocês (SNP-Scottish National Party).

O SNP pode conquistar entre 40 e 50 dos assentos parlamentares (num total de 650) com apenas 3% do voto popular, segundo os especialistas em análise de dados do site “electoral calculus”.

A razão para isto é a forma como as eleições são conduzidas no Reino Unido: ao contrário do sistema proporcional, como o usado em Portugal, no Reino Unido o candidato que ganhar mais votos ganha, quer tenha 90% ou 10% dos votos.

Na Escócia, o referendo falhado conduziu a uma exigência de maior autonomia e a uma rejeição dos partidos de “Westminster”; logo, os candidatos do SNP preparam-se para vencer quase todos os assentos Escoceses no Parlamento Britânico.

Marine e a França

A braços com um cenário de estagnação económica, desigualdade e anarquia nos principais centros urbanos, os franceses preparam-se para dar um voto de confiança à líder da Frente Nacional (FN), segundo indicam não só as sondagens mas também os recentes resultados nas eleições locais e europeias.

Para além das condicionantes económicas, as promessas falhadas de Hollande estiveram também na origem do descontentamento francês com os políticos no poder. Eleito numa plataforma populista similar à de Obama, Hollande prometeu “mudança”, embora não tenha elaborado muito sobre o que ele considerava “mudança”, e na verdade continuou a política do costume com os políticos do costume. Entretanto, a vida do povo continuou a piorar.

Tal como no caso de Obama, a reacção não demorou muito a chegar: a popularidade do ainda Presidente caiu a pique, e um eleitorado que se sente enganado procura novas alternativas.

demonstration-144957Em vários aspectos, Marine Le Pen é considerada uma engenhosa operadora política. Teve capacidade para dar nova vida ao partido criado pelo seu pai, distanciando-se das propostas mais radicais que afastavam uma larga parcela do povo francês e procurando um eleitorado cada vez mais alargado.

Politicamente, o seu programa é considerado astuto: combina políticas económicas socialistas com um programa social conservador e nacionalista, o que significa que a FN consegue a proeza de conquistar eleitorado tanto do Partido Socialista como da conservadora União para um Movimento Popular.

E, no entanto, o caminho de Marine para o poder apresenta as suas dificuldades. A Frente Nacional ainda enfrenta um grande número de opositores, a chamada “Aliança Republicana”, que estão dispostos a aliar esquerda e direita para manter a FN fora do poder. No sistema eleitoral francês, este detalhe poderá fragilizar o impacto da FN no quadro eleitoral.

Segunda volta?

Segundo as últimas sondagens, Marine conta com 30% das intenções de voto para Presidente da República Francesa, resultado que, caso se confirmasse, a conduziria a uma segunda volta eleitoral contra Sarkozy (no caso de este vir a ser candidato, como se espera). Mas esta não seria a primeira vez que um Le Pen iria a uma segunda volta presidencial, visto que em 1992 Jean-Marie Le Pen conquistou 200 mil votos a mais do que o candidato socialista e defrontou Jacques Chirac na segunda volta, em que Chirac o derrotou por uma enorme maioria.

Na eventualidade de se conseguir tornar a nova inquilina do Eliseu, Marine iria, ainda assim, precisar de conquistar uma maioria na Assembleia Nacional. No complicado sistema político da V República Francesa, o Presidente é tecnicamente Chefe de Governo, mas só se tiver uma maioria no Parlamento. Caso não a obtenha, passa-se então à chamada “coabitação”, em que o primeiro-ministro é de um partido e o Presidente de outro. Numa situação de coabitação, o Presidente é geralmente reduzido a uma figura cerimonial, muito similar ao Presidente da República Portuguesa.

Só que conquistar uma maioria na Assembleia Nacional esbarra novamente no mesmo problema que existe com as eleições presidenciais. Ao contrário do sistema proporcional usado em Portugal, os deputados são eleitos directamente em França, devendo para isso conquistar uma maioria absoluta dos votos no seu círculo. Este sistema castiga fortemente a FN devido ao peso da “Aliança Republicana”. Marine Le Pen, por exemplo, foi derrotada por este “acordo”, não se tornando deputada por uma diferença de escassos 100 votos.

Nas últimas eleições, a Frente Nacional foi o terceiro partido mais votado, com três milhões e meio de votos, e mesmo assim só conquistou dois assentos. Em comparação, a Aliança Centrista elegeu o mesmo número de representantes com apenas 156 mil votos.

Bomba-relógio na Grécia

Os sistemas políticos “criativos”, por interessantes que possam ser para os politólogos, podem conduzir a situações aberrantes. O sistema grego, por exemplo, prepara-se para entregar as rédeas do poder à extrema-esquerda. Desde que rebentou a crise, a Grécia tem vivido uma situação de instabilidade social crónica.

Descontentes com os governantes socialistas, os Gregos reduziram o PASOK (equivalente ao nosso Partido Socialista) à insignificância, ao mesmo tempo que decidiram alinhar atrás do partido de extrema-esquerda Syriza (em português: Coligação da Esquerda Radical), uma versão grega do “nosso” Bloco de Esquerda.

Nas últimas eleições, em 2012, o partido moderado “Nova Democracia”, liderando uma espécie de “aliança centrista”, só conseguiu formar governo devido a uma cláusula na Constituição que atribui 50 assentos-extra ao partido com mais votos.

A esperança dos moderados era de que se poderia manter o Syriza fora do poder durante quatro anos, tempo que permitiria atacar as causas da sua popularidade.

Este plano, contudo, está em riscos de falhar devido à mesma Constituição que deu a maioria à Nova Democracia. Ao contrário do que sucede, por exemplo, na III República Portuguesa, o Presidente da República Helénica é eleito pelo Parlamento, e só vence se conquistar 180 dos votos dos deputados; caso contrário, a Constituição determina a realização de eleições gerais que possibilitem a formação de novas maiorias ou coligações parlamentares.

Problema: os partidos moderados apenas detêm um total de 153 votos, e um novo Presidente terá de ser eleito em 2015. Tudo indica, por isso, que serão realizadas eleições antecipadas – e as sondagens indicam que estas serão ganhas pelo Syriza, que poderá vencer quer sozinho, quer em coligação.

A sua vitória levantará um problema severo para a Europa, visto que este partido defende a reestruturação da dívida soberana grega, o fim do programa de austeridade, a saída do Euro e possivelmente da União Europeia.

Suecos derrubam governo

A Suécia é muitas vezes considerada como a terra-mãe da esquerda nórdica, que valoriza o Estado social, o multiculturalismo e a abertura de fronteiras. É por isso surpreendente a viragem à direita a que se assiste neste país escandinavo.

A principal razão, segundo a generalidade dos observadores, é a consciência crescente entre os suecos de que a sua cultura está a ser destruída em nome do “politicamente correcto”. Recentemente, até as celebrações cristãs do Natal em espaço público tiveram de ser limitadas para não se “ofender” a enorme comunidade islâmica residente no país…

A resistência ao poder do ‘lobby’ islâmico levou o partido conservador e anti-imigração Democratas Suecos a alcançar o terceiro lugar nas eleições de 2014, tendo o seu eleitorado duplicado desde o sufrágio de 2010.

Apesar de os Media e as outras forças políticas tentarem isolar o partido, o seu impacto na política sueca já se está a fazer sentir: os seus votos contra o orçamento causaram a queda do Governo e a convocação de eleições antecipadas.

À hora de fecho desta edição, os Democratas Suecos continuavam a subir nas intenções de voto.

Caso o poder destes partidos continue a crescer, certas plataformas da União Europeia terão de ser renegociadas, incluindo o Tratado de Schengen e o sistema de resgate de economias problemáticas. Resta saber como vão as forças políticas centristas gerir o descontentamento popular, fruto de anos de governação de qualidade duvidosa.