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CESAR RANQUETAT JR.

Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor universitário.

A direita até que enfim despertou de seu sono letárgico. É salutar a revitalização do conservadorismo em terras brasileiras, ingrediente novo no tedioso e monocórdio cenário político nacional. A nova onda direitista pode ser explicada, parcialmente, como uma reacção diante da hegemonia política e cultural da esquerda progressista e, além disso, como uma rejeição a corrupta e decadente classe política dominante.

Contudo, tenho notado certa confusão e desorientação histórica, conceitual e doutrinária entre os analistas deste novo fenómeno e mesmo nas fileiras direitistas. Essa desorientação se deve em parte ao próprio carácter multifacetado e ambíguo das categorias direita e conservadorismo. Em realidade, não há a Direita, mas múltiplas e diversas direitas, assim como não há o Conservadorismo, mas distintivos e variados conservadorismos. Direita e conservadorismo não são conceitos unívocos. Ademais, são fenómenos históricos e sociais mutáveis e variáveis temporalmente e culturalmente. Muito desta confusão conceitual também deriva do trabalho malicioso de deturpação da linguagem levado a cabo pelos agentes da subversão. Esquerdistas e liberais conferiram propositadamente um sentido depreciativo e pejorativa a estes termos. O significado mais profundo e original destas noções foi intencionalmente deformado.

Mas, em que pese a complexidade e a ambiguidade destas categorias e realidades históricas, é possível sim captar a essência destes fenómenos e caracterizar os traços comuns e constantes que configuram o que pode ser definido como espírito conservador e atitude de direita. Para além das diversidades correntes de direita há uma forma própria e um modo específico de perceber a realidade social e a natureza humana que pode definida como cultura de direita ou mesmo de sensibilidade conservadora-tradicionalista, a qual se caracteriza principalmente por ser diametralmente oposta a visão de mundo progressista e igualitária hoje dominante na civilização ocidental.

A direita, nesse sentido, deve ser concebida axiologicamente e, em termos ideias, como uma postura diante do real, assim como uma orientação existencial, conforme a brilhante explicação do escritor romeno Vintilă Horia: “A Direita não é uma ideologia, é um estilo de vida que coincide com os valores fundamentais e dentro desses valores, em primeiro lugar, como cúpula de todos eles, estão os valores cristãos. A Direita é um estilo de vida permanente dentro do qual está o amor, a família, a propriedade privada, a fé religiosa, a moral, o heroísmo na guerra como na paz, esses são os valores fundamentais que sempre caracterizaram as Direitas porque contra eles sempre se manifestaram os de Esquerda (…). Eles inventaram uma ideologia, uma filosofia para poder atacar estes valores que não necessitam de nenhuma ideologia (…). A Direita representa a vida e a Esquerda a morbidez (…). A Direita é pelo amor normal ou natural, contra o aborto, em defesa da família, contra a droga, e não em vão, porque isto significa defender a vida. Do outro campo, do campo das ideologias, que são sempre de Esquerda, vêm sempre os ataques contra a vida, defendendo sempre atitudes contra-natura”.

Nesse sentido, é inescusável o desenvolvimento e o fortalecimento de um imaginário conservador e tradicional, de um particular estado de espírito e de um conjunto de convicções e sentimentos específicos. É indispensável afirmar e encorajar o florescimento de uma cultura de direita que, sobretudo, tenha suas próprias referências literárias, artísticas, filosóficas, históricas, antropológicas e sociológicas. Uma cultura de direita que tenha a ousadia de opor-se aos mitos igualitários e progressistas.

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