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“Acredito que o império é mais necessário no século XXI do que até agora o foi”. É com esta frase controversa que Niall Ferguson, o famoso académico inglês, resume a sua crença de que os impérios históricos têm sido injustamente vilipendiados, e de que o império moderno, os EUA, deve ser preservado. 

O último livro de Niall Ferguson, “Colosso, Ascensão e Queda do Império Americano”, segue nas passadas da anterior, e não menos controversa, obra do respeitado historiador escocês, “Império: Como a Grã-Bretanha Construiu o Mundo Moderno”. “Colosso” foi finalmente publicado em português, após onze anos de espera (de que teriam medo?), e é uma obra que se insurge contra as “verdades feitas” de um mundo académico dominado pela ideologia de índole marxista.

Como é costume nas suas obras, o autor não nos convida a concordar com todos os seus argumentos, mas sim a pensar de forma independente, algo que se torna cada vez mais difícil na nossa sociedade dominada pelas forças do “politicamente correcto”.

Pela capa e pelo título poderíamos ficar com a ideia de que “Colosso” é apenas um livro sobre os Estados Unidos da América e a sua política externa, mas enganar-se-ia quem assim pensasse. Os EUA, como último Império restante, servem de mote a Ferguson para analisar o papel dos Impérios ao longo dos séculos. É certo que, como reconhece, o Império americano é republicano, liberal e… “relutante” em aceitar a sua própria grandeza. Por isso Ferguson considera-o similar às versões britânica e romana de Império, onde o povo conquistador deixa o povo conquistado gerir os seus próprios assuntos, reservando para si apenas a condução das políticas financeira e de defesa.

O Tio Sam a educar as colónias para que um dia se tornem independentes
O Tio Sam a educar as colónias para que um dia se tornem independentes

O académico estabelece um interessante paralelo entre as bases militares norte-americanas, presentes em quase todos os países do mundo, e as guarnições das legiões de Roma, que mantinham a paz no mundo romano. As ocupações americanas do Iraque e do Afeganistão são dois casos claros de imperialismo, pondera Ferguson. Muitos académicos de esquerda concordariam completamente com esta premissa, mas jamais iriam concordar com a conclusão do historiador: é benéfico que os EUA sejam um Império, e até deveriam ocupar, colonizar e governar mais países. “Para muitas antigas colónias, a experiência da independência política tem sido um fracasso nos planos económico e político”, afirma o autor, defendendo o seu argumento com a evidência dos números. Este é um aspecto em que o livro se destaca das muitas obras de filosofia política (geralmente de esquerda) que abordam a temática: a obra é rica em citações, fontes de informação, gráficos e indicadores explicativos.

Missão civilizadora, precisa-se

Os argumentos de Ferguson são baseados numa feroz análise de dados que, lentamente, nos vai mostrando como, afinal, o imperialismo não foi um “erro histórico” tão grande como a esquerda quer fazer crer. Não só as economias das antigas colónias entraram em colapso, como todos os seus índices sociais foram arrasados por décadas de instabilidade e maus governos. “A esperança de vida em África tem estado a declinar e está agora apenas nos 47 anos”, notando o autor que esta realidade existe “apesar das ajudas, dos empréstimos e dos programas de perdão de dívida”.

Niall Ferguson não está sozinho nesta denúncia de mentiras muitas vezes repetidas. Como O DIABO tem frequentemente referido, são vários os livros “contracorrente” que, nos últimos tempos, têm contrariado as versões esquerdistas correntes.

Um deles é a obra de Brandão Ferreira “Guerra d’África, 1961-1974 – Estava Perdida a Guerra?”, no qual se afirma, com base em entrevistas e dados indesmentíveis, que o conflito nas Províncias do Ultramar Português poderia ter tido outro desfecho, bem diferente daquele que é erroneamente instilado às crianças nas escolas públicas.

Já o livro “A Pilhagem de África” revela e confirma a dura realidade que Ferguson expõe. Em 1973, o Produto Nacional Bruto de Angola era de 2,7 mil milhões de dólares, e no território (que era um exportador de comida) a fome tinha sido erradicada. Hoje, o PIB per capita angolano consegue ser mais baixo do que durante a “exploração colonial” portuguesa, e grande parte da população vive com menos de 2 dólares por dia. A fome e a doença afectam largos milhões de angolanos, enquanto os verdadeiros colonialistas exploradores, mas “anti-imperialistas”, os chineses, controlam cada vez mais o país. “Só dois entre quarenta e sete países subsarianos, o Botswana e as Maurícias, conseguiram evitar o caminho do fracasso económico” afirma Ferguson, especificando que a responsabilidade deste fracasso se centra na “existência de ditadores corruptos e sem lei cuja conduta torna impossível o desenvolvimento económico e estimula a oposição política a enveredar pela guerra civil”.

Angola era um território desenvolvido
Angola era um território desenvolvido em 1973

É neste quadro que o autor atesta a necessidade de uma estrutura imperial moderna. A descolonização deu azo ao renascimento de velhos ódios tribais e ao aparecimento de “senhores da guerra” cujo único objectivo é encherem os bolsos com as riquezas naturais de África (assunto que é central à obra do jornalista angolano Rafael Marques, “Diamantes de Sangue”).

A “exploração” que os anti-imperialistas garantem que acontecia é também desmistificada nesta obra, bem como noutras. Ferguson fez as contas e concluiu que chega hoje menos investimento em infra-estrutura às antigas colónias do que durante o período imperial. O autor mostra como a maioria da riqueza viaja hoje entre a China, os EUA e a União Europeia, enquanto os territórios dos antigos impérios pouco mais são do que fontes de recursos baratos, recolhidos com mão-de-obra escrava. Ora, no caso de Angola, a decantada “exploração” pela Metrópole era tal que aquela Província Ultramarina tinha uma balança comercial positiva, recebendo enormes investimentos de Portugal, que, entretanto, desapareceram.

E agora, o caos

“A História mostra que o período mais violento na história de um império ocorre muitas vezes no momento da sua dissolução”, diz o autor, confirmando algo que qualquer português com o mínimo conhecimento de História sabe bem. Sem as tropas portuguesas para manter a ordem, as rivalidades tribais e raciais dilaceraram as antigas Províncias Ultramarinas. Só em 27 de Maio de 1977 foram massacrados pelo menos 30 mil angolanos com palavras de ordem quase iguais às ainda usadas por grupos da esquerda europeia “bem pensante” como o MRPP, que continuam a usar o sinistro método da “purga” e da “eliminação”. Mudam-se os tempos, mas não as vontades.

O nosso Império, que já trabalhava para uma solução de autonomia para os povos nativos (Angola e Moçambique tinham sido promovidos a Estados em 1972), foi subitamente e deliberadamente desmantelado em prol de outro império, o soviético, algo que o autor nos recorda. Aliás, segundo Ferguson, a URSS era um exemplo ainda mais perfeito de Império do que os EUA, visto manter poder directo sobre as suas colónias, os países de Leste. É ressalvado, no entanto, que a URSS era um Império “negativo” pois impedia, em vez de incentivar, o desenvolvimento.

“O restabelecimento da ordem não é uma tarefa fácil”, conclui o autor, algo que acabou por ser confirmado pela saída apressada do Iraque por parte dos EUA. Ferguson aconselha mesmo os EUA a seguirem o conselho do Reino Unido, que colonizou o Iraque, mas ficou no território entre os anos 20 e os anos 50 do século passado. “O perigo reside na tendência dos políticos americanos, ansiosos por estarem à altura da sua própria retórica emancipalista e da sua promessa de ‘trazer os rapazes para casa’, de inverterem prematuramente os seus compromissos estrangeiros. Ou seja, em suma, de optarem pela descolonização prematura mais do que pela manutenção do governo indirecto”.

Como hoje sabemos, após a saída das tropas americanas, o Iraque degenerou num caos profundo, que acabou por alastrar à Síria. A actual crise dos refugiados começa com o fim da intervenção norte-americana. Pela altura da publicação original desta obra, a ascensão do autoproclamado Estado Islâmico ainda estava a uma década de acontecer e, no entanto, o aviso ficou deixado: “há forças muito mais perigosas do que grandes potências rivais que beneficiariam de uma grande desordem mundial”.

Imperium relutante, mas necessário

A conclusão a retirar desta obra é a de que os Impérios são necessários para o desenvolvimento mundial, e o autor usa a ocupação do Iraque como um exemplo da necessidade do “Imperium” americano. A comparação feita é com a ocupação do país por parte das forças britânicas nos anos 20, que ficaram durante três décadas no país – e, segundo Ferguson, ainda deveriam ter ficado mais.

O problema, segundo o autor, é que os americanos são imperialistas que acreditam no “anti-imperialismo”, e esse aspecto do seu carácter torna a sua actuação no cenário mundial um exercício de bi-polarismo. A ingenuidade e inocência intelectual americana é especialmente criticada por Ferguson, que nota que os americanos se convenceram de que “desaparecido Saddam, o Iraque se reconstruiria sozinho e de forma mágica quando chegasse a liberdade”. A argumentação para se invadir o Iraque é, aos olhos do autor, especialmente patética, baseada no que considera ser uma “mentira descarada”, e desnecessária, pois os EUA tinham o poder de invadir o território unilateralmente, sem necessidade de resoluções das Nações Unidas.

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Esta falta de convicção no seu papel é algo que Ferguson acredita que, a médio prazo, poderá derrubar os EUA, conduzindo a um mundo multipolar ou apolar, perspectiva que ele considera especialmente preocupante, notando que um mundo sem Impérios, sem hegemonias, “pode revelar-se não a utopia pacifista de John Lennon em ‘Imagine’, mas uma nova e caótica Idade das Trevas”. O autor relembra-nos a actuação decisiva da Royal Navy, na altura o braço armado do Império Britânico que controlava os mares, no combate ao tráfico de escravos e que acabou por definir o fim dessa actividade. Para o autor, a alternativa é uma situação como existiu na Europa medieval, ou na África pós-colonial, onde vários micro-reinos se digladiam, a segurança deixa de existir e os mercados deixam de funcionar. Para Ferguson, esta é a realidade que nos espera caso os EUA se retirem da cena internacional: “a perspectiva de um mundo apolar deveria incomodar-nos hoje muito mais do que incomodou os herdeiros de Carlos Magno”.

Criticando a visão pós-moderna de que a missão civilizadora das potências ocidentais era malévola, o autor considera que é sempre necessária a existência de um império que “crie e defenda as condições sem as quais os mercados não podem funcionar: paz e ordem, as regras do Estado de direito, um governo livre de corrupção e uma política financeira e monetária estável, que ao mesmo tempo assegure serviços públicos como infra-estruturas de transporte, hospitais e escolas que, de outro modo, não existiriam”.

O autor vai mais longe na sua crítica aos “anti-imperialistas” de índole marxista, notando que os mesmos não querem defender a “liberdade”, mas sim uma visão utópica da realidade que os factos e os dados não confirmam. Pelo contrário, a realidade mostra que o imperialismo pode ser a melhor forma de se defender a liberdade: “O melhor argumento a favor de um Império é sempre o da ordem. A liberdade é, naturalmente, um objectivo mais nobre. Mas só os que não conhecem a desordem é que não compreendem que a ordem é a condição prévia da liberdade”.

Fica o aviso à navegação de Washington D.C.: o perigo de não terem um papel mais forte no mundo é o caos, especialmente em termos de terrorismo. O autor considera que a presença económica e cultural dos EUA irá sempre atrair o terrorismo, e que “o que há de surpreendente no 11 de Setembro é não ter acontecido mais cedo”. O combate ao terrorismo só pode ser feito através de uma grande operação imperial, e Ferguson mostra-nos como os ataques terroristas até diminuíram de intensidade desde que a guerra ao terrorismo começou: “Tal como nos anos trinta era um mito acreditar que ‘o bombardeiro vai sempre passar’ (‘the bomber will always get through’, frase de um discurso de Stanley Baldwin e incorrectamente traduzido na versão portuguesa como ‘o bombista safa-se sempre’) é também um mito, hoje em dia, que o terrorista consiga sempre escapar-se”.

Por fim…

Esta é uma obra contracorrente, para todos aqueles que não se sentem felizes com a historiografia marxista oficial. É uma obra académica “pop”, escrita para ser facilmente compreendida, mas sem perder qualquer valor em termos de rigor científico. Ferguson apresenta-nos as suas conclusões, mas ao proporcionar-nos as fontes que usou, também nos convida a analisar a sua análise, e a discordar construtivamente dela. Não é uma obra de “amanhãs que cantam” onde são apresentadas verdades absolutas.

Tanto este livro como o seu “irmão” (“Império: Como a Grã-Bretanha Construiu o Mundo Moderno”) são interessantes para o público português, especialmente aquele que considera que Portugal continua a ser injustamente vilipendiado 41 anos após o fim da sua grande missão imperial. Já não somos um Império, mas deveríamos ter orgulho, e não vergonha, do nosso papel histórico, o mesmo orgulho que Ferguson considera que os britânicos, os franceses, os espanhóis e os holandeses devem ter dos seus próprios Impérios. Resta-nos esperar por uma obra de igual fôlego, escrita por um autor português, em que as glórias da nossa grande missão civilizadora sejam finalmente analisadas na sua verdadeira dimensão.

  • Sérgio Sodré

    Império sim…, desde que fosse o nosso. Para os outros, viva o nacionalismo libertador.