diaboPEDRO A. SANTOS

 

Quando Portugal mais precisava de ajuda, a Finlândia ridicularizou-nos e castigou-nos com ameaças de veto. Agora, tem de engolir o amargo do seu próprio remédio…

Portugal é uma nação quase milenar, a Finlândia é uma antiga colónia russa cuja independência não conta sequer um século. O nosso País enfrentou dezenas de crises, guerras e ameaças à sua existência, sendo a bancarrota de 2011 apenas mais uma delas. Mas os finlandeses acharam por bem tentar humilhar Portugal, demonstrando bem o seu sentido de “solidariedade europeia”. Simplesmente, quem ri por último ri melhor. Face ao eco de uma afronta finlandesa, Portugal decidiu ressurgir.

Parece tão perto – e tão longe, ao mesmo tempo. Em 2011, Portugal era um País com as contas completamente descontroladas e a economia de rastos. A Finlândia, pelo contrário, ficou rica a vender papel e madeira aos russos, e telefones Nokia ao resto do mundo. Quando Portugal precisou de um resgate devido às políticas despesistas do governo da altura, a “solidariedade europeia” dos finlandeses traduziu-se numa ameaça constante de veto e em insultos constantes ao nosso povo.

Fomos apelidados de preguiçosos, burros e gastadores do “dinheiro deles”. Até um jogo ‘online’ fizeram, intitulado “o rei de Portugal”, em que os portugueses irresponsáveis queimavam o dinheiro finlandês (alguém deveria ter explicado aos “iluminados” finlandeses que Portugal não é uma Monarquia desde 1910). Outros fizeram vídeos a gozar connosco no youtube.

Os Finlandeses foram para a Internet insultar Portugal
Os finlandeses usaram a Internet para insultar Portugal

A situação mediática ficou tão negra que até Marcelo Rebelo de Sousa, que tudo indica que será um candidato a Belém, viu a necessidade de fazer um pequeno filme a explicar aos finlandeses que Portugal não era tão mau como parecia. Uma boa iniciativa patriótica, mas o filme nunca passou nem na Alemanha, nem na Finlândia. Felizmente, os portugueses decidiram então falar pela força das suas acções.

Portugal ressurge, Finlândia afunda

“Finlândia, em tempos o orgulho da Eurozona, é um agora um fracasso” – escreveu o “The New York Times” na mesma edição em que elogiava o progresso que Portugal fez na sua economia e no seu turismo. Nesse artigo, o prestigiado jornal norte-americano afirmou “que desilusão!” quando se referiu ao país nórdico. E é mesmo uma desilusão para muitos sectores, especialmente os socialistas. Para a história fica a ideia fixa de José Sócrates de copiar tudo o que era finlandês. Mas a ideia de que esse país era infalível foi uma invenção de ‘marketing’, e bastou a imposição de sanções à Rússia para a economia finlandesa entrar numa espiral depressiva. A recessão na Finlândia já dura há três anos, e o desemprego dessa “terra socialista de milagres sociais” chegou aos 10%, apenas um ponto abaixo da taxa de desemprego portuguesa.

A economia portuguesa, entretanto, melhorou extraordinariamente, graças ao trabalho árduo dos nossos empreendedores, facto reconhecido até pela revista económica “Forbes”, que incentivou os Estados Unidos a investirem imediatamente no “Tigre Lusófono”. Muitos seguiram o conselho: o investimento norte-americano está a aumentar a olhos vistos, segundo novos dados do INE. As projecções para o crescimento do PIB são de 1,4% este ano. O PIB finlandês caiu 0,1 no primeiro semestre deste ano, e deverá ter uma queda total de 0,6% no total do ano. As previsões para 2016 não são animadoras.

Antes da crise, fomos acusados de não conseguirmos competir e de inventarmos desculpas para a nossa falta de competitividade. Agora competimos, e outros inventam desculpas. O antigo primeiro-ministro da Finlândia, Alexandre Stubb, culpa… a empresa de computadores Apple pela desgraça que está a afectar o seu país: “o iPhone matou a Nokia e o iPad matou a indústria do papel finlandês”. Mas quando a competição externa matou grande parte da indústria têxtil portuguesa, lançando milhares no desemprego, os países nórdicos pouca, ou nenhuma, solidariedade mostraram para connosco.

Resgate à vista?

“Não é tão mau como o caso da Grécia, mas é apenas uma questão de tempo” – é o prognóstico que o jornal “The Guardian” faz da situação finlandesa. A economia ruma ao terceiro ano de recessão, e as duras medidas de austeridade nada estão a conseguir fazer para diminuir o enorme deficit. Aliás, a Comissão Europeia já avisou que a Finlândia vai provavelmente ser multada por ter um deficit excessivo. Os juros da dívida soberana do país estão a subir e o ‘rating’ está em queda, tendo os finlandeses perdido o estatuto “AAA” de que ainda beneficiavam.

Mas há pouca solidariedade dos restantes povos face à austeridade de um país que foi um dos seus maiores campeões quando esta tinha de ser aplicada nos países do Sul europeu. Olli Rehn, o finlandês que foi Comissário para a Economia em Bruxelas durante os piores anos da nossa crise económica, foi por vezes acusado de ter lançado um “Rehn de terror” [sic] sobre os países mais fragilizados da Europa. Agora é a vez da Finlândia de cortar no seu generoso Estado Social. Mesmo assim, o actual governo recusa aumentar impostos, rejeitando a receita que nos impôs a nós, e o povo está nas ruas, a protestar contra a mesma austeridade que aplaudiram quando imposta aos portugueses.

Por agora, a Finlândia ainda não se encontra em necessidade de um resgate, mas a sua situação económica e financeira é muito parecida com a portuguesa antes de 2011, logo esse dia poderá chegar. Se o primeiro-ministro português vai ameaçar vetar esse resgate ainda é uma incógnita, mas se o fizesse certamente que os portugueses aplaudiriam.

Nunca se deve escarnecer de uma Nação tão velha que já viu, ao longo da sua história, nascerem e morrerem muitas das Finlândias deste mundo…