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C. A. CRISTÓVÃO

A nova situação, trazida pelos ataques terroristas em solo europeu, corresponde a uma nova configuração na geometria variável da crise permanente do Médio Oriente. Actualmente, todas as manchas conflituais que ocorrem naquela zona são secundárias dada a gravidade da situação na Síria. Ali se está a reproduzir, do modo mais dramático, o clássico antagonismo entre grandes impérios que ficou na história sob a designação de Guerra Fria. 

São incontáveis e de vária ordem as razões que concorrem para a situação que se vive na Síria e que agora se reflectem na Europa. Refiram-se sumariamente as principais.

O envolvimento dos EUA no Médio Oriente tem sobretudo a ver com o acesso às jazidas de petróleo, ao seu controle e ao transporte do crude. Depois da II Guerra Mundial, esse envolvimento ficou marcado por dois eventos determinantes: a fundação do Estado de Israel e a deterioração das relações com o Irão, a partir de 1979, devido à perda do aliado de Washington, o Xá Reza Pahlevi, deposto pela Revolução Iraniana dos ayatollah. O novo poder teocrático de Teerão considerou que os EUA tinham um desejo excessivo de hegemonia quanto ao petróleo e restringiu a acção americana no país, um dos principais produtores mundiais de crude. Seguiram-se uma série de episódios, alguns violentos, que se saldaram pelo corte de relações entre os dois países.

Actualmente, o poder de Bashar Al-Assad, na Síria, é apoiado pelo Irão, não só por razões estratégicas mas também, porque o alawismo xiita de Assad é homólogo do xiismo no poder em Teerão. Bastava esse facto para o regime sírio ter a antipatia norte americana. Além disso, o movimento anti-israelita Hezbolah, sediado na Síria e no Líbano, é também apoiado pelos iranianos, o que potencia a animosidade de Washington, aliado incondicional dos israelitas. Como se isto não bastasse, o grande aliado do Irão e da Síria de Assad é a Rússia, que tem em Tartus, na costa síria, uma base militar naval, a única de que dispõe no Mediterrâneo. Para os interesses israelo-americanos, esta coligação é estrategicamente muito hostil, por razões económicas e militares.

Apoiando os interesses de Israel e dos EUA está a generalidade da União Europeia, e três nações muçulmanas de tendência confessional sunita, que é adversa ao xiismo: a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar.

As razões económicas têm a ver com dois aspectos. O primeiro é a existência confirmada de grandes jazidas de gás natural ao largo da costa que vai desde a Faixa de Gaza ao norte da Síria e que em parte cairão na esfera dos interesses russos se Assad se mantiver no poder. A pretensa preocupação de instalar uma democracia em Damasco, que substitua o poder de Assad é um sofisma que mascara os interesses americanos, europeus e israelitas quanto ao gás natural.

Desde 1990 que a BP britânica tenta obter licenças de exploração, o que lhe tem sido negado por acção israelita. Além disso, existe um oleoduto que liga os poços de Tikrit, no Iraque, ao porto de Banias, na Síria, que ficou inoperacional durante a invasão americana do Iraque. A Strytansgas, empresa subsidiária da Gasprom russa tem um projecto de reparação ou mesmo de reconstrução dessa infra-estrutura, cuja activação tornaria directo o caminho do crude, desde o norte do Iraque ao Mediterrâneo, em lugar de sair pelo Golfo Pérsico e ter que contornar a grande Península Arábica.

Do ponto de vista militar, a existência de uma Síria aliada do Irão, além de apoiada e aproveitada pela Rússia, constitui uma preocupação para os interesses estratégicos norte-americanos em todo o Mediterrâneo e, particularmente, na zona oriental. Fica também sob ameaça a segurança de Israel. Por seu lado, a União Europeia vê, nessa situação, um foco instabilidade indesejável e perigosa no seu flanco sudeste. A avalanche de refugiados e imigrantes que invadem actualmente a Europa preludia a confirmação desse receio, agora potenciado pelos ataques terroristas em Paris. A somar a tudo isto há ainda o papel ambíguo da Turquia, principal cliente do petróleo do Estado Islâmico, e algumas complicações de ordem religiosa que determinam certos fenómenos, temas que se torna impossível abordar aqui, ainda que sinteticamente.

Ora, neste afã de apear o poder de Assad, substituindo-o por uma democracia manobrável que apoie os interesses económicos das democracias ocidentais, que corte com o Irão e até com a Rússia, que sossegue Israel nas suas vulnerabilidades defensivas e dê às populações uma “liberdade” demagógica que lhes é de todo inútil, a oposição síria tem sido armada pelos EUA. Criaram-se corpos de mercenários sunitas, recrutados entre restos do antigo exército iraquiano de Saddam, sempre prontos a combater o alawismo xiita de Assad.

Alguns, membros da Al-Qaeda e outros, fascinados com o ideal de um novo Califado, viriam a constituir o embrião do que é hoje o Estado Islâmico. Assad bem avisou os ocidentais, que o combatiam, acerca destes grupos, mistura de profissionais terroristas e fanáticos religiosos. Em vão. Assad devia cair porque Assad à frente da Síria era mau para o negócio e para os interesses americanos e europeus, na luta surda que travavam contra a Rússia, sobretudo depois da crise da Ucrânia e da ocupação da Crimeia. Tal como já havia acontecido no passado, nos pequenos países não-alinhados ou nas colónias europeias da África e da Ásia, a nova Guerra Fria está a dar os seus primeiros passos e trava-se agora nas pequenas nações, onde a disputa entre Moscovo e Washington-Bruxelas se torna quente e combatida, por procuração, por terceiros.

Porém, a amplitude e o poder que o grupo Estado Islâmico alcançou, em pouco tempo, financiado pelos poços petrolíferos que controla, veio alterar a situação. Os raides aéreos que contra ele foram lançados por uma coligação liderada pelos EUA, a par de outros operados pela Rússia, provocaram retaliações violentas. Um avião comercial russo foi abatido sobre o Sinai, provocando mais de duzentos mortos e os recentes ataques em França fizeram algumas centenas de vítimas, muitas delas mortais. Estes dois factos deflectiram a agressividade entre a coligação americana e os russos. Aparentemente, agora todos querem unir-se contra inimigo comum, o Estado Islâmico. Enquanto durar a resistência do “novo califado”, a Guerra Fria fica suspensa. Depois…

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