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Estamos em guerra. Apenas os mais distraídos ainda não o perceberam e os mais fanáticos “pacifistas” não o admitem. Chegou o momento de combater a ameaça ao Ocidente e a todas as suas conquistas civilizacionais, personificada no auto-proclamado Estado Islâmico. Mas terá a civilização ocidental força para derrotar o seu inimigo?

Os ataques em Paris foram supostamente a gota de água para as nações desenvolvidas do Ocidente. Derrotar o radicalismo islâmico seria agora uma prioridade, e são várias as vozes, até mesmo entre os candidatos presidenciais nos EUA, que clamam por uma grande coligação anti-Estado Islâmico e anti-terrorista. Mas a guerra que se nos apresenta é bem diferente das guerras de outros tempos: o Ocidente enfrenta um conflito não apenas no campo de batalha, mas também nas cidades e ruas da Europa. Paris foi só uma amostra.

A velha ideia cavalheiresca de que as populações civis não são um alvo directo numa guerra, ainda que lhe sofram as consequências, está hoje ultrapassada. O terrorismo mudou tudo: as populações do Ocidente passaram a ser um alvo, e o Estado Islâmico tem-nos a todos na mira.

O Estado Isla_mico e_ a maior ameac_a ao ocidente dos u_ltimos anos

No início deste ano, a conceituada editora Routledge publicou um estudo intitulado “Crises complexas exigem capacidades adaptáveis e duráveis”. Aí se demonstrava com clareza que o Ocidente tem de redescobrir o conceito de “guerra híbrida”, que a Rússia usou com tanto sucesso na Crimeia e foi adoptado pelo ISIS, agora mais conhecido como Estado Islâmico. Para se fazer a guerra é necessário compreender-lhe a natureza.

Caso contrário, corre-se o risco de enviar soldados a marchar lentamente contra metralhadoras, como em 1914, ou a fazer corajosas (mas inúteis) cargas de cavalaria contra carros de combate, como em 1939. “Enquanto que capacidades militares tradicionais como mobilidade, poder de fogo e protecção continuam relevantes”, sublinha o estudo, a “aplicação de força deve ser eficiente no campo de batalha da percepção”, nomeadamente “com inimigos que podem operar entre as populações e fora do campo de batalha, no reino da subversão”.

Resposta frouxa

Muitos dos terroristas das fileiras do Estado Islâmico foram recrutados na própria Europa, em muitos casos com o beneplácito da inocência europeia. Num artigo de análise, intitulado “Bélgica, o Estado falhado”, lançado na versão europeia do jornal “Político”, os autores analisam como a fraqueza das políticas europeias permitiu a expansão do jihadismo sem qualquer controlo. O município belga de Molenbeek, governado durante décadas pelos socialistas, é descrito como um caso onde foi permitido ao radicalismo islâmico desenvolver-se. Em particular, ficam críticas ao “politicamente correcto” e à falta de instituições europeias de policiamento.

Os ocidentais decidiram que uma campanha aérea seria suficiente para derrotar o auto-proclamado Estado Islâmico, mas não têm “olhos” no solo, estando dependentes de fontes de informação locais, que se têm provado de fiabilidade duvidosa. Não faltam os casos de terroristas que dão alvos falsos aos ocidentais para eles bombardearem locais como hospitais civis, ou escolas, de forma a incentivar a raiva popular. Noutros casos, as bombas caem em lugares inócuos.

Certo é que, sem informações fiáveis, os pontos nevrálgicos militares dos terroristas não têm sido atacados por estarem no centro de cidades como Raqqa, considerada a “capital” do Estado Islâmico, mas que também é a casa de um milhão de pessoas. Tanto os russos, que tiveram de combater a insurgência na Tchechénia, como os israelitas apontam um erro crasso aos ocidentais: a guerra não pode ser vencida sem tropas no terreno, e não pode ser vencida sem baixas civis. É lamentável, mas ainda mais lamentável é a ideia do “politicamente correcto” de que uma guerra pode ser ganha sem mortos, ou sem recursos. Este é o problema do momento.

Europa desmilitarizada

Se o almirante Nelson voltasse à terra, certamente choraria ao ver o estado da Royal Navy da Grã-Bretanha. Em tempos a marinha mais poderosa do mundo, hoje não tem um único porta-aviões operacional, justamente o tipo de navio mais crucial para operações de combate ao terrorismo. Após anos de demoras causadas pelos socialistas, só com a chegada dos conservadores ao poder é que o Reino Unido decidiu, finalmente, lançar os seus dois novos porta-aviões, que não estarão, no entanto, prontos a tempo de entrarem em combate nesta primeira fase da guerra contra o Estado Islâmico.

A França está reduzida a um único porta-aviões e a Itália a dois pequenos navios deste tipo, com capacidade para algo como 20 aviões (os porta-aviões dos EUA carregam 90). Para toda a sua conversa de solidariedade, e aliança contra o inimigo, os países europeus não têm verdadeiramente recursos militares significativos, tendo estado dependente dos Estados Unidos há décadas. Desde 2001 que a despesa europeia em defesa está em queda, tendo-se gasto apenas 223 mil milhões de Euros em 2008, enquanto que se gastava 253 mil milhões em 2001. Em comparação, os EUA sozinhos investem quase o triplo deste valor.

Por sua vez, o Estado Islâmico está bem financiado. Controla vinte campos petrolíferos e três refinarias, o que, segundo estimativas ocidentais, lhes dará um lucro regular entre 500 e mil milhões de euros. Estima-se que a “receita fiscal” dos impostos cobrados aos desgraçados debaixo do seu controlo aumente a receita pública dos terroristas em mais 500 milhões de euros. Quando contabilizadas todas as restantes áreas financeiras, mais o financiamento que recebem de “fontes anónimas”, o Estado Islâmico terá algo como dois mil a três mil milhões de euros para gastar imediatamente em guerra. Neste momento, o orçamento militar do Estado Islâmico, um proto-Estado terrorista, é superior ao de Portugal.

As forças armadas europeias já se resignaram a conseguir muito com o pouco que os políticos lhes dão. Quando os franceses fizeram a sua intervenção no Mali, poucos recursos tinham para manter a ofensiva face a condições tenebrosas. A cola das botas dos soldados chegou a soltar-se, tal era o calor. O transporte de e para o Mali teve de ser assegurado pelos EUA, mais uma prova do quão dependentes os países europeus estão do outro lado do Atlântico. No fim, os franceses triunfaram graças a uma organização muito superior, mas apenas modestamente. Ocupar o território é uma impossibilidade devido à falta de recursos e, após a partida dos soldados, a desordem rapidamente regressou ao Mali como, aliás, é revelado pelo recente atentado no hotel Radisson Blu, na capital maliana, que provocou a morte de 27 pessoas e foi reivindicado pelo grupo Al-Murabitun, o ramo da Al-Qaeda na África Ocidental.

Mas o problema não é apenas financeiro: também reside na corrupção política do Ocidente. Comprando a mesma tecnologia, ou até superior, os sul-coreanos e os japoneses construíram forças armadas bastante mais capazes com um orçamento mais pequeno do que os das Nações europeias.

Entretanto, a falta de efectivos nas forças armadas europeias é tal que os franceses pensam seriamente em re-introduzir o serviço militar obrigatório. Contudo, uma tal medida apenas teria efeito ao final de vários anos. Mesmo assim, a França é o país da Europa com um exército mais numeroso, totalizando 200 mil soldados e mais de 80 mil “gendarmes”, enquanto a Alemanha, com uma população consideravelmente maior, tem um efectivo de apenas 180 mil soldados, o Reino Unido apenas 160 mil, e nenhum destes dois países conta com uma força paramilitar.

Novamente um erro europeu: os especialistas consideram que forças paramilitares, ou seja, forças com treino policial e militar, são especialmente indicadas para o tipo de guerra que estamos a travar. Entre os melhores exemplos mundiais encontra-se a Guarda Nacional Republicana, que conseguiu pacificar Timor com uma fracção dos recursos e elementos que estavam ao dispor do numeroso corpo militar australiano.

Marxismo e derrotismo

Mesmo com a memória do massacre de Paris ainda fresca, vários grupos radicais esquerdistas do Ocidente continuam indiferentes à situação que vivemos. Em Portugal, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, dois elementos centrais de apoio à hipotética “frente popular” proposta para nos governar, já se assumiram como contrários a qualquer intervenção, mesmo que para isso Portugal não cumpra os seus compromissos com os aliados.

Considerando qualquer ofensiva contra um inimigo que nos declarou guerra como “violência”, os radicais de esquerda insistem em que o caminho para derrotar o Estado Islâmico é a “solidariedade”. No Reino Unido, o líder da oposição, o socialista radical Jeremy Corbyn, também é indiferente às centenas de mortos nas ruas da Europa, e continua numa linha anti-bélica. Uma linha seguida por muitos dos movimentos marxistas europeus, descendentes de movimentos que fizeram greves nas fábricas de armamento francesas mesmo quando o país estava à beira da derrota. Esta divisão interna ameaça qualquer esforço concertado para derrotar o terrorismo.

Os próximos anos serão críticos para travar a ofensiva dos nossos inimigos, tanto na Europa como no Médio Oriente. Se fracassarmos por falta de recursos e de unidade, as consequências serão severas.

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