O luso-descendente Ernest Moniz, ministro da Energia, John Kerry e os iranianos Zarif e Salehi, na Suiça

DUARTE BRAQUINHO 

Os chefes da diplomacia norte-americana e iraniana estão em acesas negociações para alcançar um acordo histórico sobre o programa nuclear de Teerão. As divergências entre John Kerry e Mohammad Javad Zarif, que voltam a reunir-se esta semana em Viena, mantêm-se quando ainda estão a um mês da data limite para chegar a um acordo. O DIABO falou com Armando Marques Guedes, professor na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e no Instituto de Estudos Superiores Militares, especialista em Geopolítica e assuntos internacionais, que analisou a situação.

Apesar de as negociações diplomáticas entre os EUA e o Irão serem tensas, ambos os países continuam a afirmar a intenção de chegar a um “acordo histórico” sobre o programa nuclear iraniano. Mas será realmente possível?

Armando Marques Guedes recorda que “até 30 deste mês de Junho, os EUA e os seus parceiros de negociação ficaram de concluir um acordo nuclear com as autoridades iranianas”. No entanto, afirma que, “do que até agora sabemos, o andar das coisas não promete. E, ao invés do que tem sido argumentado, é pura irresponsabilidade defender, como desde sempre se tem ouvido neste processo, que ‘um acordo mau é melhor de nenhum acordo’”. Isto porque, segundo o Professor, “em primeiro lugar, é dúbio que o acordo almejado seja aceitável para os objectivos que diz serem os seus – tanto do sauditas, como Israel, como uma larga maioria dos membros da Liga Árabe (digam o que disserem, e têm sido claros) e a Turquia – têm dúvidas quanto às suas implicações: porventura uma proliferação regional em massa, rápida e instável, por isso de alto risco.

Em segundo lugar, por motivos mais ‘internos’”. Sobre estes motivos internos, Armando Marques Guedes, diz que “no Irão, houve nesta última semana de Maio um ataque conservador, no Parlamento, contra Mohammed Javad Zarif, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, contra as ‘concessões’ de Teerão, por um deputado que em nome da sua ‘ala’ o acusou de ‘traição’; juntou-se-lhe o Supremo Ayatollah Ali Khamenei, que liminarmente recusou as inspecções as instalações militares previstas num acordo em negociação que já de si é fraco”.

Há, no entanto, outros actores internacionais que se movimentam. Marques Guedes recorda o que se passou recentemente: “Em confrontação marcada com a Administração norte-americana, na quarta-feira 27 de Maio, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Laurent Fabius, disse não aceitar a postura do Irão, insistindo que ‘um acordo sim, mas não um que permita a Teerão produzir armas atómicas’; como que em eco, o Embaixador de Paris em Washington, em declarações públicas feitas no Atlantic Council, afirmou considerar improvável que as negociações tenham sucesso ‘até ao fim de Junho ou mesmo depois de Junho’. Na retaguarda do grupo de contacto, as notícias convergem para o mal-estar: Moscovo, parte do agrupamento que negocia com Teerão, apressou-se a anunciar entrega ao regime dos ‘ayatollahs’ mísseis terra-ar SS300, num desafio directo a Washington.”

É a prova de um falhanço da actual política externa de Washington? Para Armando Marques Guedes: “Nada parece estar a correr de feição no política externa errática e indecisa de um Presidente Obama que, segundo o Congresso e a opinião pública do seu próprio país, tem vindo a demonstrar muito mais preocupação com o deixar um ‘legado de paz’, e a assumir posições ‘anti-Bush’ do que com os interesses nacionais do seu país – da Síria, à Ásia Central, e à Federação Russa”. Relativamente ao Irão, o professor recorda que “é um Estado que se tem embrenhado demais numa expansão regional de uma ‘zona de influência’ sua, e numa projecção global de uma imagem de força e prestígio, para agora poder (ou querer) recuar.

Tudo isto pode ser apenas um ‘end-game’ com posturas negociais polarizadas. Mas, mesmo se assim for, o certo é que equação resultante não augura uma solução aceitável para ‘partes’ que se revelam como cada vez menos unidas. Cada vez mais são os que, lamentando-o, consideram inevitável que, a curto e médio prazo, o Irão venha a ter as armas nucleares que quer. As consequências serão desastrosas – e serão possivelmente piores a nível global do que a nível regional, onde que num ápice os sauditas e os turcos terão os meios que Israel já tem de há muito para se imunizar relativamente a esta velha/nova ameaça que se perfila no horizonte. O caso russo-ucraniano demonstrou a todos os que estiveram atentos que desistir de armas nucleares nos desprotege os flancos; a História já se tinha encarregado de mostrar que tê-las funciona como protecção. Essas lições aprendem-se…”

Concluindo, Armando Marques Guedes considera que “a capacidade de um Estado em esculpir, ao seu redor, ‘zonas de influência’ desde há um bom par de anos que tem vindo a tornar-se evidente com as actuações russas, amplamente impunes, na sua periferia, a que apelida o seu ‘estrangeiro próximo’, e nas de uma China apostada em fazer o mesmo no Mar da China do Sul e, mais abaixo, no de Sulu. O Irão não deixará de tentar o mesmo. Outros se lhes seguirão”.

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