O outrora adormecido urso russo volta a rugir, mas desta vez com tácticas novas. As velhas capitais do Leste europeu tremem novamente perante a ameaça de Putin, que vai conseguindo conquistar os seus objectivos perante uma América com medo de intervir e uma Europa anémica.

“O fim da História” foi uma declaração precipitada, e quem o afirma é o homem que a fez, Francis Fukuyama. Ainda algo extasiados pelo súbito, embora algo anunciado, colapso do império soviético, os académicos liberais do Ocidente consideraram que o mundo se iria reger, a partir de 1991, pelo racionalismo do Direito Internacional, orientado pelas Nações Unidas, com os EUA a fornecer a força financeira e militar da “nova ordem mundial”. Do velho império soviético sobrou uma Rússia humilhada e destituída do seu estatuto enquanto superpotência, e umas dezenas de outras repúblicas que finalmente haviam logrado fugir à tirania de Moscovo. Durante os anos 90, certamente, parecia que a recém-criada Federação Russa era apenas um vulto de outros tempos: o seu presidente, Boris Yeltsin, um favorito do Ocidente, praticamente bebia mais álcool do que água, e os seus “episódios” de bebedeira entraram na história mítica da diplomacia internacional.

Os russos sofreram mais uma humilhação quando decidiram intervir militarmente contra a Chechénia, que procurava a independência. Desse conflito ficou presente a imagem de centenas de tanques facilmente destruídos pelos guerrilheiros, uma “greve” dos pilotos da força aérea, que não estavam a ser pagos, e ainda a total indisciplina dos soldados daquilo que outrora tinha sido o temível “Exército Vermelho”. A economia foi privatizada, mas caiu logo nas mãos das máfias e dos oligarcas e a qualidade de vida conseguiu tornar-se ainda pior do que durante a vigência do regime comunista. Para consertar os males da “mãe Rússia”, eis que os russos decidem entregar as chaves do poder a Vladimir Putin. Uma nova era estava a começar.

Vladimir, o Grande

Vladimir_Putin_12020O Ocidente achou estranho quando Putin ordenou que o velho hino da URSS se tornasse o hino da Rússia Federal. Curiosamente, a sua sonoridade bélica, tal como a Cavalgada das Valquírias, de Wagner, adapta-se bem aos objectivos da “nova Rússia” do novo presidente. Antigo agente do temido KGB, Putin compreendeu, melhor do que os líderes do mundo ocidental que, durante os anos 90 se tornaram plácidos, tecnocráticos e insonsos, que a realidade da guerra e do mundo ia mudar.

Enquanto os líderes ocidentais, especialmente aqueles que se decidiram reunir em volta da Torre de Babel de Bruxelas, falavam na abolição da Nação-Estado, Putin compreendia a importância do nacionalismo para os seus objectivos. Tendo posto os oligarcas na linha, Putin colocou o dinheiro do petróleo da Rússia ao serviço das forças armadas, que modernizou. No entanto, sabia que os seus exércitos já não podiam desafiar directamente a NATO, que no início do século XXI dispunha de 70% das despesas militares mundiais. Decidiu seguir por outra via, outra forma de fazer guerra.

Guerra de quarta geração

“Os generais estão sempre prontos para lutar na guerra de ontem”. Não se sabe quem disse primeiro esta frase, mas apareceu pouco depois da humilhação da França às mãos da Alemanha. Os franceses prepararam-se para um conflito muito semelhante à I Grande Guerra, e fizeram planos para batalhas metódicas, centralmente planeadas, com muitas fortalezas e trincheiras à mistura. Ignoraram por completo o desenvolvimento do poder aéreo e dos carros de combate e pagaram caro por isso. Já na confrontação de 1914-1918 todos os lados viveram um banho de sangue porque os generais insistiram em combater em formações fechadas, do tempo dos mosquetes, sem terem em conta o desenvolvimento da metralhadora.

Hoje, os generais continuam a fazer planos para batalhas renhidas no Leste da Europa, ao estilo da II Guerra Mundial. Parece que as lições da segunda invasão do Iraque ainda não foram totalmente absorvidas: os americanos ganharam velozmente a fase convencional da guerra, apenas para saírem derrotados anos mais tarde pelas guerrilhas, e pela ascensão do Estado Islâmico.

De resto, o Estado Islâmico usa muitas das mesmas tácticas de Putin: a chamada guerra de quarta geração. Esta nova forma de conflito mistura guerra convencional, tácticas subversivas, propaganda e guerra informática de forma a impedir a reacção do inimigo ao mesmo tempo que ele é esmagado no campo de batalha.

Prenúncio de anexação

Cleared for release by Joint Staff Public AffairsVeja-se o caso na Ucrânia, antigo Estado-satélite de Moscovo durante o mandato do presidente Yanukovych. Assim que a liderança pró-russa foi derrubada, Putin procurou fazer alianças com grupos separatistas locais, os quais armou até aos dentes com equipamento topo de gama. Forças especiais russas, disfarçadas de separatistas, complementaram as unidades das milícias com poder de fogo e de movimento que, em várias ocasiões, colocou brigadas do exército convencional ucraniano em fuga. Entretanto, atrás das linhas inimigas, os espiões e agitadores pró-russos tornaram a maquinaria de Estado da Ucrânia inoperante. Quando Putin quis anexar a Crimeia, quase não teve oposição.

Esta não deveria ter sido uma surpresa para o Ocidente. Já anteriormente, no caso do conflito no Cáucaso, Putin usou as mesmas tácticas para anexar partes da Geórgia. Tal como no caso dos Estados separatistas ucranianos, Putin incentivou a formação dos Estado-satélite da Abkahazia e da Ossétia do Sul, que depois armou até aos dentes.

Quando os georgianos tentaram recuperar o controlo do seu território (estas autoproclamadas repúblicas representam 20% de todo o território georgiano), os russos simplesmente alegaram que estavam a defender dois Estados aliados, e destroçaram o exército da Geórgia. No mês passado, ambos os territórios assinaram tratados de aliança, comércio livre e estandardização legislativa que, segundo a maioria dos especialistas, é o prenúncio de uma anexação completa dos territórios. É quase certo que este também será o destino dos territórios separatistas ucranianos.

O perigo vem do Leste

Para muitos países europeus, mesmo aqueles que pertencem à NATO e à União Europeia, o regresso do Império Russo é visto com um misto de terror e desafio. Os países bálticos da Letónia, Estónia e Lituânia estiveram centenas de anos debaixo da opressão imperial, conseguiram libertar-se apenas para serem anexados pela tirania soviética. Durante a sua longa opressão houve uma tentativa activa de destruir estas pequenas nações num processo conhecido como “russificação”: milhares de imigrantes russos estabeleceram-se no território, chegando a compor quase metade da população, e a cultura local foi fortemente reprimida.

Não espanta, portanto, que as recém-independentes nações bálticas temam o poder russo, especialmente porque são um possível alvo para Putin: são uma desejável porta para o Mar do Norte, são territórios historicamente russos (e Putin já admitiu que não reconhece totalmente a independência dos novos Estados) e ainda ali subsiste uma considerável minoria russa, ‘casus belli’ clássico das “intervenções” de Putin, bem como uma importante “quinta coluna” nas suas tácticas de guerra.

Sentindo-se ameaçados, estes países formalizaram um pedido para que haja uma presença maior de tropas da NATO, especialmente forças especiais, nos seus territórios. Os generais destes países não estão a dormir, e uma das medidas que está a ser adoptada é a compra, em grandes quantidades, de lançadores de mísseis anti-tanque, para destroçar as colunas blindadas russas, na esperança de se ganhar tempo para um contra-ataque ocidental.

Contra-insurgência

100920-A-3239S-014Do outro lado do Mar Báltico, os finlandeses preparam-se para a eventualidade de uma guerra total, tendo no mês passado enviado a todos os reservistas uma carta com indicações sobre onde se devem dirigir em caso de estalar um conflito, ou, como o governo local lhe chamou, uma “situação de crise”. O exército finlandês de 16 mil soldados é demasiado pequeno para aguentar uma ofensiva russa, mas, como se afirma nos anúncios televisivos a anunciar a pré-mobilização, “o recrutamento obrigatório é a peça fundamental para se defender a Nação”.

Da última vez que uma carta desta natureza foi enviada, o país entrou em guerra com a URSS apenas uma semana depois. A relação dos finlandeses com os russos é complicada, uma vez que o país já fez parte do antigo império, tendo sido sujeito à mesma repressão cultural que outras nações e apenas tendo conseguido a independência em 1918. Durante o século XX combateu em duas guerras contra os seus velhos opressores, nas quais, apesar de uma corajosa defesa, acabou por perder um quarto do seu território e da sua capacidade industrial.

Até que ponto o Kremlin ainda vê este país como parte da Rússia é desconhecido, mas as manobras agressivas têm sido constantes nos últimos meses. Desde incursões aéreas e submarinas a provocações na fronteira, os finlandeses temem pela independência, que ainda não celebrou o seu primeiro centenário.

Já os polacos estão a investir fortemente em contra-insurgência e nos serviços de informação. O país foi invadido duas vezes pela URSS ao longo da sua história, primeiro nos anos 20 e depois em 1939, e antes disso a nação polaca esteve subjugada durante séculos pelo poder de Moscovo. Independentes há pouco mais de duas décadas, os polacos estão determinados a manter a sua soberania, e são dos povos da UE, tirando o Reino Unido, que mais estão a fazer para garantir uma força militar adequada para enfrentar os desafios do século XXI.

Resposta ocidental

navio dos EUAVladimir Putin pouco ou nada liga aos protestos dos ocidentais, provavelmente com razão. A resposta às sucessivas manobras agressivas da Rússia tem sido apenas discursos vazios e sanções burocráticas e fracas. Entretanto, o que os aliados do Ocidente pedem é tropas e equipamento, não garantias vagas.

No caso da Ucrânia, enquanto centenas de toneladas de material de guerra russo atravessam a fronteira todos os dias para armar os separatistas, os EUA e a UE oferecem “empréstimos” ao seu aliado, e o FMI ainda se digna afirmar que o país tem de pôr as contas em ordem. Quando um avião cheio de civis holandeses foi abatido por separatistas, do Ocidente apenas surgiram algumas queixas. No terreno, os soldados ucranianos estão a lutar com equipamento obsoleto contra forças especiais russas.

A NATO, criada durante a Guerra Fria, cada vez mais se apoia somente nos EUA, visto que o único outro membro que gasta mais de 2% do seu PIB em defesa é o Reino Unido. Mas existe um ponto positivo: alguns generais, finalmente, compreenderam que a guerra mudou, e a NATO decidiu finalmente criar uma força de reacção rápida de seis mil homens, com capacidade para apoiar os exércitos locais e para preparar a logística de apoio à chegada de milhares de soldados, tanques e aviões. Mesmo assim, ainda é apenas um pequeno gesto: os separatistas russos continuam fortemente entrincheirados nos Estados rebeldes, a Crimeia continua nas mãos de Putin, cujo poder continua incontestado.

O urso russo acordou, e não se sabe quando vai ficar saciado.

SIMILAR ARTICLES