HUGO NAVARRO

A vitória do “sim” ao “casamento gay” na catolicíssima Irlanda deixou a Igreja sem palavras. O excesso de confiança foi fatal para os defensores da Família tradicional.

Uma confiança cega no catolicismo dos irlandeses, uma imprensa grandemente dominada pela esquerda e um governo em campanha aberta pelo “sim” foram, tudo indica, os grandes responsáveis pela aprovação, em referendo, do “casamento gay” na Ilha Esmeralda, sábado passado.

Segura de que o proverbial tradicionalismo dos católicos irlandeses acabaria por garantir a vitória do “não”, a hierarquia da Igreja limitou-se a uma campanha em que invocou os argumentos óbvios e conhecidos, na linguagem óbvia e conhecida do costume. O resultado (mais de 60% dos eleitores a favor do “sim”) é uma lição que está agora a ser estudada em silêncio – um silêncio humilde e contrito, como convém à reflexão profunda, mas que não deixa de ser ensurdecedor.

O “casamento gay” é a terceira derrota do catolicismo irlandês em dez anos, depois da legalização do divórcio (em 1995) e da “relação civil entre pessoas do mesmo sexo”, uma espécie de “união de facto” (em 2005). A agenda da esquerda irlandesa só não conseguiu ainda fazer aprovar a legalização do aborto, que só pode ser legalmente praticado se a mãe estiver em perigo de vida.

“Nova linguagem”

A generalidade dos analistas conservadores responsabiliza o “tom monocórdico” da hierarquia católica pela vitória do “sim”. “Não houve o menor esforço para ir ao encontro da linguagem dos tempos actuais”, escreveu o reputado articulista Sean Gobblin, “nem sequer para sublinhar que o que está errado é a apropriação do sacramento do matrimónio para fins de contrato civil”. E acrescentou: “A hierarquia não conseguiu transmitir a sua preocupação quanto à dessacralização do casamento, e a ideia que passou foi que o que estava em causa era a liberdade de orientação sexual, quando a homossexualidade está despenalizada há mais de vinte anos. Foi uma confusão fatal para a Irlanda”.

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