Francisco Henriques da Silva

Embaixador

Muito embora nos confrontemos com um fenómeno global, referimo-nos, geralmente, ao Jihadismo radical tendo como epicentro a região do Médio Oriente e Magrebe ou, se se quiser, o chamado Grande Médio Oriente (em inglês, “Greater Middle East”, que abrange as regiões referenciadas e se estende até à Índia e aos confins da Ásia Central, numa definição que fez caminho no segundo mandato de George W. Bush e que ainda é utilizada), com incursões esporádicas noutros pontos do mundo, designadamente na Europa e partes da Ásia.

Para o Daesh – o auto-denominado “Estado Islâmico” – vai-se muito mais longe, na medida em que se pretende expandi-lo não só nessa vastíssima região, como os seus apoiantes reivindicam, ainda, a incorporação de vastas regiões na Europa (Península Ibérica – o chamado “Al Andalus” –, os Balcãs, uma parte considerável da Europa Central, até Viena de Áustria, o Cáucaso), em África (toda a região do Sahel e Golfo da Guiné, prolongando-se até ao Oceano Índico) e na Ásia (não só os territórios já mencionados, mas com a inclusão das regiões ocidentais da China). Em suma, contemplam-se todas as regiões de religião islâmica ou onde os muçulmanos alguma vez estiveram.

A bem dizer, muito embora os objectivos publicamente enunciados, em termos de expansão territorial, sejam os referidos, o Daesh visa, a longo prazo, entenda-se, o domínio total do planeta.

Se o auto-designado “califado” não tem territorialmente fronteiras definidas, num vasto espaço entre o Iraque e Síria, que terá atingido quase a superfície da Grã-Bretanha, hoje, porém, encontra-se reduzido a cerca de 40% da área inicial (ou mesmo menos), devido às pressões das diferentes coligações militares, presentes no terreno. Sem embargo, não é menos certo que o objectivo final continua a ser, como se disse, o globo terrestre, o que se poderá definir como a “fronteira mítica” do Islão.

A cisão EI/Al Qaeda

Por razões de ordem estratégica e de orientação político-religiosa, a cisão entre o EI e a Al Qaeda encetou-se em 2013 e consumou-se em Junho de 2014, proclamando-se “oficialmente” o califado em 29 do mesmo mês com Abu Bakr Al-Baghdadi. Estamos, assim, perante duas organizações radicais islâmicas que prosseguem rumos diferentes, mas com o mesmo objectivo último comum: a expansão do islão radical.

Por conseguinte, este, nos seus diferentes avatares (Daesh, Al Qaeda, Taliban, entre outros) irrompe um pouco por toda a parte e assume diferentes formulações. Por um lado, muitos territórios, de uma forma ou de outra, ao jurarem “bay’ah” (fidelidade) ao EI, acabam por considerar-se, formalmente, como suas “wilayats” (províncias), a saber: Líbia (3 províncias), Argélia, Egipto (Sinai), Iémen, Arábia Saudita, Khorosan (fronteira Afeganistão-Paquistão), Nordeste da Nigéria e Norte do Cáucaso. Por outro, grupos afiliados à Al Qaeda ou que são “franchises” desta, como, por exemplo, o AQMI (Al Qaeda no Magrebe Islâmico), que visa igualmente a instauração de um estado islâmico, todavia em moldes diferentes dos do Daesh, e que actua na Argélia e no Mali, possuindo conexões ao Al-Shabaab na Somália; a Frente Al-Nusra na Síria ou a AQPA (Al-Qaeda na Península Arábica, que actua principalmente no Iémen) e vários outros grupos que obedecem a distintas orientações e lealdades.

Detectam-se conexões destas formações às diferentes comunidades sunitas e, mesmo, aos Estados das sub-regiões onde se encontram, designadamente na África Ocidental e Oriental e na Ásia. Pode-se dizer que o islão radical não se confina a determinados espaços geográficos predominantemente muçulmanos, mas atrai as populações islamizadas – e não só – do Médio Oriente, Magrebe, África sub-saariana, Ásia e Europa.

Daesh – um verdadeiro Estado Islâmico?

É um erro grave e perigoso dizerem, como afirmou peremptoriamente Barack Obama, que o Estado Islâmico (Daesh) não é um Estado, quando possui todos os atributos do mesmo: território (entre 40 a 60.000 km2), população (cerca de 7 a 8 milhões), forças armadas, uma autoridade central (o califado) que governa efectivamente território e população, dispõe de meios financeiros exclusivos e, inclusive, cunha moeda própria. Mais. Defende uma ideologia revolucionária, assente numa ética “sui generis”, através dos meios tecnologicamente mais avançados. Ora, são precisamente estes factores que o diferenciam dos demais Estados, reconhecidos “de jure” pela Comunidade Internacional e com assento nas Nações Unidas, “benefícios” que, como se sabe, o Daesh não só dispensa, como rejeita.

Por outro lado, asseverar que o Estado Islâmico não é islâmico – e Obama fê-lo – constitui um duplo disparate: por um lado, o Daesh assenta numa interpretação literal e coerente do Corão e dos “hadiths”, por conseguinte mais islâmico não poderá sê-lo. Por outro, não caberá certamente a Obama, um “kaffir” (infiel), ou a quem quer que seja, não-muçulmano, debater teologia islâmica, pois ninguém lhe reconhecerá tal autoridade, nem a menor credibilidade. Para concluir, o EI pode não corresponder ao islão pacífico e moderado, que queremos ver implantado, numa relação harmoniosa com os demais credos, mas não deixa de ser profundamente islâmico.

Em nosso entender, não se resolve o problema do Daesh e da guerra civil síria atacando apenas o núcleo central do cancro – aliás, tal tarefa cabe, antes do mais, às forças endógenas e não a potências exógenas que, via de regra, não querem colocar tropas no terreno e se o fizerem arriscam-se a serem derrotadas e a gerarem anti-corpos perenes – mas as metástases já estão por toda a parte e a doença aparenta ser imparável.

Todavia, nesta fase do processo já se podem extrair algumas conclusões:

– A pressão militar sobre o Daesh na Síria/Iraque parece estar a levar um elevado número de combatentes para a Líbia (Sirte);

– Por outro lado, o afluxo de combatentes estrangeiros está a diminuir e as dificuldades financeiras a aumentar;

– Acresce que prossegue o retrocesso do EI, pela pressão militar das forças anti-Daesh. Todavia, a reconquista total do território do “califado” – estamos a pensar em Mossul ou em Raqqa – não está no horizonte a médio prazo, até porque os combatentes misturam-se com a população local (daí o risco dos chamados “danos colaterais”, em que ninguém quer incorrer). As próprias autoridades iraquianas pensam que a ofensiva contra Mossul só poderá ter lugar em 2017.

Sem prejuízo da visão apocalíptica do EI e da exaltação do martírio – e antes, mesmo, de Dabiq, i.e., da batalha do fim dos tempos, o Armagedão na visão própria dos radicais islâmicos – o Daesh pode fisicamente sobreviver noutros cenários; e o africano é um deles.

Inflexão estratégica?

Diferentemente da Al-Qaeda, até à primeira quinzena de Novembro de 2015, o Daesh tinha-se concentrado em consolidar o domínio absoluto do espaço que controlava e a não agir fora dele. Todavia,

– a 31 de Outubro abate um avião russo com 224 pessoas a bordo (acção do “Wilayat” Sinai – filial egípcia do EI);

– a 12 de Novembro tem lugar um duplo atentado suicida em Beirute (41 mortos e mais de 200 feridos), reivindicado pelo Daesh, um dos maiores de que há memória, visando especificamente o Hezbollah e os seus apoiantes.

– a 13 de Novembro o EI reivindica a autoria dos atentados de Paris perpetrados em cafés, num estádio de futebol e numa sala de espectáculos. Balanço: 127 mortos e mais de 180 feridos.

Por conseguinte, a pergunta impõe-se: será que a estratégia mudou? Será que a primeira quinzena de Novembro marca um ponto de viragem? Aparentemente, sim: à semelhança da Al-Qaeda, o EI passou a actuar “extra-muros” e não a confinar-se exclusivamente ao território sob seu controlo directo. Não obstante, o “New York Times” de 16 de Março de 2016 alega que esta mudança vinha a ser meticulosamente preparada desde há muito e que os serviços secretos franceses não a desconheciam. Com efeito, existe um relatório sobre o assunto, na posse do Ministro do Interior gaulês, com 55 páginas.

O que é que foi feito em termos de prevenção? Alguém sabe?

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