Luanda, a cidade dos contrastes

Luanda, a cidade dos contrastes

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A capital de Angola é uma das mais caras do mundo. Para os visitantes ou trabalhadores estrangeiros que lá têm de permanecer, é mesmo a mais cara em todo o planeta – um título de glória duvidosa que contrasta com a extrema miséria em que vive a generalidade da população e que põe os arranha-céus dos “senhores” em escandaloso confronto com os musseques da periferia.

No ano passado, repórteres da estação norte-americana CNN de visita a Luanda ficaram chocados com o fosso que persiste entre os (poucos) muito ricos e os (muitos) muito pobres. A cidade onde os “executivos” passeiam os seus fatos Hugo Boss em Porsches faiscantes é a mesma que tem de importar quase tudo o que consome. Sem infra-estruturas produtivas sólidas, Luanda vive artificialmente do dinheiro do petróleo e da especulação. O preço de bens e serviços atinge índices delirantes.

Um “quadro” médio europeu pode auferir facilmente um salário mensal de 15 mil dólares em Luanda. Mas uma noite num hotel não custa menos de 300 dólares e o preço de uma refeição num restaurante da moda começa nos 100 dólares (no famoso Lookal Mar, só as “entradas” podem chegar aos 150 dólares, para já não falar do marisco, que é importado de Portugal, por via aérea, três vezes por semana).

Só os estrangeiros que ali trabalham para multinacionais e os angolanos empregados na indústria do petróleo e na banca podem suportar estes preços, conclui a CNN. Em contrapartida, 55 por cento dos angolanos vivem abaixo da linha de pobreza, com apenas 1,2 dólares disponíveis por dia, e a taxa de desemprego entre o povo das cidades ultrapassa largamente os 20 por cento. “Engarrafamentos de carros de luxo podem ser comuns na capital”, constatou a CNN, “mas o estado das estradas é chocante e os serviços públicos (da renovação de uma carta de condução ao simples envio de um postal ilustrado) são horríveis”.

Também uma equipa do ‘Daily Mail’ londrino resolveu visitar a cidade mais cara do mundo e registou alguns preços exemplificativos: umas calças ‘jeans’ por 200 euros numa loja da Baixa, um ‘hamburger’ por 40 euros num hotel onde a pernoita ultrapassa os 350 euros. E mais contrastes: os iates de luxo que regressam ao porto de Luanda, depois de passeios de sonho pelas águas transparentes da costa angolana, têm de abrir caminho por entre lixo, dejectos e restos de automóveis que flutuam na baía.

E os enviados do ‘Mail’ concluem: “Um apartamento de uma assoalhada no centro de Luanda pode custar custar 9.000 euros por mês. Uma ‘pizza’, 20 euros. Um quilo de tomate, 20 euros. E a ‘joia’ de entrada num ginásio de manutenção, 6 mil euros. Só as armas são baratas: uma AK-47 custa apenas 24 euros”…

Corrupção

A fúria marxista-leninista que marcou a “independência” de Angola, em 1975, deu lugar a partir dos anos 80 a um carnaval capitalista ao pior estilo. Os líderes comunistas do MPLA descobriram as delícias da vida de luxo e, servindo-se do poder político (que detinham e detêm em exclusivo), trocaram ‘O Capital’, o materialismo dialéctico e o ‘Livro Vermelho’ de Mao Tse Tung pelos negócios majestáticos. Sem controlo de qualquer espécie, sorvendo os lucros portentosos da exploração do petróleo, a elite angolana transformou a antiga província ultramarina num pantanal de corrupção e nepotismo.

Nem as denúncias internacionais, nem a intervenção de organismos de controlo alteraram substancialmente a situação: Angola continua a figurar entre os países mais corruptos do mundo no ‘ranking’ da organização Transparency International. O sistema financeiro, a elite empresarial e a comunicação social permanecem nas mãos de um grupo próximo do presidente da república, José Eduardo dos Santos, cuja filha Isabel se transformou “miraculosamente” na mulher mais rica do continente africano.

Vá-se lá agora perceber que o vencimento-base mensal do presidente José dos Santos esteja fixado, desde o passado mês de Junho, em 621 mil kwanzas, uns míseros 6.210 dólares norte-americanos por mês. É outro “milagre”: já não o da multiplicação dos pães, mas o da multiplicação dos kwanzas…