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200 anos depois de Waterloo, a gesta de Napoleão continua a apaixonar os europeus. Derrotado na batalha cujo bicentenário se comemorou na semana passada, o caudilho militar que conquistou a Europa de Lisboa a Moscovo, venceu dezenas de batalhas, acabou com reinos e impérios centenários, deu e tirou direitos aos povos, transformou por completo a arte da guerra e deixou o nome associado a uma maneira de fazer política: o bonapartismo. A sua morte ainda hoje suscita acesa polémica.

Aos 24 anos, Napoleão Bonaparte (1769-1821) tornou-se o general mais jovem do mundo, promovido graças ao mérito de que deu provas como oficial de artilharia na guerra que opunha a França revolucionária à Inglaterra. Com 30 anos, depois de ganhar batalhas em Itália e no Egipto, tomou o poder com um golpe de Estado e disse aos franceses uma frase que ficou célebre: “A revolução acabou.”

Em pouco mais de uma década, o general coroou-se imperador e deu à França um prestígio e uma força que os reis que o antecederam nunca conseguiram alcançar. A política, a diplomacia e a guerra foram o instrumento das conquistas napoleónicas que chegaram de Lisboa a Moscovo. Os nomes das vitórias do “Grande Exército” estão inscritas no Arco do Triunfo, em Paris, e incluem alguns dos maiores combates da história: Austerlitz, Ulm, Jena, Eylau, Friedland, Essling, Wagram, Borodino…

Ascensão e queda

Por toda a Europa, dinastias seculares perderam as coroas, prontamente ocupados por membros da família Bonaparte: José, rei de Nápoles e de Espanha; Luís, rei da Holanda; Jerónimo, rei de Vestefália. O marechal Murat, casado com Carolina, irmã mais nova de Napoleão, ocupou o trono de Nápoles quando José recebeu “guia de marcha” para Madrid.

Nos intervalos entre as batalhas, quando não estava ocupado a redesenhar o mapa da Europa, o imperador dedicava-se à reforma das instituições, à construção de monumentos ou ao mecenato das artes. Um dos seus legados mais duradouros foi o Código Civil, que sobreviveu aos sucessivos regimes e inspirou o Direito de muitos países do mundo.

As derrotas sofridas em Portugal e Espanha pelo exército francês na Guerra Peninsular foram o prenúncio da queda. Obrigado a retirar de Moscovo pelo incêndio ateado pelos próprios habitantes, Napoleão viu-se forçado a fazer o caminho de regresso até às fronteiras da Rússia flagelado pelos cossacos e pelo seu maior inimigo: o “general Inverno”.

Com as principais potências continentais, Rússia, Prússia e Áustria, apoiadas pela Inglaterra, coligadas contra ele, Napoleão perdeu a batalha de Leipzig, em 1813, e no ano seguinte foi obrigado a travar a Campanha de França, uma série de combates defensivos com o objectivo de retardar a derrota. Apesar do valor do “Grande Exército”, não evitou a humilhação de ver os cossacos acampados em Paris.

Pressionado pelos seus marechais, Napoleão abdicou em Fontainebleau, em Abril de 1814. Partiu para o exílio, na ilha de Elba, no Mediterrâneo, perto da costa italiana, mantendo o título de imperador. Em menos de um ano, modernizou a administração do seu minúsculo “império”, reformou o ensino e fez construir estradas.

Os Cem Dias e Waterloo

Mas, no início de Março de 1815, Bonaparte estava farto. Informado do descontentamento dos franceses com o novo rei Luís XVIII, arriscou regressar. Desembarcou numa praia perto de Cannes, com apenas 50 homens da Guarda Imperial e atravessou a França. À medida que o rei mandava tropas para o capturarem, soldados e oficiais passavam-se para o seu lado. Luís XVIII fugiu de Paris poucas horas antes da chegada triunfal de Napoleão, a 20 de Março.

O novo império só durou 100 dias. Perante a hostilidade de toda a Europa, Napoleão voltou à guerra e foi derrotado pelo britânico Wellington na batalha de Waterloo, perto de Bruxelas, na Bélgica, faz esta semana (18 de Junho) 200 anos.

Os vencedores não quiseram correr mais riscos. O vencido deixou de ser o “imperador Napoleão”: foi despromovido a “general Bonaparte” e enviado sob prisão para a ilha de Santa Helena, um rochedo isolado no Atlântico Sul. Em 1816, quando o embaixador britânico em Washington avisou Londres de que o ex-rei de Espanha José Bonaparte, exilado nos EUA, estava a recrutar mercenários para ir a Santa Helena resgatar o irmão, a segurança foi reforçada e Napoleão passou a ser guardado à vista por um oficial inglês.

O ex-imperador ocupava parte do tempo a ditar ao seu secretário Las Cases o Memorial de Santa Helena e a dar passeios pela ilha. Convivia cada vez menos com os membros da sua reduzida comitiva: o general conde de Montholon, a mulher deste, Albine, o general Bertrand, o secretário Las Cases, o criado Marchand.

As condições de detenção tornaram-se mais rigorosas com a chegada do governador Hudson Lowe que, juntamente com a esquadra do almirante Cockburn, garantia a segurança da ilha.

Morte no exílio

Com a passagem do tempo, Napoleão começou a dar sinais de uma doença que os médicos não conseguiam identificar. Em Março de 1821, caiu à cama, assistido por um médico inglês, Arnott, e o seu patrício corso Antommarchi.

Morreu no dia 5 de Maio de 1821, com 51 anos. Por desejo expresso de Napoleão, no dia seguinte o corpo foi autopsiado por Antommarchi, assistido por sete médicos ingleses. O imperador fizera questão de que ficasse registada a causa a morte e queria que o documento servisse para o caso de o filho revelar indícios da mesma doença. Napoleão estava convencido de que sofria do mesmo mal que matara o seu pai, Carlos Bonaparte: cancro do estômago. Depois da autópsia, Antommarchi retirou o coração e o estômago e guardou-os em taças de prata, conservados em aguardente.

O corpo foi vestido com a farda dos caçadores a cavalo da Guarda, com todas as condecorações recebidas por Napoleão, e amortalhado na capa azul que usara na batalha de Marengo.

A morte de Napoleão foi atribuída a um cancro do estômago. Os médicos encontraram uma úlcera gástrica perfurada, agravada por ulcerações cancerosas, que teria provocado a peritonite que acabou por ser fatal.

Envenenado?

Mais de um século depois, em 1955, um dentista sueco perito em toxicologia, Sten Forshufvud, veio propor uma nova hipótese: Bonaparte morrera envenenado com arsénico. Baseava-se para isso nas memórias do criado do imperador, Louis Marchand. Forshufvud contabilizou os sintomas descritos por Marchand e concluiu que 28, num total de 31, eram compatíveis com o envenenamento por arsénico. O sueco conseguiu também obter mechas de cabelo que terão sido cortadas a Napoleão em diferentes momentos da sua vida. Analisado na Universidade de Glasgow, o cabelo revelou que Bonaparte sofria uma intoxicação crónica de arsénico desde 1805.

Ben Weider, um homem de negócios canadiano apaixonado pela história de Napoleão, aceitou e desenvolveu a tese de Forshufvud. Os dois escreveram em parceria vários livros sobre o assunto e realizaram experiências em laboratórios como os do FBI e da Scotland Yard, para demonstrar a presença de quantidades anormalmente elevadas de arsénico nos cabelos de Napoleão.

Chegaram a uma conclusão polémica: o imperador fora envenenado pelo conde de Montholon, que deitava arsénico no vinho Constantia, um moscatel muito apreciado por Napoleão. Montholon seria um agente dos Bourbons, ao serviço do futuro rei de França Carlos X (irmão mais novo de Luís XVI e de Luís XVIII); o governador Hudson Lowe, ansioso por se ver livre do maior inimigo de Inglaterra, fechou os olhos ao crime.

Outro investigador, René Maury, veio mais tarde “absolver” Hudson Lowe mas acrescentou dois novos indícios da suposta culpa de Montholon: acalentava expectativas (fundadas, como se verificou depois) de beneficiar da herança de Bonaparte, que o nomeara executor testamentário e, além disso, tinha sido traído pela mulher com… Napoleão.

Perícias toxicológicas mais recentes, realizadas na Universidade de Estrasburgo, confirmaram a elevada concentração de arsénico, mas os cientistas atribuem-na a outras causas que não o envenenamento – as condições de vida naquele tempo expunham as pessoas à absorção de arsénico em quantidade suficiente para provocar intoxicações.

Polémica

No entanto, o historiador francês Jean Tulard levantou dúvidas sobre a legitimidade das amostras de cabelo atribuído a Napoleão e questionou tanto a metodologia como os resultados das análises.

Em 2009, o médico dinamarquês Arne Sorensen levantou uma nova hipótese: no livro ‘Os rins de Napoleão’, defende que a causa da morte não foi cancro do estômago nem envenenamento com arsénico, mas sim problemas urinários e insuficiência renal.

Outra polémica envolve o túmulo de Napoleão, na cripta do Hôtel des Invalides, em Paris. Em 1969, o jornalista francês Georges Rétif de la Bretonne escandalizou muita gente com um livro intitulado ‘Anglais, rendez-nous Napoléon!’ (‘Ingleses, devolvam-nos Napoleão!’), no qual afirma que os restos mortais no túmulo mais venerado de França não pertencem a Bonaparte, mas sim a um tal Cipriani, que foi mordomo do imperador em Santa Helena e ali morreu, em 1818.

A favor desta tese invoca as descrições feitas pelas testemunhas do sepultamento de Napoleão, em 1821, e os relatos da exumação, em 1840, aquando da trasladação para Paris. O autor aponta contradições que vão desde as condições do corpo (em adiantado estado de decomposição em 1821 e perfeitamente conservado 19 anos depois) até ao calçado e às condecorações. O livro de Rétif foi refutado pelo coronel Dugué Mac Carthy, conservador do Museu do Exército, instalado nos Invalides, mas o jurista e historiador Bruno Roy-Henri voltou a levantar questão num livro publicado em 2003.

A palavra de Cambronne

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Waterloo, fim da tarde de 18 de Junho de 1815. Com a derrota à vista – acabara de ser informado da chegada iminente ao campo de batalha dos prussianos do marechal Gebhard von Blücher e sabia que já não poderia contar com os reforços do general Emmanuel de Grouchy -, Napoleão tentou uma medida desesperada. Mandou avançar a Velha Guarda, a elite do exército francês, contra o centro das forças inimigas. A Guarda Imperial, comandada pelo general Pierre Cambronne, cumpriu a ordem… à custa de ser destroçada pelo poder de fogo dos quadrados britânicos. Os sobreviventes recuaram e, apesar de terem conseguido reagrupar-se, foram cercados por forças muito superiores. Impressionado com a galhardia dos soldados da Guarda, um oficial britânico chamou-lhes “bravos” e ofereceu-lhes uma rendição honrosa. Foi nessa altura que, de acordo com o ‘Journal Général’ de 24 de junho de 1815, Cambronne proferiu as suas primeiras palavras famosas desse dia: “A Guarda morre mas não se rende!”

O escritor Victor Hugo, em ‘Os Miseráveis’, conta outra versão que ficou célebre. Como os veteranos franceses tivessem recusado render-se, os ingleses renovaram a oferta. Foi quando o general francês soltou o desabafo ‘Merde!’, que passou à história como “a palavra de Cambronne”. Tanto bastou para que o general passasse a ser tratado como um herói, com estátuas, nomes de ruas e praças, até uma estação do metro em Paris. “A palavra de Cambronne” tornou-se um eufemismo para o que todos sabiam significar.

A verdade é que o próprio Cambronne, morto em 1842, nunca assumiu a autoria do dito. E, com o passar dos anos, surgiram as vozes discordantes. Três cartas de leitor, publicadas no jornal londrino Times, a 16 e 18 de Junho de 1932, esclareceram o caso. Descendentes e amigos do general escocês Hugh Halkett testemunharam que este oficial, coronel em Waterloo, capturou Cambronne e levou-o sob prisão até às linhas britânicas. Estavam desfeitas as dúvidas: Cambronne já estava preso quando o enviado do ‘Journal Général’, primeiro, e Victor Hugo, depois, lhe atribuíram as palavras que o imortalizaram.

A batalha vitoriosa dos Abba

ABBA

No meio das habituais baladas delicodoces que já então espalhavam um prolongado bocejo entre os espectadores, o Festival da Eurovisão de 1974, realizado a 6 de Abril, na estância balnear inglesa de Brighton, foi agitado por uma lufada de ar fresco. Para surpresa geral, um desconhecido quarteto sueco chamado Abba, composto por Agnetha Fältskog (a loura), Anni-Frid Lynstad (a ruiva), Björn Ulveus (o da guitarra) e Benny Andersson (o do piano) apresentou uma canção pop com um ritmo contagiante e melodia cativante. Título: “Waterloo”. A letra era um simples poema de amor que comparava a entrega resultante da paixão à rendição numa batalha… como Waterloo. A vitória eurovisiva foi o trampolim que levou os Abba ao estrelato, catapultando a banda para uma carreira de sucesso que atingiu o ponto mais alto quando os seus discos chegaram a ser o segundo maior produto de exportação da Suécia, logo atrás dos carros Volvo.