MIGUEL MATTOS CHAVES

Uma reflexão sobre o decorrer das negociações da União Europeia (UE) com a Grécia. É a primeira parte do Jogo do Poder na UE e concluiu-se no passado dia 23 de Fevereiro. Os resultados são inconclusivos e não satisfazem ambas as partes, mas também não proporcionam satisfação plena a nenhum dos intervenientes.

Pelo lado da Grécia, a sua posição inicial de negociação de reestruturar a sua dívida soberana (os sinais externos de pressão) e a sua pretensão de imediatamente recuperar algum do poder de compra dos gregos afectados, através da recuperação do salário mínimo e readmissão de funcionários públicos (sinais internos) tiveram que dar lugar a uma recuperação gradual do salário mínimo (e não súbita).

Por outro lado, conseguiu que o seu Governo passasse a negociar politicamente ao mais alto nível e não, como até aqui, através de funcionários das três instituições, o que é uma boa notícia para todos os Estados-membros afectados pela crise financeira em curso.

Conseguiu ainda que o Programa de extensão, a executar nos próximos meses, pusesse de lado algumas das medidas que estavam em cima da mesa, tais como: mais despedimentos, mais cortes salariais, ou seja o aprofundamento da denominada austeridade, levando agora as futuras medidas a afectar (segundo as intenções divulgadas) as entidades que até aqui tinham ficado de fora, através de um maior combate à corrupção e à fuga de impostos.

Conseguiu ainda que lhe fossem concedidas linhas de crédito favoráveis, pelo BCE, destinadas a patrocinar algumas medidas de desenvolvimento.

Pelo lado da UE, BCE e FMI, conseguiu estancar uma renegociação da Dívida Soberana Grega, que poderia arrastar atrás de si situações complicadas de gerir com a Itália, França, Espanha e Irlanda (de que Portugal beneficiaria apenas lateralmente). Adiou uma solução global para o conjunto da União, que necessariamente terá que ser encontrada rapidamente. Evitou uma possível situação de saída do Euro da Grécia, e quiçá, de outros países em dominó, e com isso o aprofundar da crise da Moeda Única.

Ambas as partes ganharam, pois reconheceram os erros dos processos seguidos até aqui, abriram a porta política para encontrar novos caminhos para a União e demonstraram vontade de progredir e de iniciar um processo mais dirigido para o desenvolvimento do que para a pura e dura contabilidade sem futuro.

Ambas as partes cederam, pois não conseguiram fazer vencer as suas posições iniciais e tiveram que negociar politicamente, para além da negociação técnica.

Mas, tal como no início desta reflexão o afirmei, estamos apenas no intervalo do Jogo do Poder iniciado em Janeiro e os próximos meses serão interessantes, pois prevejo algumas mudanças necessárias para a conservação da União Europeia.

Como já escrevi anteriormente, traçado este quadro, a minha opinião é que temos pela frente meses interessantes de negociação política (e não apenas técnica, como até aqui foi tratado o tema da austeridade dos países do Sul e Sudoeste da Europa) o que é, para mim, positivo e poderá corrigir erros de trajectória da União Europeia.

Cenários possíveis

Dois cenários (resultados) se poderão verificar:

1.º cenário: Se ambos se mantiverem irredutíveis, o quadro será o fim do euro e, possivelmente da própria UE (uma coisa não tem necessariamente que arrastar a outra), com a consequente reformulação do quadro de alianças entre países no Continente Europeu que poderá dar origem a dois ou mais blocos.

Uma possibilidade que levanto é a da formação de um eixo Atenas-Moscovo, com a agregação de alguns países periféricos dessa zona; um eixo Paris-Bona -Helsínquia-Estocolmo; e o reforço do eixo Londres- Washington com algumas adesões. Ganhos eleitorais e vitórias de partidos extremistas em França, Inglaterra, Holanda, Espanha e outros.

2.º cenário: Se houver acordo, (e um acordo implica cedências de ambas as partes para encontrarem um denominador comum que deixe ambas as partes in/satisfeitas por igual ou aproximado), toda a UE (inclusive a Grécia) ganhará se isso significar que à política de austeridade sucederá uma política de desenvolvimento.

Comentários finais

Posso prever, com algum grau de forte probabilidade de acontecer, em caso de sucesso das (re)negociações. Um ganho para toda a Europa do Sul. Isto é, nada ficará como dantes e estas negociações “forçarão” a concessões por parte da “linha dura” da UE, e dos seus “criados” como é o caso do lamentável sr. primeiro-ministro português.

Pena que tenha sido a extrema-esquerda da Grécia a despoletar este processo e não a Direita dos diversos países europeus. Espero assim que os dirigentes europeus (gregos incluídos) que contam (infelizmente os nossos, com esta posição, não contam para nada) sejam responsáveis e sigam outro caminho que proporcione bem-estar aos diversos povos europeus e abandonem o caminho até aqui seguido.

Veremos então o que se passará, pois “o Jogo” não acabou, longe disso.