Petrolão: o escândalo dos dinheiros da esquerda brasileira

Petrolão: o escândalo dos dinheiros da esquerda brasileira

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Mais dividido do que nunca: é este o estado da sociedade brasileira no momento em que rebenta mais um escândalo do governo trabalhista. Uma empresa pública, a Petrobras, andou a servir de “porquinho mealheiro” para os governantes de esquerda do Brasil. Este é um caso que põe em causa todo o edifício político brasileiro e pode constituir um sério revés para uma economia assente em caboucos frágeis.

Durante anos, a petrolífera brasileira Petrobras foi apresentada como um pilar do regime do Partido dos Trabalhadores (PT). Não foram poucas as fotos tiradas ao presidente Lula da Silva vestido de operário e com um capacete branco. Por algum tempo, a Petrobras parecia mesmo a face do “novo Brasil”: uma empresa gigantesca que valia mais do que o PIB de muitos países pequenos e que garantia um futuro melhor para o historicamente empobrecido país da América Latina.

Lula da SilvaInfelizmente, o retrato cor-de-rosa acabou por ser borrado pelos suspeitos do costume: os políticos do “esquerdão” brasileiro, que se valeram das fragilidades do sistema judicial para usarem a Petrobras em proveito próprio. Tal como cá, o Brasil de hoje vive sobre um vulcão.

O escândalo rebentou quando Paulo Roberto Costa, um poderoso executivo da Petrobras, foi detido pelas autoridades no âmbito do processo “lava jacto”, um alegado esquema de lavagem de dinheiro através de lavandarias e postos de combustível. Milhares de milhões de reais foram “limpos” através deste esquema.

Face à forte probabilidade de vir a ser condenado a uma pena de prisão de muitos anos, Costa decidiu fazer um acordo com as autoridades e revelar os meandros de uma realidade tenebrosa: a Petrobras estava a servir de fundo de financiamento ao Partido dos Trabalhadores.

Da petrolífera saíram, alegadamente, 500 milhões de dólares para a recente campanha de reeleição de Dilma, que contou ainda com generosos “donativos” de outras empresas ligadas aos negócios do Estado.

Com base no testemunho do executivo “arrependido”, os líderes de várias das maiores empresas brasileiras foram detidos. Uma das implicadas tem uma relação directa com Portugal: a Camargo Corrêa, empresa que comprou a Cimpor depois de um processo de aquisição turbulento.

No testemunho de Costa foi directamente incriminado o tesoureiro do Partido de Dilma Rousseff e Lula da Silva (este, por sinal, prefaciador de um recente livro do seu amigo português José Sócrates), bem como os líderes de ambas as Câmaras do Congresso que, pelos vistos, estariam a receber “luvas” para fecharem os olhos à negociata.

Dilma, ainda em campanha para ser reeleita “presidenta”, ficou entre a espada e a parede. Ou admitia ser corrupta, ou admitia ser incompetente – pois, para piorar o seu caso, a investigação remexeu os tempos em que a presidente radical do Brasil era ministra do governo de Lula e tinha a seu cargo, precisamente, a supervisão da Petrobras.

Aos poucos, a investigação avança e revela os detalhes sórdidos do conluio entre políticos e agentes económicos. Apurou-se já que, na melhor das hipóteses, Dilma estava a par de tudo e dava o seu aval; na pior, que cobrava uma “taxa” de 3% sobre todos os contratos da Petrobras para financiar a sua campanha de reeleição. Tudo “alegadamente”, já que o inquérito prossegue e a justiça não proferiu ainda o seu veredicto final.

Não admira que o PT tenha sido o partido que mais dinheiro gastou na campanha do último acto eleitoral: era a Petrobras a pagar.

Empresa privada nacionalizada

Sede da PetrobrasA história da Petrobras começa quando o governo de Getúlio Vargas decidiu, nos anos 50, criar uma empresa estatal para gerir o negócio do petróleo no Brasil. Foi constituída como monopólio público e assim permaneceu até 1997, altura em que foi “privatizada”.

Foi uma privatização algo incompleta, em nada diferente do caso da “golden share” da Portugal Telecom. O governo do Brasil não estava disposto a abrir mão do que considerava um “pilar da economia” mas, mais importante, de uma empresa que se estava a revelar muito rentável.

Ainda hoje o Estado Brasileiro é dono de uma participação maioritária, facto que permite ao partido no poder nomear quem quiser para liderar a Petrobras e ditar como a empresa deve ser gerida.

Já no século XXI, a Petrobras emerge como um gigante económico, depois de terem sido descobertas vastas reservas de petróleo na orla costeira brasileira. A gula dos políticos, que até então se manifestara com relativa contenção, tornava-se agora voraz. E, não desmentindo as suas raízes marxistas e leninistas, Lula e Dilma, essa dupla fatal da última década, resolveram pôr a Petrobras ao serviço do partido dominante, o PT.

Os vastos lucros da Petrobras foram redireccionados para a favela, para os enormes e dispendiosos programas sociais de Lula. E, para aumentar ainda mais a popularidade do PT, o preço da gasolina e do diesel foi mantido artificialmente baixo para a população, apesar de o preço do petróleo na altura ser elevadíssimo e de a Petrobras ter de importar uma boa parte do petróleo que ia refinar.

Resultado: muitas vezes a Petrobras acabou por vender o seu produto abaixo do preço de produção, e a dívida da empresa disparou para 240 mil milhões de dólares. Em comparação, a Petrobras deve hoje mais que do que todo o produto anual da economia portuguesa. Mas recorde-se que, por então, já a empresa era privada e tinha, gostasse ou não, de dar satisfações aos seus accionistas. E foi pela revolta destes que a crise na Petrobras se agudizou.

Um esquema

Jim Chanos, um dos maiores empresários de Wall Street, classificou a Petrobras como “um esquema, não um título”. A sua crítica deve-se ao que ele considera a má gestão da Petrobras, dirigida para beneficiar o Partido dos Trabalhadores, o que a levou a falhar muitos dos seus objectivos de produção. Recentemente surgiram também acusações de que o regime de Dilma está a fazer política monetária através do Banco de Desenvolvimento (uma espécie de versão brasileira do Banco de Fomento, cujo arranque em Portugal tem sido custoso) e da Petrobras.

Outro exemplo de má gestão, possivelmente motivado por razões políticas, é a compra de uma refinaria de petróleo no Texas, que custou mais de mil milhões de dólares. A empresa acabou por perder 500 milhões neste negócio.

A revelação desta informação causou o pânico nos mercados accionistas. As acções da Petrobras perderam 35% do seu valor em apenas um mês, uma queda estrondosa. O real, cuja valorização já chegou a ser o orgulho do governo do PT, caiu para o seu valor mais baixo desde 2005.

Países irmãos na falta de justiça

Na mesma semana em que José Sócrates e várias figuras poderosas da sociedade portuguesa eram detidos, os portugueses e os brasileiros partilhavam a mesma dúvida: será que o sistema legal terá força e independência suficientes para navegar no labirinto de esquemas de promiscuidade entre a política e a economia – e levar o barco a bom porto, fazendo justiça?

No Brasil, tal como em Portugal, os grandes casos tendem a arrastar-se nos tribunais, apenas para depois se chegar a resultados inconclusivos. Lá houve o caso Mensalão, cá o caso Freeport; lá o caso Castelo de Areia, cá o caso Face Oculta.

Mas as consequências políticas, para Dilma, podem vir a ser elevadas visto que neste momento a “presidenta” está a negociar o seu novo governo. Anteriormente, o PT detinha uma grande maioria dos ministérios, mas agora Dilma depende de uma coligação cada vez mais fracturada de partidos, bem como do apoio do silencioso mas gigante Partido do Movimento Democrático do Brasil (PMDB).

Num cenário extremo, as coisas pioram ainda mais para a “presidenta”: o Partido dos Trabalhadores já não dispõe de força eleitoral ou política suficiente para evitar uma eventual impugnação de Dilma por corrupção – e esta possibilidade não deixaria de ser ponderada pela oposição caso o PT não soubesse satisfazer as ambições dos seus “amigos” de conveniência.

Não seria a primeira vez que um Chefe de Estado é removido do poder no Brasil: o primeiro presidente democraticamente eleito no actual regime, Collor de Mello, viu o seu mandato impugnado devido a escândalos de corrupção, em 1992.

Repetir-se-á a história? Pelos vistos, o “novo Brasil” do PT não é mais do que o “velho Brasil”, vestido com as cores berrantes do radicalismo esquerdista e escondendo as rugas da corrupção com uma boa camada de respeitável maquilhagem.