Petróleo: a verdadeira razão para a “paz” em Moçambique

Petróleo: a verdadeira razão para a “paz” em Moçambique

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Frelimo e Renamo estão a ser pressionadas para sobrepor o protagonismo à quimera política

Cheira a “ouro negro” na antiga província ultramarina portuguesa. Os grandes investidores internacionais encostaram o governo e a Renamo à parede: ou se entendem de uma vez por todas, ou não há negócios para ninguém.


Guebuza perdoa a Dhlakama, Dhlakama perdoa a Guebuza, a Frelimo e a Renamo chegam finalmente a um acordo de paz em Moçambique. Assim têm sido apresentadas à opinião pública as últimas notícias sobre o conflito que há dezenas de anos opõe a Frelimo (no poder) à Renamo (na oposição e na resistência armada) e no último ano redundou em novos focos de guerra.

Mas os informadores d’O DIABO na antiga província ultramarina do Índico asseguram que a súbita conversão de Armando Guebuza e Afonso Dhlakama às vantagens da paz tem uma explicação mais prosaica: o negócio da exploração do petróleo e do gás natural, que os grandes investidores internacionais anseiam por iniciar logo que cessem os tiros.

E não cessaram já? – perguntará o leitor. Sim, oficialmente, a República de Moçambique vive em paz desde a semana passada. Oficialmente. Ao fim de 73 “rondas negociais”, que se arrastaram durante mais de um ano, a Frelimo e a Renamo terão por fim chegado a um acordo de compromisso. Mas…

Entendam-se, e depressa

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Armando Guebuza, Presidente de Moçambique

O presidente Guebuza fez aprovar uma lei de amnistia no parlamento, a polícia libertou simbolicamente 23 militantes da Renamo que estavam presos em Inhambane e o porta-voz de Dhlakama em Maputo, António Muchanga, foi solto após ter passado 43 dias detido na prisão de alta segurança da Machava, ainda hoje não se sabe bem porquê.

Por seu turno, Dhlakama aceitou um plano progressivo de apaziguamento e inclusão da sua tropa de guerrilha nas forças armadas e na polícia do regime, garantiu o cessar-fogo (desde que não seja “provocado”) e deu aos seus homens, ao telefone, luz verde para assinarem o acordo de paz com os delegados da Frelimo.

Curiosamente, todos estes gestos de “boa vontade” de parte a parte aconteceram em apenas uma semana – numa pressa atabalhoada que deixou no ar algumas suspeitas sobre a genuinidade de tanto amor fraterno.

Afonso Dhlakama, o Presidente da RENAMO
Afonso Dhlakama, Presidente da RENAMO

E a verdade é que, ao fecho desta edição, no início da semana, o acordo não tinha sido ainda assinado de facto: à última hora, na quinta-feira passada, a Frelimo exigiu que os representantes da Renamo apresentassem uma delegação de poderes formal assinada pessoalmente por Dhlakama. Aguarda-se a todo o momento que da Gorongosa (onde o líder dos rebeldes anti-marxistas continua refugiado) chegue um mensageiro com o providencial papel na mão.

Todo este processo, para os informadores d’O DIABO em Maputo, antiga Lourenço Marques, não passa de uma pequena farsa representada em público para nublar o que verdadeiramente está a acontecer: encostados à parede pelos impacientes investidores internacionais, Guebuza e Dhlakama foram, na prática, obrigados a chegar a um acordo. E depressa.

Lugar à mesa da fartura

Desde que o governo da Frelimo decidiu seguir as pisadas de Angola e abrir a exploração dos recursos naturais às multinacionais com real capacidade de investimento, o conflito com a Renamo ganhou novos contornos.

A guerra ideológica do passado (marxistas ortodoxos no poder, anti-marxistas pró-ocidentais na mata) deu lugar a uma simples obstinação de velhos caturras. Guebuza e o seu comité central foram entretanto abandonando a ortodoxia e estabelecendo pontes com o (antes detestado) capitalismo internacional. Mas deparou-se com uma dificuldade: ninguém está disposto a investir milhares de milhões num país em guerra.

Dhlakama percebeu a fragilidade da Frelimo e fez subir o preço que Maputo teria de pagar pela paz. Após anos de suave adormecimento, os homens da Renamo voltaram a vestir a farda e, nos últimos meses, têm lembrado ao poder moçambicano que existem. E que também querem ter lugar à mesa da fartura.

O reacendimento da guerra, porém, era tudo o que os investidores internacionais desejavam que acontecesse. Sobretudo desde que a prospecção dos hidrocarbonetos da Bacia do Rovuma revelou a existência de enormes jazidas de petróleo e gás natural – das maiores do mundo.