Foram senhores e mestres da vida política dos seus países, mas agora o jogo acabou. José Sócrates, Lula da Silva e Dilma Rousseff estão sob suspeita de controlarem um enorme polvo, cujos tentáculos se estendem a todos os sectores das sociedades portuguesa e brasileira. Só não contavam ser apanhados nas malhas da justiça.

Se há país onde a classe política mais parece estar em causa, é o Brasil, onde a “operação lava jato” [sic] revela novos escândalos todos os dias. Pouco depois da reeleição de Dilma, num sufrágio já marcado por alegações de fraude, a justiça brasileira descobriu que a empresa pública Petrobras, uma instituição gigantesca que movimenta milhares de milhões de euros, andou a servir de “porquinho mealheiro” para a esquerda brasileira. Saíram, alegadamente, mais de 500 milhões de dólares da empresa para a campanha eleitoral do “esquerdão” brasileiro.

Mas esta era apenas a ponta de um dos tentáculos do polvo. Quando os investigadores o seguiram, foram logo descobertos outros. Para além de financiadora do Partido dos Trabalhadores e dos seus aliados (como o Partido do Movimento Democrático Brasileiro), a Petrobras também estava a servir de ponto de lavagem de dinheiro para várias empresas ligadas ao regime, nomeadamente na área da construção. O caso ganhou uma dimensão tal que o Ministério Público até lançou uma página oficial na internet dedicada exclusivamente ao caso (lavajato.mpf.mp.br). A esquerda brasileira estava agora sob investigação.

“Esquerdão” faz um dinheirão

Segundo a justiça brasileira, os principais partidos de esquerda, especialmente o PT, mandataram a Petrobras para assinar contratos de prestação de serviços com várias empresas de “amigos do polvo”, que por sua vez distribuíam a “propina”, palavra em Português do Brasil para significar “suborno”. Só em contratos duvidosos, o Ministério Público Federal chegou à conclusão de que as empresas envolvidas receberam mais de 16 mil milhões de euros, o equivalente ao orçamento do Estado de muitos países pequenos.

Mas para que os lucrativos contratos chegassem a ser celebrados, alguém tinha que assiná-los. E num dos tentáculos do polvo estavam os políticos, que nomearam os directores necessários e promulgaram as leis que lhes foram pedidas. O polvo tinha os tentáculos bem apertados em redor do Congresso Federal.

Infografia do Ministério Público do Brasil
Infografia do Ministério Público do Brasil

Uma das ex-gerentes da Petrobras, Venina Velosa, testemunhou que a Petrobras sabia que as empresas a quem subcontratava empreitadas tinham formado um cartel de corrupção. Uma das obras, uma refinaria, viu os custos “derraparem” tanto que um orçamento inicial de 500 milhões de euros acabou por transformar-se num custo final de 5 mil milhões de euros, quase tanto como o deficit da República Portuguesa em 2014.

Já Paulo Roberto Costa, ex-director da Petrobras e actual arguido e testemunha, foi muito mais directo: “Não se chega a director da Petrobras sem apoio político. Nenhum partido dá apoio político só pelos belos olhos daquela pessoa ou pela capacidade técnica. Sempre tem que ter alguma coisa em troca”.

Zangam-se as comadres…

No centro deste escândalo estão algumas das figuras mais importantes do actual regime esquerdista brasileiro. A “presidenta” Dilma Rousseff esteve, alegadamente, directamente envolvida na corrupção, visto que liderou o Conselho de Administração da Petrobras entre 2006 e 2010, anos em que saíram da empresa quantidades monumentais de dinheiro para alimentar o polvo. Ao mesmo tempo era também chefe da casa civil de Lula da Silva, que a escolheu a dedo para ser a sua sucessora.

Inicialmente, assumiu-se que este iria ser mais um caso como o infame “Mensalão” do tempo de Lula, e que não haveria consequências de monta para a cúpula do poder de esquerda, que havia acabado de vencer as eleições. Mas o caso expandiu-se, e agora o Presidente da Câmara dos Deputados está sob investigação, bem como o Presidente do Senado, e até o Tribunal de Contas do país está a ser escrutinado devido a suspeitas de nepotismo.

Entre senadores e deputados encontram-se também 45 arguidos, com a possibilidade de haver mais. Em desespero, ainda tentaram ligar o caso à direita brasileira, mas o adversário de Dilma nas presidenciais, Aécio Neves, foi investigado e ilibado de qualquer envolvimento, e o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso dispôs-se a ajudar no que fosse preciso para levar a investigação a bom porto.

O combate tornou-se, então, interno e desesperado entre a esquerda. O Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, acusado de ter cobrado 5 milhões de euros para facilitar um negócio que envolvia navios-sonda encomendados pela Petrobras, entrou em conflito com o Palácio do Planalto.

Mais delatores

Num momento pouco dignificante para a república brasileira, este importante dirigente político do país acusou a Presidente de estar a conspirar com o Ministério Público Federal para o destruir. Para Dilma, este caso é uma dor de cabeça, visto que Cunha é a figura que pode dar início ao processo para a destituir. A vingança não tardou, e a “presidenta” quer novas comissões de inquérito para forçar a demissão de muitos dos seus antigos aliados. Cunha pode muito bem tentar derrubar Dilma para colocar o vice-presidente, Michel Temer, no poder, visto que é do mesmo partido que ele, o PMDB.

Mas, entretanto, começaram a surgir as primeiras condenações: dois executivos de topo da Camargo Corrêa foram condenados a 15 anos de prisão, no dia 20 de Julho, pelos crimes de corrupção activa, participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro. Conforme as detenções e condenações se acumulam, mais delatores surgem, e a “vontade espontânea” de se alcançar um acordo aumenta. E quanto mais eles falam, mais a dimensão do polvo se vai revelando.

E pelo caminho, quando ninguém esperava, eis que surge o eterno Lula da Silva, “marxista de convicção” que virou radicalmente, tal Tsipras de outra era, ao centro. O ministério público do Brasil alega que Lula “foi um dos principais beneficiários” do esquema do petrolão. Está também sobre suspeita de usar a sua influência para facilitar negócios da Odebrecht com Estados estrangeiros, e Portugal está metido ao barulho.

“Lava Jato” à portuguesa

No dia em que o livro de José Sócrates foi apresentado em Lisboa, em 2013, Lula da Silva fez questão de marcar presença. Mas sabe-se agora que o ex-presidente brasileiro viajou, afinal, com alegado financiamento da Odebrecht.

A justiça portuguesa, que está no encalço do antigo preso nº 44 do estabelecimento prisional de Évora, decidiu investigar, pois o polvo português pode ter os tentáculos entrelaçados com os do polvo brasileiro. Os indícios são fortes.

A Odebrecht está ligada ao grupo Lena, que também tem vários dos seus executivos detidos sob um rol de suspeitas. Segundo o matutino ‘Correio da Manhã’, Joaquim Barroca, vice-presidente do grupo, admitiu que a empresa foi favorecida em contratos públicos adjudicados durante o consulado de Sócrates. Valor total: 200 milhões de euros do contribuinte. Em causa estão obras como a barragem do Baixo Sabor, concessões rodoviárias na Grande Lisboa, e uma parte significativa do polémico TGV.

A fusão da Oi com a Portugal Telecom também pode ter sido obra “especial”, visto que tanto o Governo de Sócrates como o de Lula interferiram bastante no processo. Lula, na altura já substituído por Dilma, visitou Sócrates (ainda primeiro-ministro) como “embaixador do investimento brasileiro”. Objectivo? Ajudar Sócrates a fazer aquilo que o actual PS tanto acusa a coligação de fazer: vender a TAP e os Estaleiros de Viana. Se há um preço “para amigos” ainda não sabemos, ou talvez nunca venhamos a saber, visto que o país entrou em bancarrota e o mandato de Sócrates teve um fim abrupto.

Mas esta não é, certamente, a primeira vez que Sócrates se vê envolvido neste tipo de casos: desde o seu mandato como ministro do Ambiente que o “animal feroz” vai acumulando casos judiciais. Falamos, por exemplo, do famoso Freeport, que se arrastou na justiça desde 2004 até 2012.

Um dos seus camaradas de partido, Armando Vara, também foi detido no âmbito da Operação Marquês, mas anteriormente já tinha sido condenado por causa do seu envolvimento no caso Face Oculta. Embora Sócrates nunca tenha sido formalmente acusado, foi implicado por vários dos arguidos num caso que envolvia lavagem de dinheiro e corrupção política ligadas a empresas públicas.

Bancarrota evitável

Tanto a operação “lava jato” como a Operação Marquês revelam apenas um pouco da extensão do que foram os regimes de esquerda durante a primeira década do século XXI. O “expansionismo económico” dos seus programas políticos serviu como desculpa para obras faraónicas que enriqueceram apenas alguns. Bem conectados a empresas de construção e à banca, o polvo de esquerda infiltrou-se em todos os sectores das nossas sociedades, formando uma enorme rede de influência que ainda estamos a descobrir.

Os efeitos práticos, no entanto, já os conhecemos. A bancarrota portuguesa de 2011 é uma das datas mais negras da nossa História. E era também completamente evitável, caso as medidas certas tivessem sido tomadas a tempo e o Estado não tivesse esbanjado os poucos recursos que ainda tinha ao seu dispor.

No caso do Brasil, a miséria social não deixou de existir, mesmo com os gastos astronómicos da esquerda. Pior, com o país a passo acelerado para a bancarrota, a austeridade que tem de ser imposta recairá sobre aqueles a quem foram dados os subsídios, como a famosa “bolsa família”, que foi atribuída quase como um brinde de campanha, e tão facilmente poderá também ser retirada.

No entanto, a justiça, após anos de dormência, está finalmente a investigar activamente as causas do desaparecimento de tanto dinheiro para lugar incerto, por razões incertas. Se estas personagens são inocentes ou culpadas, os tribunais decidirão, mas a verdade já não pode ficar escondida. Sai uma dose de polvo de esquerda para o tribunal do canto!

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