Hong Kong: um Paraíso bem Infernal

Hong Kong: um Paraíso bem Infernal

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Pequim não pode arriscar a cometer um massacre como o de Tiananmen: tal teria consequências diplomáticas e económicas severas

No momento em que parecia que tudo estava a correr bem para uma China ascendente, eis que os habitantes de Hong Kong decidem revoltar-se pacificamente contra o regime comunista. Esta é uma história de traição, ambições democráticas, movimentos populares, redes sociais e guarda-chuvas.

No dia 7 de Junho de 1997 decorre pela última vez uma cerimónia que havia sido comum na segunda metade do século XX: a bandeira Britânica é arreada de forma a ser substituída pela de outro país. Era mesmo o fim. O outrora poderoso Império Britânico estava oficialmente extinto: Hong Kong, a última colónia, era entregue à República Popular da China.

Bandeira de Hong Kong durante o domínio Britânico
Bandeira de Hong Kong durante o domínio Britânico

Não foi propriamente um momento feliz. Os britânicos não estavam contentes por terem de abandonar um território que estava já plenamente integrado na sua estrutura governamental, e seis milhões de cidadãos de Hong Kong sentiram que estavam a ser entregues aos abutres. Havia, certamente, o sentimento de que era uma cerimónia forçada.

E, no entanto, a sorte de Hong Kong estava há muito traçada. O líder supremo da China nos anos 80, Deng Xiaoping, foi sempre muito directo ao enunciar as suas ambições quanto ao território: ameaçou mesmo a então primeira-ministra Margaret Thatcher de invadir o território e apropriar-se dele num único dia.

O governo britânico não tinha grande intenção de abandonar Hong Kong da forma como foi abandonado. O desejo britânico era que a população se pronunciasse sobre a que entidade política gostaria de pertencer, tal como aconteceu nas Falkland ou em Gibraltar (onde permanecer dentro do Reino Unido ganhou por maiorias de 99%). Mas Pequim não estava muito interessada em referendos, e insistiu em que a transferência tinha de acontecer, e o mais cedo possível.

A Grã-Bretanha forçada a ceder

Desde as primeiras ameaças até à cerimónia de entrega, passaram vários anos de negociações à porta fechada. Os cidadãos de Hong Kong estavam receosos: iam ser entregues ao regime totalitário chinês sem sequer saberem bem como. 

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A China que podia ter sido a China

A República Popular da China não é a única China, visto que a República da China nunca deixou de existir: a sua mera existência é um problema para o regime comunista. Problema porque é quase como uma história alternativa do que poderia ter sido a China, não tivessem as forças comunistas de Mao expulso o governo nacionalista de Chiang Kai-shek do continente.

Hoje, a República da China, vulgarmente e erroneamente conhecida como Taiwan, é um estado plenamente desenvolvido que opera uma democracia com uma economia moderna onde os cidadãos vivem livremente e em prosperidade.

Entretanto, a vida na República Popular não é assim tão generosa, facto que o “paraíso dos trabalhadores” tenta esconder a todo o custo.

Tal como com Hong Kong, a República Popular exige que Taiwan regresse às suas garras, mas desta vez não parecem estar com sorte: não só os taiwaneses querem permanecer fora do regime comunista, estando dispostos a lutar por isso, mas também os EUA decidiram não voltar as costas ao seu antigo aliado.

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Essa foi a principal razão para milhares de habitantes de Hong Kong fugirem para outros países com medo do terror comunista, especialmente depois do massacre de Tiananmen.

Quando a data final foi acordada, o número de “refugiados” ainda aumentou mais. Nada de surpreendente: já desde os tempos da Alemanha de Leste que os “paraísos dos trabalhadores” têm dificuldade em convencer os ditos trabalhadores a permanecer neles.

Falsas promessas

Como conciliar o modo de vida de um território que tinha vivido durante mais de um século em liberdade com a pertença a um país onde a opressão é a norma? Como conciliar o capitalismo de mercado livre que tornou Hong Kong uma das principais praças financeiras do mundo com o comunismo corrupto de mercado “quase” livre da China (livre para os “amigos” do regime)?

É duvidoso que Pequim alguma vez tenha tido a intenção de respeitar o acordo. Agora, 17 anos depois, milhares de cidadãos de Hong Kong estão nas ruas em protesto.

“Democracia popular” à moda chinesa

Eleições directas e livres não são algo que a República Popular da China preze muito. O principal órgão oficial de consulta popular, o Congresso Nacional do Povo, é eleito indirectamente por um complicado sistema de colégio eleitoral no qual o cidadão não tem praticamente voz.

Não que importe muito, para todos os efeitos: todos os candidatos são escolhidos a dedo pelo Partido Comunista Chinês e o Congresso não possui qualquer capacidade de intervenção nas decisões. Uma deputada do Congresso chegou a admitir à BBC: “Como representante parlamentar, não possuo qualquer poder real”. 

Compreende-se então porque é que o governo comunista não tem grandes intenções de autorizar eleições livres em Hong Kong: o mero facto de o autorizar poderia criar expectativas de democratização no resto da China.

Tal como a nível nacional, o sistema eleitoral que rege as eleições para o “parlamento” e para o executivo da cidade não é directo. Embora alguns representantes sejam eleitos por voto directo, grande parte dos delegados é escolhida por “círculos funcionais” corporativos, através de colégios eleitorais de “trabalhadores” de uma determinada área laboral.

Existem, por exemplo, círculos para os agricultores, círculos para os trabalhadores do comércio, círculos para os engenheiros, etc. Ao contrário do que acontece nos círculos geográficos, os candidatos dos “círculos funcionais” são sufragados por maioria simples nos respectivos colégios eleitorais.

Não falta quem alegue que as eleições são escandalosamente fraudulentas. De facto, os partidos pró-Pequim venceram as últimas eleições apesar de terem obtido menos votos: os partidos pró-democracia conquistaram 56% dos votos e 18 dos 35 assentos geográficos, mas apenas 6 dos 30 assentos funcionais. Vários candidatos nestes círculos até competiram sem oposição.

Por sua vez, o executivo é eleito por um colégio eleitoral de representantes escolhidos apenas em “círculos funcionais”. Tendo em conta que estes círculos são tudo menos livres, não é difícil para Pequim escolher um líder que lhe agrade. Mas nem estas salvaguardas satisfizeram os comunistas Chineses.

Nós escolhemos, vocês votam

O Congresso Nacional do Povo (ou seja, os delegados do Partido Comunista) decidiu que ia cumprir o acordo com os britânicos, mas apenas de uma forma aparente. Segundo o novo plano, os cidadãos de Hong Kong ganham o poder de eleger directamente o chefe do executivo através de eleições directas por sufrágio universal.

Mas existe um senão: o Congresso decretou que “o método para seleccionar o chefe do executivo por meio de sufrágio universal deve providenciar salvaguardas institucionais correspondentes para este propósito” e que o candidato ideal deve “ser uma pessoa que ama o país e ama Hong Kong”. Traduzido para linguagem simples: os cidadãos de Hong Kong apenas vão poder votar nos candidatos que Pequim autoriza.

Os potenciais candidatos que se oponham, mesmo que ligeiramente, às políticas do Partido Comunista serão impedidos de tentarem sequer concorrer às eleições. Um pouco como poder escolher um carro em qualquer cor, desde que seja branco…

A revolução do guarda-chuva

29.9.14_Hong_Kong_protest_near_TamarMas os comunistas chineses menosprezaram as ambições de liberdade de Hong Kong. Os cidadãos organizaram-se contra o novo estratagema de Pequim e começaram a ocupar pontos estratégicos da cidade a partir de dia 27 de Setembro. O protesto ficou associado a guarda-chuvas, visto que uma grande quantidade de protestantes os levaram para se protegerem do gás-pimenta da polícia chinesa. Apesar da violência usada, as autoridades comunistas não conseguiram fazer recuar os manifestantes, cujas exigências são eleições livres e democráticas, a demissão do actual governo de Hong Kong e a anulação das decisões de Pequim sobre o território.

A forma como os protestos são organizados está a dar cabo dos nervos dos dirigentes do aparelho comunista chinês. O governo sabe muito bem como lidar com protestos à “antiga” sem causar banhos de sangue: tal como uma cobra, se cortarem a cabeça do movimento, ele morre.

Mas, neste caso, não existem dirigentes para serem presos. Apesar de terem surgido figuras mediáticas populares, a sua prisão não faria o movimento desmobilizar, visto que está a ser organizado por centenas de grupos independentes e está a ganhar massa por causa de ressentimentos genuínos dos cidadãos. O resto é garantido pelo elevado nível cívico dos habitantes de Hong Kong. As ruas são mantidas limpas por grupos de voluntários, que também fornecem refeições aos manifestantes e lhes arranjam sítios para dormir.

Os manifestantes estão organizados e são diligentes, usam as redes sociais da internet para se coordenarem, e muitos já têm horários: manifestam-se numas horas, vão trabalhar noutras, e dormem no resto. Bem coordenados, os acampamentos são espaços limpos de debate livre, que nunca desmobilizam apesar de a vida normal continuar mesmo ao lado.

Pequim em pânico

A reacção do governo central comunista tem variado. Inicialmente, a resposta foi aquela que os “paraísos dos trabalhadores” usam sempre contra os trabalhadores: violência. Mas isso não funcionou, e tendo em conta que espancar manifestantes pacíficos fica mal aos olhos do resto do mundo, Pequim ordenou às suas forças para recuarem e decidiu esperar que o movimento desmobilizasse naturalmente quando os manifestantes se cansassem. Tendo em conta que não parece haver grande risco de tal acontecer, decidiram atacar pela calada.

Na internet (controlada pelo Estado) começaram a ser disseminados vírus informáticos entre os aparelhos dos manifestantes, numa tentativa de descoordenarem a logística dos protestos, algo que os manifestantes garantem ser obra dos serviços de informação chineses. Mas os manifestantes ripostaram imediatamente e passaram a usar uma aplicação chamada “firechat”, que permite enviar mensagens que não dependem da rede de informação controlada pelo regime.

Entretanto, gangues de meliantes, entre eles as infamosas tríades (as várias máfias chinesas) começaram a atacar o povo nas ruas. A convicção generalizada é que Pequim simplesmente contratou criminosos para atacar os protestantes: a “lei” está tão desesperada que se uniu ao crime.

Encruzilhada

E, assim, mafiosos espancaram manifestantes enquanto a polícia observava calmamente o triste espectáculo. Mas mesmo com toda esta violência encoberta, à data da escrita deste texto, o movimento não tinha dispersado.

O “paraíso dos trabalhadores” está numa encruzilhada. Por um lado, não pode ceder às exigências: seria sinal de fraqueza, potencial ponto de partida para mais exigências de liberdade em toda a China, potencialmente o início do fim do regime. Por outro lado, não se pode arriscar a cometer um massacre como o de Tiananmen: tal teria consequências diplomáticas e económicas severas para uma República Popular que até já fala na propagação do “modelo chinês” em oposição ao “modelo ocidental”. Que opções restam ao “paraíso dos trabalhadores”?