Marco António Baptista Martins

Professor de Relações Internacionais da Universidade de Évora

Se por um lado se assiste à desovietização gradual quer de Cuba quer da Venezuela, por outro lado verifica-se a necessidade de uma reconexão da humanidade em substituição à decadência de sectores ideológicos incapazes de responder aos desafios do tempo presente. 

Uma das frases emblemáticas de Che Guevara (“deixe o mundo mudar você e você poderá mudar o mundo”) tende a aplicar-se à realidade actual cubana, na qual se tem vindo a assistir paulatinamente à desovietização quer do território quer do seu povo. Ora, precisamente, num momento de transição política um pouco por toda a América Latina, desde Cuba, passando por Venezuela e alcançando o Brasil, onde se presenciou um “adeus querida” que entra em ruptura com o legado ideológico marxista da presidência de Lula da Silva.

Os rostos de felicidade patentes nas caras do povo cubano, após décadas de isolamento e de sofrimento humano, na data de 31 de Agosto de 2016, derivados da plenitude do voo 387 da companhia aérea da JetBlue que partira do Fort Laudarle na Florida, Estados Unidos, em direcção ao aeroporto de Abel Santamaría de Santa Clara, capital da província de Villa Clara, no centro de Cuba, marcaram a concretização ao ritmo não da Internacional da União Soviética, mas sim da música de “Guantamera” que efectivamente se traduziu num marco geohistórico entre 1961 e 2016 – 55 anos volvidos com o fim do degelo das relações entre Cuba e Estados Unidos.

Note-se que até ao ano de 1959, data na qual Fidel Castro, apesar de baptizado e sob educação jesuíta, não só se reverteu fervorosamente contra o capitalismo e imperialismo, resolveu tomar conta de uma ilha, entrando em marcha triunfal no dia 8 de Janeiro e declarando-se oficialmente comunista pouco tempo depois, o que, claramente, contribuiu para a ruptura das relações diplomáticas entre Havana e Washington, deixando assim, uma abertura para a sovietização do povo.

Relembre-se que o último voo norte-americano resultou no avião espião Lockheed U-2 que fora abatido em plena crise dos mísseis de Cuba no Sábado negro de 27 de Outubro de 1962, tendo infelizmente o seu piloto falecido. Acresce que a partir de 7 de Setembro do corrente ano, a American Airlines bem como outras companhias aéreas iniciarão os primeiros voos a partir da Florida rumo a Cuba com total segurança, de acordo com declarações concretizadas pelo Embaixador de Cuba em Washington, José Ramón Cabanas.

De facto, se por um lado se assiste à desovietização gradual de um país, quer de Cuba quer da Venezuela, onde a contestação alcançou as ruas de Caracas, aclamando em cartazes um referendo contra o líder Nicolás Maduro, sucessor de Hugo Chávez, por fome e miséria resultante de uma ideologia praticada que por si só faliu, por outro lado verifica-se a necessidade de uma reconexão da humanidade em substituição à decadência de sectores ideológicos incapazes de responder aos desafios do tempo presente.

Nesse sentido, talvez fosse do maior interesse nacional ir além do eterno debate de cariz ideológico entre políticas liberais e conservadoras onde se cruzam distintos posicionamentos e perspectivas de formas de governação, de valores e sobretudo da atribuição da responsabilidade no processo de tomada de decisão tal como aquando da formação de governos ou coligações. A esse título vejamos o recente e contínuo impasse em Espanha em que o vencedor Mariano Rajoy do Partido Popular, por sinal, sem maioria absoluta, com terceiras eleições marcadas para Dezembro e sem garantias, prejudicando efectivamente o reino quer internamente quer externamente, aguardando apenas que resista financeiramente.

Toda esta conjuntura internacional, desde as mudanças ideológicas à incapacidade de formar governos, tal como mortes de inocentes, de crianças a idosos em batalhas e praias turísticas, relembrando as recentes declarações do candidato presidencial Donald Trump, na sua recente deslocação ao México ao estimular a construção de um muro que separe os dois países, sendo este pago a 100% pelos próprios contribuintes mexicanos e não norte-americanos, tendo como desiderato, em nome da migração, a expulsão de todos aqueles que não se encontrem sob a regulamentação necessária logo nas primeiras horas à frente da potência hegemónica.

Estes discursos de captação fácil de eleitorado anunciam que a política não é baseada em torno de argumentos, ao contrário o objectivo é revelador e claro no tocante a derrotar e humilhar publicamente os adversários, utilizando todos os recursos possíveis e imaginários sejam decadentes ou sejam a roçar a ilegalidade. O único país do mundo a destacar-se nesta matéria dos restantes tem sido o Canadá, onde o seu líder, Justin Trudeau, do Partido Liberal, filho do ex-primeiro-ministro Pierre Trudeau, caminha precisamente em posição contrária aceitando a diferença do outro numa campanha assente em convergências e não em divergências domésticas, defendendo o interesse nacional canadiano que consiste abertamente na assimilação de identidades políticas e culturais, revigorando simultaneamente a identidade nacional canadiana.

Num mundo globalizado, no qual todos nós completamos a esfera armilar, reduzindo os discursos políticos ao nada, onde tão-somente se verificam ataques pessoais geradores de efeitos contrários no corpo eleitoral onde a violência termina por reinar em detrimento da vida nacional dada a importância do homem em compreender o tempo que passa e não o seu contrário como preconizava Dante Alighieri.

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