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PEDRO A. SANTOS

Um estudo fidedigno indica que, com as forças actualmente ao seu dispor, a NATO seria facilmente derrotada por uma invasão russa do Báltico. A conclusão é óbvia: o Ocidente tem de reforçar quanto antes a frente Leste.

A prestigiada Rand Corporation/Research ANd Development, instituição responsável por inúmeras pesquisas e análises para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, acompanhou ao longo de 2014 e 2015 um conjunto de exercícios de guerra orientados pelo Supremo Comando das Forças Armadas dos EUA e em que participaram unidades do Exército, da Marinha, da Força Aérea e do Corpo de Fuzileiros Navais (os célebres Marines). Desse acompanhamento resultou um estudo, “Reforçar a dissuasão no flanco Leste da NATO”, que é um verdadeiro alerta vermelho para o Ocidente e, implicitamente, uma condenação da frouxa política militar de Obama.

Em todos os exercícios estudados, o cenário repetiu-se: ao fim de apenas 60 horas, as forças russas estariam às portas de Tallinn e Riga, e as forças da NATO, encurraladas, teriam de fazer a escolha entre serem aniquiladas ou renderem-se.

O cenário pode parecer saído de um filme de Hollywood, mas o certo é que o líder russo Vladimir Putin (cuja popularidade entre o seu povo continua alta, segundo relatos de especialistas entrevistados pela revista “Foreign Policy”) tem hoje ao seu alcance um alvo que já fez parte do Império Soviético, terra de uma significativa minoria russa, e que está praticamente sem defesas: em suma, pode ser uma nova Ucrânia.

Linha enfraquecida

O cenário traçado no estudo da Rand assume que a NATO tem conhecimento de movimentações agressivas russas uma semana antes do conflito. Tal seria possível, graças à rede de informação e vigilância ao serviço da organização. Uma semana, no entanto, não é suficiente para mobilizar as forças necessárias à defesa dos três países do Báltico. À data em que este artigo segue para a rotativa, a disparidade de forças nesta região é, segundo o estudo, terrivelmente preocupante.

Os russos têm 46 batalhões na fronteira, enquanto a NATO tem 17, mas o problema adensa-se ainda mais quando se compara a qualidade das forças em confronto. Os exércitos da Estónia e da Letónia são constituídos quase exclusivamente por infantaria ligeira, não motorizada, com pouca ou nenhuma artilharia ao seu dispor. Estas unidades compõem metade de toda a força da NATO na região. Mesmo com reforços ocidentais, os soldados da organização teriam pouco equipamento pesado. Entretanto, quase todos os batalhões russos possuem artilharia, sendo que dez deles são mesmo batalhões de artilharia pesada.

Do lado ocidental, as únicas forças blindadas são tanques ligeiros fornecidos pelos EUA, que não durariam muito em confronto com os tanques russos. Na realidade, não existe um único tanque pesado preparado para entrar em combate no Báltico.

A mando do Presidente Obama, o exército dos EUA não tem qualquer unidade blindada a postos na Europa. E o desinvestimento europeu nas forças armadas significa que os aliados dos EUA também não os têm. O exército alemão, que nos anos 80 chegou a ter mais de dois mil blindados pesados, está hoje reduzido a 250 unidades. Ao todo, a NATO apenas conseguiria reunir 24 tanques em tempo útil.

Em termos de apoio aéreo, embora a Força Aérea russa já não tenha os números da sua antecessora soviética, quase todos os seus aviões são de fabrico interno, e muitos deles são modernos. A Rand e os comandos militares dos EUA prevêem que, em confronto, os russos conseguiriam facilmente evitar uma total supremacia aérea da NATO. As forças terrestres russas possuem equipamento antiaéreo suficiente para evitar a sua total destruição.

60 horas

A batalha seria veloz, segundo a Rand. Geralmente esquecido, o enclave russo de Kaliningrado criaria uma dor de cabeça à NATO. Qualquer unidade de reforço teria de atravessar o estreito corredor de 110 km entre Kaliningrado e a fronteira da Bielorussia, nação alinhada com Putin. Ao passar, seria sujeita a um bombardeamento intenso de artilharia pesada, que se encontra posicionada neste território.

Mal começasse o combate, as forças da NATO teriam de resistir a um inimigo mais veloz, equipado com veículos de transporte e helicópteros, e com maior poder de fogo. Em nenhum dos cenários os russos demoraram mais de 60 horas a entrar nas capitais dos três pequenos países.

“Os jogadores da NATO, reconhecendo que tinham forças completamente inadequadas para organizar algo sequer remotamente parecido com uma defesa avançada, prefeririam usar os soldados locais numa tentativa de atrasar a força invasora, enquanto posicionavam as suas forças dentro e à volta das capitais bálticas, numa tentativa de assegurar um pequeno enclave” – descreve a Rand, sintetizando as várias tácticas seguidas pelos generais convidados para a simulação.

Durante este período, a NATO usaria as suas forças aéreas para tentar destruir as colunas russas, mas com pouco sucesso: os aviões aliados teriam de derrotar os caças russos, e ainda de enfrentar as defesas anti-aéreas no terreno. Não conseguiria atrasar de forma significativa o avanço russo, sendo que os técnicos notam que a batalha acaba sempre como “um desastre” para a NATO, visto que as forças russas “eliminaram ou ultrapassaram toda a resistência” numa questão de horas, lançando sempre o cerco às cidades num mínimo de 36 horas, e no máximo de 60.

Chegados a esta fase, os generais teriam de fazer uma fatídica decisão: prefeririam uma última batalha desesperada nas três capitais, com grande número de baixas civis? A única alternativa seria a rendição. Continuar a batalha nesse momento serviria apenas para salvaguardar a honra dos militares em questão. O resgate seria impossível; e uma contra-ofensiva demoraria meses a ser colocada em marcha.

Entre a espada e os russos

As fracas sanções aplicadas à Rússia, bem como a falta de resposta à invasão e anexação da Crimeia, talvez levem Putin a considerar que vale a pena invadir. Mas não a qualquer custo. No cenário traçado pela Rand, o objectivo de guerra da Rússia seria uma invasão-relâmpago, a destruição rápida das forças da NATO e o estabelecimento de linhas de defesa nos países do Báltico, entretanto anexados à “Mãe-Russia”. Putin deixaria a NATO com poucas opções, todas elas más.

Uma opção passaria pela declaração de guerra total, o que incluiria um conflito nuclear. Os entrevistados pela Rand, no entanto, têm fortes dúvidas de que os “Estados Unidos estivessem dispostos a sacrificar Nova York por causa de Riga” ou que os europeus aceitassem “ver o seu continente transformado num campo de batalha nuclear”. Os dois cenários mais prováveis incluem uma contra-ofensiva táctica nos países do Báltico, ou então a concessão da vitória russa.

Um contra-ataque demoraria meses a preparar, e durante esse período Putin poderia testar a força de vontade ocidental. Tendo em conta o caos instalado na União Europeia e o facto de vários dos Estados-membros incluírem Governos que admiram abertamente Putin, no fim poderia não haver um acordo sobre como avançar, e a NATO aceitaria a conquista dos países Bálticos.

Cenários são cenários, mas a falha estratégica existe. Putin já mostrou ser capaz de agarrar oportunidades quando elas lhe são apresentadas, e a NATO está a entregar-lhe os países bálticos de bandeja.

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