Será a Rússia uma potência a abater?

Será a Rússia uma potência a abater?

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soares martinez - CARA copy

Um longo currículo sempre me situou, bem ou mal, entre os mais humildes, mas decididos, adversários da Rússia, ou, melhor, da URSS, pois pelos russos sempre me senti ligado por simpatia e alguma compreensão, que me viria da sua literatura, despida de reservas que me suscitariam os autores mais consagrados, cujo contacto me foi facultado por traduções fiáveis, em línguas que me eram acessíveis.

Essa compreensão foi acrescida quando me debrucei sobre a história das guerras do século XX e da própria implantação do regime soviético. Mas a minha condição de adversário da URSS manteve-se. Vinha já daquele tempo em que muitos contemporâneos meus, depois fidelíssimos aos dogmas democráticos, ainda viviam na adoração do bolchevismo e dos seus chefes, porquanto ainda não lhes tinha sido dado conhecimento das violências soviéticas. Talvez já então lessem mal e pensassem pior.

Quanto a mim, a persistente posição adversa provinha apenas, ou fundamentalmente, da circunstância de a política soviética ser ostensivamente contrária aos interesses portugueses, de todos os portugueses, e à própria integralidade nacional.

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Prossegui nesses trilhos. E, pouco tinha passado dos vinte anos de idade, em 1949, quando fui colocado num ‘bunker’, erguido no parque do Palácio das Necessidades, onde tinham sido instalados os serviços do Pacto do Atlântico Norte – OTAN ou NATO – organização defensiva então claramente definida pela aliança de numerosas potências e o propósito de proteger a referida zona geográfica contra as investidas russas, que muito se temiam. Nem excluo que o ambiente ali vivido tenha acerado a minha atitude anti-soviética. E o temor colectivo dos russos e dos seus acólitos também.

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Plano Soviético para a Invasão da Europa Ocidental

Tanto se temiam, mesmo a níveis cimeiros de responsabilidades, que, no pressuposto das hostilidades russas, se previa que a resistência, na linha do Reno como na do Loire, fosse apenas simbólica, ou retardadora, programando-se continuada, indefinida, nas montanhas pirenaicas, embora sem excluir que o Governo português, aqueles serviços da NATO e outros mais tivessem de instalar-se nos Açores. Era a Guerra, que acabou por manter-se relativamente fria e se estava travando pela hegemonia dos Estados Unidos, que procuravam repartir os respectivos encargos por diversos países, também interessados em deter os russos. E agora, por vezes, recordando esses tempos, dou comigo a pensar se teria sido possível confiar numa defesa indefinida, na linha dos Pirenéus, no caso de a Guerra Civil de Espanha ter decorrido em termos diversos.

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A Guerra dita fria prolongou-se no tempo. E houve momentos em que receei, de novo, o sucesso dos russos. Apenas porque eles, além de não terem deixado de saber História, podiam, e podem, por eles e por outros, dispor de infantarias, sem as quais, quando a capacidade de fogo não é suficientemente intimidativa, não há guerras vitoriosas. Nem sequer as frias, que sempre hão-de contar com bases suficientes para poisar a sua mesma frialdade.

 

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Os tempos mudaram. E quando o regime soviético ruiu, de harmonia com as promessas de Fátima, logo de 1917, e as preces fervorosas de muitos, através do brutal século XX, já me pareceu preocupante que aquele ruir tenha acompanhado e, para mais, em simultaneidade, ou quase, profundas amputações do império moscovita e grandes humilhações para os russos. Lembrei-me de todas as trágicas infelicidades dos tratados de paz de 1919 e das amputações já então sofridas pela Rússia. Lembrei-me de que as injustiças sofridas, nesse tempo, pela Alemanha e pela Rússia, explicam o pacto germano-soviético de 1939, sem o qual não teria podido iniciar- -se a pavorosa e apavorante Segunda Guerra Mundial.

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Claro que se a felicidade integral dos povos reside na formação de uma federação universal e numa única soberania, regida por Washington; se a situação política e militar dos Estados Unidos é amplamente folgada, em relação aos seus encargos e às suas ambições; se não há ameaças e perigos de maior que ponham em risco todo o debilitado Ocidente; se os russos se opõem à paz democrática e benéfica oferecida pelo “Tio Sam”; se a Rússia não tem qualquer papel a desempenhar relativamente ao equilíbrio do Leste europeu, ou da vas tíssima Ásia, sem esquecer a complexa herança do Império otomano, então

O fim do império soviético deixou os EUA como superpotência dominante do planeta...
O fim do império soviético deixou os EUA como superpotência dominante do planeta…

possivelmente, está tudo certo. A Rússia e muitos outros terão de submeter-se. Mas será de ponderar a multiplicidade dos “ses” condicionantes.

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Talvez convenha lembrar, quando a História, remota e próxima, anda tão esquecida, sobretudo pela omissão de traços fundamentais, que o povo russo, e outros seus limítrofes, não podem ser responsabilizados por múltiplos desastres que os atingiram, com particular dureza, durante todo o século XX. A começar pela Guerra iniciada em 1914, só possível pelas promessas miríficas que Paris e Londres fizeram ao Czar Nicolau. Nem pelo apoio decisivo que a Alemanha imperial prestou a Lenine e aos seus companheiros, cautelosamente transportados, no seu vagão blindado, com ampla largueza de meios, desde Zurique até à Finlândia. Nem pela implantação do regime soviético, para o qual também a França e a Inglaterra contribuíram, por omissões e por acções, umas e outras ditadas por poderosos grupos económicos, dominados por preocupações capitalistas de lucros económicos, alheias às pátrias. Nem o povo russo pode ser responsabilizado pela sua própria tragédia centenária, que resultou, em larga medida, desde Pedro o Grande, da imitação de soluções ocidentais, que não se ajustavam à heterogeneidade, étnica, religiosa, cultural, daquele imenso império.

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Atribui-se a Clemenceau, um dos grandes responsáveis dos erros, ou crimes, de 1919, o dito segundo o qual “a guerra é demasiado séria para ser confiada a militares”. É velha pecha jacobina a má vontade aos soldados de profissão e vocação. Mas talvez àquele dito possa ser reconhecido algum fundamento, na actualidade acrescido pelas guerras em que avultam as insídias 9Bdo terrorismo e das guerrilhas urbanas. Realmente essas guerras só poderão ser ganhas através das lutas em defesa da família, da dignidade das escolas, da prevenção policial e da reforma completa da legislação repressiva e dos sistemas punitivos.

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A nova, ou novíssima Rússia, assim como muitos outros Estados do Leste europeu, no decurso das últimas dezenas de anos, têm dado exemplos magníficos de capacidade de retorno, de reconstituição, na fidelidade a si próprios, à sua fé cristã, às suas tradições nacionais, à sua própria identidade, nalguns casos antes mantida através da heterogeneidade austro-húngara. Mereceriam respeito, quando não merecessem a maior admiração pela sua efectiva resistência aos factores adversos.

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O Mundo precisa deles. E eles precisam de todos os outros, em termos de globalização mundial, económica e política, mas que não poderá confundir-se com qualquer forma de subordinação. Porque o que de melhor saberão oferecer será a sua própria independência, as suas próprias particularidades. Aqueles povos, herdeiros legítimos de altas culturas e civilizações, não precisam de ser colonizados para se integrarem, em inteira dignidade, num plano internacional cioso da paz, que há-de depender do respeito de todos e de cada um. Não precisarão de adquirir uma cidadania universal. Nem mesmo quando corresponda, formalmente, aos ideais de liberdade e de democracia correspondentes ao teor de vida norte-americano. O “pronto a vestir” não assenta bem à integridade das nações. Nem às exigências da paz.

Cartoon do século XIX onde os EUA "ensinam" outros povos...
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