diabo

Alexis Tsipras enganou-se na carreira: teria dado um excelente actor dramático, mas escolheu usar todo um país como o seu palco. Prometeu o fim da austeridade, apenas para aplicar mais austeridade. Convocou um referendo apenas para não cumprir a vontade da população. E agora, em mais um acto de puro drama, demite-se, sabendo bem que será reeleito, mas exigindo ao seu país o custo de mais um acto eleitoral, o terceiro em sete meses. Um autêntico teatrinho pelintra – para não lhe chamarmos circo.

Alexis Tsipras foi o primeiro radical de esquerda do Ocidente actual a chegar ao poder. Ganhou-o prometendo mundos e fantasias, e mesmo depois de estar no poleiro continuou a querer governar num mundo de fantasia.

Os personagens desta tragicomédia são coloridas e certamente entretêm, especialmente o mercuriano Varoufakis, o homem que insultou líderes mundiais, gravou reuniões privadas e ainda queria fazer pirataria informática às contas bancárias dos cidadãos. Vestido com os seus casacos das mais caras marcas inglesas, adornados com espampanantes peças de alta costura, montado na sua mota “revolucionária”, merecia certamente o titulo de “socialista champagne” que os jornais lhe deram.

Ajuda, claro, que a sua mulher, Danae Stratou, seja herdeira de uma vasta fortuna, tendo nascido numa das famílias que o antigo patrão do marido descreve como “oligarcas”. Varoufakis foi durante meses um dos protagonistas desta peça. Foi apresentado como o homem que ia derrotar os malvados dos credores, que iriam finalmente reconhecer os seus erros e despejar ainda mais dinheiro na Grécia e com ainda menos garantias. A sua vontade iria triunfar contra os factos.

Nas palavras de um burocrata em Bruxelas: “Eles estão a viver na Terra do Nunca”.

Acto um: Varoufakis contra o euro-Golias

No momento da vitória eleitoral do Syriza, gritava-se “e agora tomamos Berlim”, em referência a uma das canções de Leonard Cohen. Tsipras, no entanto, não começou por ir a Berlim. Embarcou, sim, num périplo pan-europeu para reunir a “esquerda” à sua volta. A esquerda disse não. Matteo Renzi, primeiro-ministro de Itália, foi amável ao dizer que simpatizava com Tsipras, mas não lhe deu qualquer apoio, enquanto no palácio do Eliseu um presidente Hollande cercado o recebeu cheio de receio. Falhados os primeiros planos, decidiu-se criar uma narrativa épica: a pequena Grécia contra o poderoso Golias de Bruxelas e do FMI. Tentou-se disfarçar a tentativa de calote afirmando que era uma enorme luta do bem contra o mal. Tentou-se disfarçar o facto de que milhões de contribuintes pela Europa fora iam arcar com os resultados da irresponsabilidade da esquerda radical. Mas nesta história de princesas oligarcas, reis populistas e cavaleiros das finanças havia um problema: o mundo não é um lugar encantado, e os credores disseram não, não, não e não.

O tempo começou a escassear. Tsipras não só recontratou todos os funcionários públicos dispensados, mas ainda aumentou o seu número para mais de um milhão. Isto num país de onze milhões. O dinheiro (dos outros) começou a não dar para tudo.

Enquanto Varoufakis vociferava pela Europa, Atenas ficou sem dinheiro para pagar aos seus fornecedores. A Alemanha ia ceder, garantia Varoufakis, e os gregos tratavam de levantar milhares de milhões de euros dos bancos. No fim, Varoufakis teve de sair, pois Tsipras precisava mesmo de que alguém lhe pagasse as contas: os bancos já estavam encerrados, os levantamentos limitados, as contas por pagar, e a Europa não mostrava sinal de ceder.

E finalmente, à ultima da hora, os chefes de governo exaustos da Europa apresentaram finalmente um acordo a um Tsipras que… prontamente decidiu que o iria referendar, e que iria fazer campanha pelo ‘não’.

Acto dois: Oxi! Oxi! Oxi!

Os Media portugueses mais uma vez se deslumbraram com o ‘show’ da esquerda radical. Já em Janeiro os jornais tinham noticiado a vitória de Tsipras quase como o regresso de Jesus à Terra, enquanto a vitória do conservador britânico David Cameron, por uma margem ainda maior de votos, foi quase sujeita a desprezo. Em Portugal, poucos órgãos de comunicação se lembraram de que a Grécia bloqueou em 1985 a nossa entrada na UE até receber um bruto cheque. Este jornal foi um deles.

Mas a festa foi mesmo bonita, “pá”. Imagens de raparigas em calções diminutos com bandeiras da Grécia e do Syriza encheram os nossos canais de televisão. Velhos trabalhadores e jovens socialistas tinham, finalmente, conquistado o dragão germânico e os pérfidos inimigos de sempre: o centro-direita, os moderados, os liberais, os racionais. Foi um ‘oxi’ que correu mundo, e Tsipras foi elevado ao estatuto de herói do povo.

Os ‘oxis’ da nossa praça deliraram. Até a bandeira da Grécia levaram para a nossa Assembleia, e Tavares, Drago a Companhia limitada ameaçaram: “Faremos pressão, dentro e fora de Portugal, para que o Governo de Portugal mude de posição — ou para que Portugal mude de governo”. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas certamente ficaram estarrecidos com os pouco mais de 4% de intenções de voto que estes grupelhos conseguem reunir…

Veio tudo abaixo quando Tsipras decidiu que, afinal, ia mesmo ter de negociar com a EU, aceitar toda a austeridade que lhe era imposta (em muito maior escala por culpa do referendo) e privatizar o que tinha a privatizar. Catorze aeroportos do país já foram vendidos, bem como o porto do Pireu. Fica a dúvida: para quê toda esta confusão, se não apenas pelo prazer do teatro?

Acto três: eleições sem travões

Alexis Tsipras marca estas eleições legislativas sabendo muito bem que a Grécia vai reelegê-lo. À boa moda das purgas soviéticas, o objectivo destas eleições é única e exclusivamente esmagar toda a oposição dentro do seu partido, visando uma maioria absoluta que lhe permita governar sozinho. O Syriza desmantelou-se, e alguns dos seus elementos mais radicais formaram um novo partido, o “Unidade Popular”. Até o seu paladino de outros tempos, Varoufakis, veio a público dizer que o governo de Tsipras “traiu o povo grego”. O discurso beligerante não mudou, afirmando o antigo ministro das Finanças que “tratou-se de uma guerra financeira. Hoje vocês não precisam de veículos blindados para derrotar alguém. Têm os vossos bancos”.

O povo, esse, mesmo depois de todo o desastre que sofreu às mãos da esquerda radical, parece mesmo não aprender a lição. Nas ruas de Atenas as pessoas dizem que “ao menos ele ainda luta por nós”, isto apesar de os resultados práticos serem ainda mais duros do que os que foram alcançados pelo centro-direita. Ninguém parece ficar incomodado com o enorme gasto de três actos eleitorais a nível nacional num só ano, e todos por capricho do radicalismo de esquerda.

Mas, caso vença com maioria absoluta, Tsipras passa a ser um elemento completamente imprevisível, tal como já revelou ser com o dito referendo. Irá sequer implementar algumas das reformas pedidas pelos credores? Conseguirá conduzir um partido anti-capitalismo a aplicar medidas que favorecem o crescimento? Será este o último resgate da Grécia?

Tudo leva a querer que este teatrinho ainda vai no primeiro acto…

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