Marco António Baptista Martins

Professor de Relações Internacionais da Universidade de Évora

A recente visita do Presidente norte-americano, Barack Obama, a Hiroshima reveste-se de um significado da maior importância no quadro da agenda internacional.

Recorde-se a decisão do então Presidente Harry Truman – assumindo o leme da nação após a morte de Franklin Roosevelt a 12 de Abril de 1945 –ao dar a fatídica ordem ao piloto Tenente-Coronel Paul Warfield Tibbets do bombardeiro B-29, Enola Gay, no dia 6 de Agosto de 1945, precisamente às 8h15m, de largar a bomba atómica “Little Boy” que provocará cerca de 140.000 mortes, 80.000 imediatas e as restantes pelos efeitos temporais das radiações, para além da destruição de toda uma cidade para salvar milhares ou até um milhão de mortes sangrentas de soldados norte-americanos que teria lugar caso se optasse por uma invasão terrestre.

A mensagem seguiu em direcção ao campo ideológico da União Soviética de que os Estados Unidos, caso inevitável, conduziria categoricamente ao campo de análoga resolução. Relembremos que os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial por terem sido alvo de um ataque à base militar de Pearl Harbor em 7 de Dezembro de 1941.

Essa sentença, bem como o número de mortes em si, podem hoje não ser representativos para as gerações presentes e mais jovens, que porventura nunca conheceram a guerra no sentido vivido pelos anteriores líderes ou povos, quer em território europeu quer ao nível mundial. Mas vêm revelar o que uma bomba logra destruir e engendrar, particularmente duas emoções: a de medo da sociedade civil e a de coragem de um decisor político ao ser capaz, com sentido de Estado, de dar friamente a ordem àquele que extinguirá inocentes em segundos e em anos por doenças provocadas por irradiações.

Torna-se patente que a deslocação de Barack Obama, mantendo na expectativa os japoneses, se daria ou não lugar a um eventual pedido de perdão por tal acto, surge num momento crucial do debate em torno ao desarmamento mundial que o fez Nobel da Paz em 2009. Na agenda encontramos o acordo histórico nuclear com o Irão, realizado em Viena, Áustria, a 14 de Julho de 2015, e em curso a negociação de um novo tratado nuclear, tendo claramente por desiderato a redução substancial do arsenal e a impossibilidade de um dia um país em guerra ou conflito recorrer a esse recurso.

De facto, enquanto que durante todo o período de Guerra Fria e de Coexistência Pacífica se procurava o sentimento de um equilíbrio da balança de poderes, a ameaça latente da utilização, ou não, consiste nos dias de hoje, por um lado, por parte de países como a Coreia do Norte, onde a única certeza radica na incerteza emanada pelo líder supremo e considerado a figura paterna, Kim Jong-un, e, por outro lado, pela possibilidade real de um grupo terrorista conseguir adquirir esse tipo de armamento e servir-se sem qualquer hesitação em nome da causa.

Todavia, a mensagem de Obama, primeiro na base americana de Iwakuni e segundo na sua visita a Hiroshima, não expressa qualquer pedido de perdão, dado não fazer qualquer sentido, como o próprio referiu, visto que numa guerra os líderes por vezes são levados a tomar decisões difíceis cujas consequências se revestem da sua imprevisibilidade. Contudo, anotemos a particularidade de que, tal como os alemães na altura do III Reich desconheciam o que se passava nos campos de concentração e de extermínio, a população japonesa ignorava os detalhes dos crimes de guerra praticados pelas forças militares na guerra com a China e durante a Guerra do Pacífico.

É evidente que a utilização da bomba atómica serviu para provocar a rendição das forças militares japonesas, abrindo uma nova era, a do nuclear. Se as sondagens levadas a cabo em 1945 registaram um apoio tácito por parte da população (mais de 85% deram a sua aprovação), hoje tal realidade seria bem diferente, não só por contextos epocais distintos, mas também porque a América mudou, nomeadamente no âmbito geracional da sociedade. No ano de 2015, a sondagem realizada pelo Pew Research Center Poll revela que, comparativamente, apenas 56% continuam a dar o seu consentimento. Talvez seja geracional esta mudança, ou abrange igualmente uma compreensão por parte da sociedade civil ao considerar o Japão como um aliado estratégico dos Estados Unidos na região face à Coreia do Norte e à República Popular da China. Mas, em caso de os Estados Unidos serem atacados, os americanos tendem a aprovar a utilização das suas forças.

Portanto, o discurso de Barack Obama do dia 27 de Maio de 2016, em Hiroshima, ao lado do primeiro-ministro Shinzo Abe, destaca que a humanidade possui a exclusiva capacidade de se autodestruir e que Hiroshima e Nagasaki constituem a evidência ímpar de como o ser humano pode optar, numa decisão, por exterminar o mundo em que vive.

Assim, Barack Obama entendeu, na qualidade de líder mundial e tendo em consideração o contexto epocal, 71 anos volvidos, abrir a porta neste seu gesto de paz à necessidade imperativa de o mundo, e sobretudo a Organização das Nações Unidas, encetar comportamentos concretos que levem a acções reais no terreno em nome daquilo que nos una e não nos separe, à semelhança de “Hiroshima meu amor”, de Marguerite Duras, para não apagar a realidade de um passado que servirá de unidade na nossa memória futura.