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Por alguma razão misteriosa, a imprensa “bem pensante” assumiu como uma verdade absoluta que o povo grego vai renovar o mandado do Syriza no dia 20 de Setembro. As sondagens discordam. E a pergunta impõe-se: caso Tsipras seja derrotado, o que acontece à esquerda que aplaudiu de pé a sua eleição?

As sondagens valem o que valem, mas podem ser um poderoso indicador da direcção para que se inclina a vontade do eleitorado. Antes de Agosto, a Coligação das Esquerdas Radicais, conhecida comummente no resto do mundo pela sua sigla em grego, Syriza, parecia imbatível, fizesse os disparates que fizesse.

A última sondagem feita antes do período das férias dava 41,2 por cento das intenções de voto aos radicais de esquerda. Tendo em conta o “peregrino” sistema eleitoral grego, segundo o qual o partido com mais votos recebe 50 lugares-extra no parlamento, o Syriza poderia alcançar entre 159 e 170 dos deputados, uma enorme maioria absoluta num parlamento de 300 assentos.

Mas parece que os gregos voltaram de férias com as ideias refrescadas, e não estão dispostos a deixar passar os vários disparates e reviravoltas teatrais que têm sido o “novo normal” da governação grega. O partido conservador Nova Democracia ganhou pontos ao permitir a passagem no parlamento do novo pacote de resgate ao país. Podia não o ter feito, causando a mais que certa queda imediata do governo radical.

Face a uma nação praticamente falida, descredibilizada e sem dinheiro nas caixas multibanco, Alexis Tsipras andava a jogar “poker” sem cartas com os gigantes europeus, no processo lançando a Grécia outra vez na recessão. Os seus adversários mostraram ter um pouco mais de sentido de Estado.

Vangelis Meimarakis, um ateniense de 61 anos, concorre agora para ser o próximo primeiro-ministro da Grécia, uma alternativa moderada ao radicalismo do errático Tsipras e do histriónico Varoufakis. Com um estilo mais descontraído e informal do que Antonis Samaras, a sua opinião sobre Tsipras e a sua governação é rápida e simples: “O rapaz tem de se recompor. Ele é um manhoso, sempre com um sorriso na cara… A Grécia não merece ter um primeiro-ministro destes”.

As primeiras sondagens após o fim da “silly season” mostram que o Nova Democracia pode mesmo derrotar o Syriza e devolver a Grécia à estabilidade, uns meros sete meses após a “histórica eleição” de Tsipras que encheu as capas dos nossos jornais. A esquerda, que embarcou num discurso triunfalista, pode agora ver-se em maus lençóis.

Comício da juventude comunista grega
Comício da juventude comunista grega

“Outubro vermelho” está a correr mal

“A vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha”. Esta é talvez uma das frases de António Costa que o próprio mais gostaria que desaparecesse da memória colectiva dos portugueses. Infelizmente para o líder socialista, já ficou patente que a memória do eleitorado é hoje muito mais “longa” do que em eleições anteriores.

Cá em Portugal, tal como na Grécia, assumia-se que a “a luta continua, mas a vitória é certa” e que Passos Coelho estava a condenado a ser o Kerensky português, derrubado por um poderoso movimento de esquerda, liderado pelo PS, e com o apoio de “grandes poderes” como… o “Livre”, a coligação “Agir” ou (não esqueçamos) a delegação nacional do Syriza, o Bloco de Esquerda.

Estes três sustentáculos do “Outubro vermelho (com um bocadinho de cor de rosa)” de Costa sonham pelo menos alcançar, distribuídos entre todos eles, uns 10 assentos na Assembleia da República. Contudo, segundo as últimas sondagens, o Bloco luta por não ficar reduzido a 5 lugares, que é o número de assentos a que terá direito caso as intenções de voto não mudem. Ainda não é o partido do táxi, mas caminha para ser o partido do monovolume. E até este partido, que chegou a levar bandeiras da Grécia para o vetusto palácio de São Bento , se distanciou de Tsipras: o “partido-irmão” não vai contar com a presença de Catarina Martins ou de Marisa Matias na campanha eleitoral.

É hoje consensual, mesmo entre os socialistas, que a imprudente “colagem” de Costa ao Syriza foi um erro crasso. Um partido cujo slogan é “confiança” acha que um partido que defraudou a confiança dos eleitores é “um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha”.

Caso Tsipras perca, a situação para a esquerda socialista torna-se extremamente difícil, visto que o eleitorado grego teria rejeitado o porta-estandarte da campanha anti-austeridade a uns meros 14 dias das legislativas em Portugal.

Neste momento, o Partido Socialista, segundo o último estudo da Eurosondagem, não consegue “descolar” dos 36 por cento das intenções voto, o que o coloca em empate técnico com a coligação de centro-direita. Para já não contabilizar os habituais votos da “direita envergonhada” que, como se viu nas últimas eleições no Reino Unido e sistematicamente se tem visto na votação do CDS em Portugal, diz que vota à esquerda e depois põe a cruzinha um pouco mais à direita…

“Poker” perigoso

Para já, pelos vistos, não s apenas Passos Coelho e Paulo Portas a ganhar com esta “tragédia grega”. Tudo indica que o PCP poderia conseguir alcançar mais de 20 assentos no Parlamento. Os comunistas portugueses nunca se aproximaram muito de Tsipras, provavelmente por o Syriza ser trotskista, ao passo que o PCP tem claras raízes estalinistas – uma divisão no mundo socialista que quase lembra a divisão entre sunitas e xiitas no mundo muçulmano. Mas um bom resultado do PCP pode ser bastante nocivo para Costa, visto que certamente roubará eleitorado à ala mais esquerdista do PS. Uma coligação com o PCP é improvável, tendo em conta a história dos dois partidos desde 1974.

Ainda pior para o PS é o facto de estas sondagens poderem já indiciar a vitória da coligação. “Sondagens voltam a dar empate técnico entre PS e PSD”, escrevia a imprensa portuguesa poucos dias antes das legislativas de 2011, que a coligação de centro-direita acabou por vencer decisivamente. Para além do já referido “síndrome do conservador envergonhado” (uma defesa compreensível de quem vota à direita mas não o admite, devido à pressão mediática e social da “minoria barulhenta”), o estudo da Eurosondagem também revela um dado novo, e preocupante para Costa: Pedro Passos Coelho já não se encontra em terreno negativo em termos de popularidade.

A derrota de Alexis Tsipras, caso aconteça, será plena culpa da “luta contra a austeridade”, que se revelou uma aposta derrotada. Mas o que aconteceu na Grécia nos últimos meses é de extrema importância: mostra o que poderia ter sucedido em Portugal com um governo apostado na irresponsabilidade fácil.

Os radicais foram obrigados a mostrar as suas cartas – e afinal era tudo “bluff”. Só é pena que, nesse perigoso ‘poker’, tenham andado a jogar com as nossas vidas.

Afinal não “podemos”

Na tradição do jornalismo que favorece os radicais “chiques”, um estilo que se tornou moda na Europa, o partido radical de esquerda espanhol, o PODEMOS, já era dado como o mais que certo vencedor das eleições no país vizinho. Pois, mas não.

Também em Espanha o fracasso da política do Syriza, bem como o sofrimento que essa política significou para o povo grego, foi um sinal de alarme que levou os espanhóis a repensarem se Pablo Iglesias Turrión seria mesmo alguém em quem confiavam para governar o país. Se em Abril o PODEMOS conseguia algo como 22 por cento das intenções de voto, agora em Setembro caiu para uma margem de 12 a 14 por cento, e continua em queda.

para caixa 1

Outro movimento independente, mas este de centro-direita (ou seja, ignorado pelos Media), o “Ciudadanos”, aproxima-se rapidamente da popularidade dos radicais do PODEMOS. Mariano Rajoy e o seu Partido Popular podem sorrir, pois encaminham-se para nova vitória. Algumas sondagens já dão mais de 30 por cento dos votos ao PP. Pelos vistos, a “revolução” também vai branda no país nosso vizinho.

Socialismo sai da gaveta no Reino Unido

David Cameron é um homem com sorte nos adversários que lhe couberam em sorte. Em primeiro lugar enfrentou Gordon Brown, um político impopular que nunca tinha ganho umas eleições e que vivia à sombra de Tony Blair, o popular primeiro-ministro britânico que venceu três sufrágios legislativos consecutivos. Depois enfrentou Ed Miliband, cuja atitude “caviar” simplesmente não convenceu o eleitorado (para a história fica a sua cara de asco enquanto deixava uma esmola a um pedinte). Agora, Cameron enfrenta com um sorriso o passado marxista dos “amanhãs que cantam”, personificado por Jeremy Corbyn, um radical do Partido Trabalhista que quer (re)nacionalizar as indústrias-chave, aumentar os subsídios de tudo e mais alguma coisa e (como quem tira um coelho da cartola) equilibrar as contas públicas.

Jeremy Corbyn

Note-te que a generalidade dos economistas já carimbou o plano de Corbyn com uma série de epítetos que vão de “utopia” a “farsa”. Os apoiantes de Corbyn também dizem que querem voltar a usar o programa eleitoral das legislativas de 1983, em que era prometida a abolição imediata da Câmara dos Lordes, o abandono unilateral do arsenal nuclear do Reino Unido e a nacionalização imediata de uma fatia muito considerável da economia. A derrota foi estrondosa e o programa é hoje conhecido como “o bilhete de suicídio mais longo da história” – após os conservadores, então liderados por Margaret Thatcher, terem conquistado uma vitória estrondosa.

Mesmo assim, Corbyn é o novo líder trabalhista. Depois do desastre grego, é provável que a sua eleição vá dar ao Partido Conservador mais cinco anos no poder.