Com o “golpe de Estado” na Turquia, de repente, os europeus perceberam que também há radicais islâmicos de fato e gravata. Enquanto em Ankara prossegue a “purga”, Erdogan parece querer espreitar a Norte, aliando-se a Putin. 

A purga continua e não vou perder tempo com detalhes, para além da obrigatória contabilidade, aliás permanentemente em mudança. Mais de dois mil juízes, seis mil soldados, 100 generais, 15 mil polícias e 1.500 académicos presos. E ainda não acabou e já há hordas de iluminados a entrarem pelas livrarias adentro e a destruírem tudo, enquanto os académicos estão todos proibidos de viajar para o estrangeiro!

Mas o que me parece mais preocupante ainda são os sinais que vêm de Ankara, nomeadamente com o debate sobre a reintrodução da pena de morte e com as imagens do tratamento que se está a dar aos prisioneiros, que mais se assemelham a outras que já vimos nos regimes de Saddam Hussein, Khaddafi, Assad Pai e outros.

Por outro lado, sendo este um regime que já demonstrou afinco em impedir a publicação de certas paródias caricaturais cujo tema é sempre o Presidente Erdogan, não tem havido notícias sobre nenhuma preocupação com a difusão de fotos de soldados de joelhos em tronco nu e mãos amarradas atrás das costas e outra de um cidadão justiceiro a chicotear um grupo de soldados golpistas, na própria noite da intentona.

Juntando isto à ameaça sobre a reintrodução da pena de morte no país, aliás abolida em 2002 por exigência da própria União Europeia (EU), parece-me que a Turquia está seriamente a ponderar uma mudança de azimute diplomático.

Em plena Primavera Árabe, 2011/12, lembro-me de ver uma entrevista que o então Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) turco, Ahmet Davutoglu, concedeu a Marwan Bishara da Aljazeera. Duas notas sobre a mesma.

A primeira: o programa chamava-se, e ainda se chama, “Empire” e Bishara começa dizendo “Minister, welcome to Empire”, e recebe como resposta um “welcome to the capital of The Empire!”. Estavam em Istambul.

A segunda foi a resposta de Davutoglu à dúvida sobre se a Turquia continuaria interessada em aderir à União Europeia, já que na altura estava concentrada no norte de África, num regresso ao Império perdido, como influente mediador de Rabat ao Cairo. O então MNE, professor de História, respondeu da seguinte forma: “a posição da Turquia será a posição clássica de sempre, é a posição de Janus (e dispõe ambas as mãos em leque), com um olhar a Oriente e outro a Ocidente”. Erdogan, parece querer agora dar destino diferente a um dos olhares e espreitar a Norte, aliando-se a Putin.

Outro aspecto, é o facto de este também ser o momento ideal para se distanciar da concorrência saudita na liderança do Islão sunita e optar por práticas diferentes que a colocassem num patamar de dignidade e não ao nível da cabeça-da-serpente. Mas não, há uma espécie de Revolução Cultural Turca em curso, que está a trazer ao de cima o pior e não o contrário, começando pela despreocupação quanto aos efeitos que estas imagens estão a provocar. De repente, os europeus perceberam que também há radicais islâmicos de fato e gravata!

Aliança com a Rússia

Numa aliança Turquia-Rússia haveria vantagens para ambos os lados e uma enorme desvantagem para a NATO.

A Rússia ganharia um aliado de peso, o maior exército NATO na Europa e vingaria todas as perdas que teve do antigo Pacto de Varsóvia para esta organização, casos da Hungria, República Checa e Polónia. Não esquecer a Geórgia, que se viu invadida pela Rússia em 2008, por ter a sua entrada para a Aliança Atlântica marcada para 2009. Neste aspecto, a vantagem é mútua, já que a Turquia não ‘chateará’ os russos com as questões da Abkhazia e da Ossétia do Sul, na Geórgia, bem como os russos não ‘chatearão’ os turcos na gestão do dossier curdo turco.

A Rússia e a Turquia dominariam assim o Mar Negro e a Rússia teria liberdade de manobra para controlar e dominar ainda melhor a Ucrânia, bem como acesso privilegiado ao Mediterrâneo. Finalmente águas quentes e seguras!

A Rússia conseguiria ainda trocar as voltas à Aliança Atlântica, como nunca o conseguiu, já que anularia o sistema de defesa anti-míssil NATO. Os mísseis estão estacionados na Roménia, mas o radar, essencial para guiar os projécteis, encontra-se em Malatya, na Turquia.

Os americanos teriam de se retirar da base de Incirlik, fundamental no combate ao Estado Islâmico, e Putin deixaria de se preocupar com o flanco Sudoeste do seu país, podendo mover entre quatro a seis Brigadas de Infantaria, que aí tem estacionadas, para outras frentes; e esta seria uma grande dor de cabeça para a NATO, colocando em alerta máximo a Polónia e os Estados do Báltico, incluindo a Finlândia e até a Suécia. A frente Leste da Europa pode receber uma investida russa e, segundo alguma informação que vai circulando à boca pequena, parece que não há dinheiro para a segurar! A este propósito, não esquecer que a Rússia invadiu a Geórgia em Agosto de 2008, quando decorriam as olimpíadas de Pequim. Só para não nos distrairmos!

Aliás, Alexandr Dugin, o politólogo preferido do novo Czar, foi de imediato para a Turquia, logo após o anúncio do golpe, onde se encontrou com vários dirigentes do AKP e ministros. Putin visitará Erdogan em Agosto próximo, pelo que os cenários devem estar todos a ser ensaiados de momento.

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