Vêm aí os russos?

Vêm aí os russos?

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“Na iminência de perder a face, Putin fez voz grossa”

Bombardeiros estratégicos russos, capazes de transportar bombas atómicas e mísseis nucleares, ameaçaram pela primeira vez o território de Portugal continental. Desta, os nossos pilotos puseram os intrusos na ordem. Mas até quando?

Pela primeira vez desde as invasões francesas, há duzentos anos, as fronteiras de Portugal Continental foram ameaçadas pela presença de um potencial inimigo em armas. Em dois dias da semana passada, quatro aviões militares russos – dois bombardeiros estratégicos Tupolev Tu-95 e dois aviões de reabastecimento Ilyushin Il-78 – penetraram no espaço aéreo cuja vigilância cabe a Portugal.

Só de lá saíram escoltados por caças F-16 da nossa Força Aérea, que descolaram prontamente da base de Monte Real para interceptar os intrusos e levaram a bom termo a sua missão.

Putin_in_Su-27-1Mas o que vieram fazer, tão perto das praias lusitanas, aviões cuja vocação é transportar bombas atómicas e servir de plataformas de mísseis armados com ogivas nucleares?

Mais do que uma reacção apressada a fazer lembrar os velhos tempos da guerra fria, importa perceber e contextualizar mais esta jogada do hábil presidente russo, Vladimir Putin.

Jogos de guerra

Acossado pelas sanções de americanos e europeus, empobrecido pela queda do preço do petróleo e na iminência – impensável para o senhor do Kremlin – de perder a face perante o seu eleitorado por ter deixado escapar entre os dedos a icónica Ucrânia, Putin encheu o peito de ar, retesou os músculos e fez voz grossa.

Que é como quem diz, o comandante supremo do ex-Exército Vermelho mandou os seus bombardeiros estratégicos e submarinos nucleares fazer “grandes manobras”, ao mesmo tempo que testava um novo míssil balístico intercontinental, o Topol-M.

Como era de esperar, o primeiro alvo das provocações russas foram os países do nordeste da Europa que se libertaram do antigo império soviético: os países bálticos Estónia, Letónia e Lituânia – onde, por sinal, também há F-16 da Força Aérea Portuguesa na primeira linha de defesa. Também a presença de um submarino russo detectado em águas suecas e perseguido pela marinha de guerra de Estocolmo pareceu um ‘remake’ de fitas antigas.

O que aconteceu de verdadeiramente novo a semana passada foi a extensão dos voos dos pilotos russos que, ao chegarem tão perto das águas portuguesas, se afoitaram muito para além das rotas dos seus habituais “jogos de guerra”.

Os complexos do Kremlin

A verdade é que a paranóia é má conselheira, pelo menos no que diz respeito à geopolítica e à geoestratégia. A reacção de Putin não pode deixar de trazer à memória o complexo de cerco do Kaiser Guilherme II, em 1914. Por outro lado, para muitos observadores, a Rússia ainda não fez o luto do fim do império soviético, tanto mais doloroso quanto posto em contraste com a expansão – política, territorial, económica – do “campo socialista” sob Estaline, Kruchev e Brejnev.

A queda do “Muro da Vergonha”, a revelação do universo concentracionário do Gulag, o reconhecimento do fracasso económico da economia planificada, a derrota na guerra fria com o colapso do Pacto de Varsóvia e o descrédito total da ideologia comunista geraram um sentimento de perda que continua a tolher a sociedade e as elites russas.

Putin é (foi?) o depositário da esperança dessas elites e dessa sociedade no renascimento da grandeza da Mãe Rússia. Perante os sinais de declínio, compreende-se melhor a sua recente demonstração de força.

Resta perguntar: até onde está ele disposto a ir. Ou melhor: até onde está o Ocidente disposto a deixá-lo chegar?

Intrusos ao pé da porta

Os aviões russos que foram interceptados pela Força Aérea Portuguesa

Tupolev_Tu-95_MarinaTupolev Tu-95

Bombardeiro estratégico alcunhado ‘Urso’ pela NATO. O modelo entrou ao serviço em 1956, mas tem sido sucessivamente modernizado. É movido por quatro motores NK-12, com turbohélices duplas contrarrotativas, conhecidas pelo alto nível de ruído que provocam. Capaz de transportar armamento nuclear, designadamente a bomba RDS-220, a “Czar Bomba”, ou os mísseis Raduga Kh-20, Kh-22, Kh-26 e Kh-55.

Russian_Air_Force_Ilyushin_Il-78M_BeltyukovIlyushin Il-78

Avião de reabastecimento designado por ‘Midas’ pela NATO. Em serviço desde 1984. Pode reabastecer até três aviões aos mesmo tempo, a uma velocidade de 1361 kg de combustível por minuto.

O filme

 51J0ZZZJYVLVêm Aí os Russos é o título de uma uma paródia aos medos da guerra fria realizada por Norman Jewison em 1966, com Alan Arkin no principal papel.

Um submarino soviético encalha junto a uma pequena localidade da costa nordeste dos EUA e os tripulantes tentam arranjar maneira de pô-lo outra vez a navegar para se irem embora. As situações cómicas sucedem-se a propósito da ignorância e do receio mútuos entre russos e americanos.

A mensagem final é um apelo humanista à coexistência pacífica.