Mais uma semana desgraçada para António Costa: quanto mais fala, mais o povo se apercebe da confusão que vai na sua “narrativa”. As sondagens confirmam um cenário impensável há três meses.

Na edição de há duas semanas, O DIABO detectava os sinais de perplexidade e desilusão nas hostes socialistas: “Costa anda um bocadinho desorientado, não anda?” – perguntávamos, ironicamente, em título.

Na última semana, o secretário-geral do PS confirmava as suspeitas ao admitir em público que Portugal está melhor do que estava em 2011, quando o PS deixou o poder ao fim de seis anos de política de esquerda.

Fugiu-lhe a boca para a verdade, como logo comentou Luís Montenegro, líder da bancada parlamentar do PSD. E o mesmo terão pensado milhões de portugueses: depois de ouvir António Costa reconhecer, por descuido, a evidência de que Portugal está melhor, que razão terá o eleitorado para lhe dar o seu voto nas eleições de Outubro próximo?

Falando perante representantes da comunidade chinesa em Portugal, e com os microfones ligados, Costa referiu-se ao estado em que a nossa economia se encontrava há quatro anos, quando os portugueses se cansaram de José Sócrates. “Muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e vencer a crise”, disse o líder do PS, mas “a verdade é que os chineses, os investidores disseram presente, vieram e deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na situação em que está, bastante diferente daquela que estava há quatro anos”.

Feiticeiro do marketing

A confissão fatal deixou rejubilantes os partidos da maioria, há muito transformados em bombo da festa por uma oposição sistematicamente destrutiva. Sem querer, Costa dava-lhes de bandeja um trunfo que, na internet, imediatamente se tornou viral.

Até já existe um toque de telemóvel com a famosa frase de Costa…

Por mais incrível que pareça, falamos do mesmo homem que se tem apresentado constantemente como única salvação para um país cuja economia se encontra aparentemente destruída pelas políticas da coligação PSD/CDS.

A mesmíssima pessoa que afirmou, com toda a aparente convicção, que o Governo “conduziu [o país] à estagnação económica e aumentou brutalmente o desemprego e os níveis de empobrecimento”.

O mesmo António Costa que, apenas dois dias antes de falar à comunidade chinesa, afirmou perante o seu partido que “esta política de austeridade fracassou: não produziu os resultados desejados e, pelo contrário, demonstra bem que contribui dia após dia para o enfraquecimento da nossa economia”.

Teria alguma coisa mudado drasticamente num par de dias? A verdade é que nada mudou: apenas surgiram, finalmente, à luz do dia as várias facetas de um político extremamente pragmático, as várias facetas de um “feiticeiro do marketing” que, pelos vistos, aprendeu bastante com o anterior “mestre”, José Sócrates, em cujo Governo serviu como segunda figura.

O factor Sócrates

“Desde o princípio, ele foi esse jovem lobo, oportunista, sem ideologia, obcecado por escalar todos os degraus até ao poder supremo” – foi assim que o próprio historiador esquerdista Fernando Rosas, por meio do jornal francês “Liberation”, descreveu o antigo mentor de Costa, José Sócrates.

Durante os quatro anos que durou a sua maioria absoluta, Sócrates foi talvez dos políticos que mais poder exerceram na História portuguesa recente.

Costa assistiu a toda esta viagem enquanto “número dois”, deixando depois a António José Seguro a amarga tarefa de enfrentar o terramoto pós-socratista.

Chegando, por fim, aquela que supôs ser a sua hora, deu uma cotovelada a Seguro e lançou-se numa espectacular operação de marketing, com a qual contava chegar ao poder da mesma forma que o seu ex-mentor: dizendo muito pouco, mas aparentando significar muito.

Em termos de conteúdo, Costa pouco tinha a dizer, com excepção de alguns chavões como “mobilizar Portugal” ou “criar confiança”, usados durante a sua campanha para a peregrina “eleição primária” realizada para “mudar de rumo”.

Mas a prisão de Sócrates baralhou as contas. O candidato a primeiro-ministro começou a ser escrutinado com muito mais atenção por parte da sociedade e da imprensa.

Não admira que quisesse eleições antecipadas, para despachar essa maçadora questão da tomada do poder. Mas o Presidente da República não lhe satisfez a vontade e Costa teve de descer à realidade.

Empate técnico

De então para cá, o discurso ziguezagueante de António Costa tem vindo a tornar-se ainda mais vago. Ao contrário dos esquerdistas radicais do Bloco, que podem dizer o que lhes vem à cabeça porque sabem que nunca ganharão uma eleição, o líder do PS está entre a espada e a parede, sem possibilidade de fazer promessas concretas.

Por um lado, não pode arrastar demasiado o discurso da moderação, inaceitável para uma boa parte das suas hostes, que pensaram ter escolhido um verdadeiro galgo de corrida para vencer as eleições em nome da esquerda e agora começam a ter as suas dúvidas.

Mas, por outro lado, também não pode radicalizar o seu discurso, sob pena de suscitar a repulsa da classe média e cair nas más graças dos mercados e dos investidores, dos quais um hipotético governo Costa precisaria.

É por isso que, num dia, o secretário-geral do PS tem de dizer uma coisa, para no outro dia dizer outra. O povo, esse, continua sem dar um voto de confiança ao edil de Lisboa, que continua a perder terreno nas sondagens para a actual maioria de Governo.

Segundo o último estudo de opinião realizado pela empresa “Eurosondagem”, em caso de concorrerem às legislativas coligados, o PSD e o CDS conseguirão obter o mesmo número de deputados do PS, cerca de 100: um empate técnico. E ainda estamos em princípios de Março…

Vassalagem à ditadura

Se as eleições se realizassem hoje e o PS obtivesse mesmo os 100 deputados admitidos na sondagem, precisaria ainda do apoio de outros 16 deputados para aspirar a formar Governo, sendo portanto forçado a fazer alianças.

Para esse casamento político, António Costa teria como alternativas o velho e relho PCP, que alcançaria cerca de 20 assentos, ou uma coligação entre o PS, o PDR de Marinho e Pinto, o Livre e o Bloco de Esquerda. Dois casamentos que prometeriam muita discórdia e violência doméstica.

Entretanto, para agravar as dificuldades nas sondagens, a estrutura interna do PS já acusa as suas primeiras brechas. Na semana que passou, um dos fundadores do partido, Alfredo Barroso, rasgou o cartão de sócio, envergonhado com aquilo a que chamou “uma enorme chinesice” de António Costa.

O militante nº 15 do PS censurou o discurso do líder do PS, considerando que “nunca [lhe] passou pela cabeça que um secretário-geral do PS se atrevesse a prestar vassalagem à ditadura comunista e neoliberal da República Popular da China”.

Costa foi forçado a enviar à pressa uma SMS a todos os militantes do partido, dando explicações que só alguns “engoliram” sem dificuldades.

De gaffe em gaffe

Francisco Assis, que concorreu contra Seguro pela liderança do Partido, aparentemente já compreendeu que o PS não pode continuar a depender somente dos truques de marketing de Costa, constatando que “o PS tem de ter um programa o mais depressa possível”.

Até Augusto Santos Silva reagiu, censurando os socialistas que pensavam que “ia ser um passeio triunfal do António Costa até às eleições legislativas”.

Enquanto não há plano, os socialistas vão tentando apagar os fogos. Mas até aqui se baralham. Enquanto António Costa confessava estar “perplexo” por pensarem que fazer oposição ao Governo o impede de “defender o país” (posicionando-se assim como “homem de Estado” que põe Portugal acima do partido), Ferro Rodrigues borrava a pintura e afirmava que Costa se enganara ao proferir “uma frase imprecisa”. Com amigos destes e com a sua própria queda para a baralhação, Costa não precisa de inimigos.

Ao longo do último fim-de-semana, nova sessão de ping-pong entre o Governo e a oposição veio confirmar a radiografia do momento. Mal Passos Coelho, em entrevista ao ‘Expresso’, abriu a porta a um eventual Governo de Bloco Central, em que o PS pudesse participar e defender as suas políticas, António Costa apressou-se a fechá-la.

Para o PS, não haverá coligações à direita – reiterou o líder, piscando o olho a uma ala esquerda ainda agastada com a “gaffe chinesa”.

De gaffe em gaffe, até à derrota final?

  • Gomes Joao

    As 50 sombras de CostaMais uma semana desgraçada para António Costa: quanto mais fala, mais o povo se apercebe da confusão que vai na sua “narrativa”. As sondagens confirmam um cenário impensável há três meses.

  • OLP

    Eu devo estar senil, mas juro que o que eu ouvi da boca do Costa, numa gravação um pouco clandestina foi: Portugal está diferente.
    Ora diferente, pode ser para melhor como pretendem os fantoches, ou, para pior como testemunhamos todos os que mesmo trabalhando, temos dificuldades em pôr comida na mesa.