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A independência de Portugal como terra livre de gente livre foi confirmada com sangue e sacrifício, pela força das armas, na batalha de Aljubarrota, na tarde de 14 de agosto de 1385. Faz sexta-feira 630 anos, um momento decisivo da nossa história mostrou aquilo de que fomos capazes quando estávamos unidos por uma vontade comum e sabíamos escolher chefes capazes e dignos de confiança.

Desde a Fundação da nacionalidade, no século XII, até à expulsão dos mouros do nosso território com a conquista definitiva do Algarve por D. Afonso III, em 1249, a prioridade estratégica dos reis de Portugal foi a Reconquista. No entanto, as ameaças hegemónicas de Castela e a política de casamentos entre a família real portuguesa e as dos outros reinos cristãos da Península Ibérica (Castela, Leão, Aragão e Navarra), estiveram a ponto de levar o nosso país ao mesmo destino dos outros reinos peninsulares, absorvidos pela força centrípeta dos castelhanos. As derrotas de D. Fernando nas três guerras travadas contra Juan I saldaram-se pelo desastroso casamento da sua filha e herdeira, D. Beatriz, com o rei castelhano. Por morte de D. Fernando, em 1383, Juan I veio reclamar a herança da sua rainha: o trono de Portugal.

A viúva de D. Fernando, D. Leonor Teles, seguida pela maior parte da aristocracia lusitana, seguiu as regras próprias da época do feudalismo e reconheceu sua filha D. Beatriz como sucessora, conforme estipulava o Tratado de Salvaterra de Magos, assinado por D. Fernando.

Em Dezembro de 1383, o Mestre de Avis, D. João, filho natural do rei D. Pedro I e meio-irmão de D. Fernando, encabeçou uma revolução, com o apoio do povo da capital do reino, expulsou de Lisboa os partidários de D. Leonor, D. Beatriz e dos castelhanos, depois de assassinar, em pleno palácio real, o conde João Fernandes Andeiro, um nobre galego que se tornara amante e principal conselheiro da rainha viúva.

As notícias da revolução de Lisboa puseram o país em pé-de-guerra: de Norte a Sul, muitas cidades e castelos tomaram voz pelo Mestre de Avis, já nomeado Regedor e Defensor do Reino.

Rei por vontade do povo

Após uma prolongada resistência das forças patrióticas contra as pretensões de Juan I de Castela, que entretanto invadira Portugal e pusera cerco a Lisboa durante meses (1384), até ser obrigado a retirar por um surto de peste, reuniram-se Cortes em Coimbra para resolver o problema da sucessão.

Em Março de 1385, os representantes do clero, da nobreza e do povo dividiram-se em duas facções. Os partidários de D. Beatriz primaram pela ausência, preferindo defender os seus direitos pela força das armas, ao lado do rei de Castela. Dos presentes em Coimbra, uma facção, onde se destacavam membros da alta nobreza e do alto clero, declarou-se favorável aos infantes D. João e D. Dinis, filhos do rei D.Pedro e de D.Inês de Castro, sustentando que estes deviam ser considerados filhos legítimos, uma vez os seus pais tinham chegado a casar-se, embora clandestinamente. O outro “partido”, formado sobretudo por elementos da baixa nobreza e representantes dos concelhos, apoiava o Mestre de Avis, por quem se tinham manifestado Lisboa e outras cidades e vilas.

Contra os opositores da causa do Mestre de Avis destacaram-se os argumentos do doutor João das Regras, apoiados sem papas na língua por Nuno Álvares Pereira (hoje venerado nos altares como S. Nuno de Santa Maria). Ao fim de um mês de debates, as Cortes deliberaram que o trono estava vago, sendo assim legítimo escolher um novo rei. Por unanimidade, os participantes aclamaram então o Mestre de Avis rei de Portugal, com o nome de D. João I.

No princípio de Julho de 1385, Juan I de Castela invadiu Portugal pela Beira e avançou sobre Coimbra, onde não conseguiu entrar. D. João I de Portugal tinha saído de Lisboa para Abrantes, onde se lhe juntou uma força de ingleses, vinda do Porto. Já em Agosto reuniu-se-lhe o condestável (chefe dos exércitos) Nuno Álvares Pereira, que veio do Alentejo. No dia 12, os castelhanos chegaram a Leiria e os portugueses a Porto de Mós.

“Poucos contra muitos”

A desproporção entre os dois contendores, destacada pelo cronista Fernão Lopes, segundo o qual estariam em campo seis mil portugueses contra 30 mil castelhanos – “poucos contra muitos” – foi provavelmente exagerada. Outras fontes apontam para um total de cerca de sete mil combatentes do lado português (menos de dois mil cavaleiros, perto de mil besteiros, cerca de 700 archeiros ingleses e de quatro mil peões) e talvez 17 mil do lado espanhol – cinco mil lanças (cavalaria pesada), entre 1500 e 2000 ginetes (cavalaria ligeira), até 5000 besteiros e seis a sete mil peões.

No dia 14 de Agosto de 1385, as forças portuguesas posicionaram-se perto de Aljubarrota, no lado norte de um planalto de difícil acesso, com os flancos protegidos por dois ribeiros sobre um vale. O terreno escolhido pelo condestável Nuno Álvares Pereira limitava a frente de ataque dos castelhanos e tornava-a sobretudo vulnerável aos disparos de besteiros e archeiros. Além disso, os portugueses reduziram ainda mais a frente disponível ao escavarem um sistema de armadilhas e fossos (“covas de lobo”), cobertas de arbustos e ramos.

Tácticas em confronto

O rei de Castela percebeu a dificuldade da sua posição e ainda tentou evitar o combate mas, depois de várias manobras que duraram muitas horas, a sua vanguarda, onde se encontravam os nobres portugueses favoráveis a D. Beatriz, atacou o centro da posição lusitana, disposta de acordo com a táctica generalizada na Guerra dos Cem Anos, que naquele tempo punha frente a frente França e Inglaterra: vanguarda, retaguarda e duas alas.

O ímpeto da cavalaria espanhola conseguiu penetrar a vanguarda portuguesa, comandada por Nuno Álvares. Mas, já no interior da posição lusitana, os cavaleiros de Castela foram apanhados de flanco pelas duas alas (a direita, composta por 200 “lanças”, que passou à história como a Ala dos Namorados, comandada por Mem Rodrigues de Vasconcelos; e a esquerda, chefiada por Antão Vasques de Almada) e de frente, pela retaguarda portuguesa, onde se encontrava D. João I.

Dada a situação do terreno escolhido pelos portugueses, os castelhanos perderam a vantagem numérica: só conseguiram envolver no combate uma parte da sua vanguarda, e esta foi esmagada num espaço reduzido que lhe tolhia os movimentos, ainda por cima tratando-se sobretudo de cavalaria pesada.

Triunfo esmagador

A luta, renhida, durou pouco tempo. O fim da tarde dava lugar ao cair a noite e era possível ver centenas de cavaleiros castelhanos amontoados no solo, onde tinham tombado. Os que não estavam feridos ou mortos não conseguiam levantar-se devido ao peso das armaduras e acabaram por ser abatidos pelos populares, entretanto chegados em grande número, atraídos pela expectativa do saque.

Entre cutiladas portuguesas, tiros de besta e flechas disparadas pelos archeiros ingleses, os castelhanos entraram em pânico e debandaram na escuridão da noite, já cerrada. Juan I mal conseguiu fugir: deixou para trás a sua baixela, um relicário contendo um fragmento do Santo Lenho da Vera Cruz e o próprio estandarte real de Castela. O rei espanhol só parou em Santarém e dali retirou para a sua terra, onde decretou dois anos de luto pela derrota.

Só na manhã seguinte D. João I e o condestável Nuno Álvares se deram conta do êxito esmagador que acabavam de obter. Em sinal de agradecimento e para servir de memória às gerações futuras, o rei mandou construir perto do campo de S. Jorge, onde teve lugar o combate, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido por Mosteiro da Batalha. Assinala o maior triunfo militar da História de Portugal.