EVA CABRAL

As eleições autárquicas do próximo ano estão a ensombrar o passeio da líder do Bloco de Esquerda pelas fugazes alamedas da fama. Ela bem quis escapar ao tema na X Convenção do partido, no último fim-de-semana. Mas a oposição interna não lhe fez a vontade.

Catarina Martins chegou a esta X Convenção do Bloco de Esquerda como uma líder incontestada e respaldada nos resultados obtidos pela sua moção “Força da esperança / O Bloco à conquista da maioria”, que conseguiu eleger 523 delegados (81,85% do total).

A líder do BE quis assestar baterias na questão do Orçamento do Estado para 2017 – garantindo em várias entrevistas que já estava a negociá-lo com o Governo PS – e na situação internacional, marcada pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia.

Mas o calcanhar de Aquiles do Bloco vai ser a eleição autárquica do próximo ano. O Bloco de Catarina conseguiu chegar ao governo de Costa e mantém um braço de ferro com o PCP, mas a sua relativa “juventude” faz com que não tenha implantação a nível concelhio. E isso tem uma consequência directa: não terá uma vida fácil nas eleições autárquicas.

A moção de Catarina referia (talvez esperando que o assunto ficasse pelas generalidades) que “as autárquicas de 2017 são importantes para o Bloco, para reforçar a sua intervenção política quotidiana”. Mas logo depois dos discursos da praxe, a questão autárquica saltou para os trabalhos da Convenção.

A representante da moção R, Catarina Príncipe, pediu à direcção do partido que respondesse “frontalmente” a perguntas “difíceis”, nomeadamente sobre as autárquicas do próximo ano.

“Admite ou não coligações pré-eleitorais? Em que circunstâncias haverá coligações pós-eleitorais com o PS?”, perguntou Catarina Príncipe, bloquista que representava uma das duas moções não afectas à direcção do Bloco que estiveram em debate na reunião magna do partido.

A moção R – “Crescer pela Raiz / A radicalidade de reinventar a política” – conseguiu eleger 33 delegados (5,16%) à X Convenção. Catarina Príncipe, pela lista R, lamentou ainda a antecipação da convenção bloquista, que acabou por decorrer em Junho, e não em Novembro, como aconteceu há dois anos.

“Temos uma convenção antecipada por medo de que ela pudesse acontecer num momento em que o Bloco estará a fazer uma discussão difícil. No entanto, essa é precisamente a razão pela qual ela não deveria ser antecipada” – vincou, dando a entender que no encontro do último fim-de-semana deveriam ser debatidas as posições do partido nas negociações com o PS para o próximo Orçamento do Estado.

“Coragem é não ceder ao medo de nos batermos pelas nossas propostas fundamentais. Coragem é saber que a esquerda que resiste é aquela que se levanta depois de cada derrota mas não perde nunca os seus princípios orientadores”, acrescentou ainda a bloquista.

Ora, “derrota” era a última palavra que Catarina Martins queria ouvir na Convenção. E muito menos associada às eleições autárquicas…

“Movimentos cívicos”

Com a de esquerda a querer fazer das autárquicas do próximo ano uma espécie de prova de vida para o PSD de Passos Coelho, o mais certo é que não venha a conseguir, ela própria, ultrapassar o enorme problema de encontrar candidatos autárquicos com um mínimo de hipótese de serem eleitos.

Até hoje, o BE só teve a presidência da Câmara de Salvaterra de Matos (ver texto na página seguinte) e um vereador de peso em Lisboa, Sá Fernandes. Dois casos que correram particularmente mal. A moção de Catarina Martins tenta fugir da responsabilidade, dizendo que “o Bloco faz um balanço positivo das candidaturas de movimentos cívicos em que participou nas anteriores autárquicas e aposta na sua continuidade. Até 2017, um renovado impulso de convergência resultará certamente em novas experiências de candidaturas independentes de cidadãos, em linha com o perfil das já existentes, bem como na inclusão, em candidaturas do Bloco, de cidadãs e cidadãos independentes com contributos relevantes no terreno social, profissional e de movimentos”.

Em suma: tudo serve para disfarçar a falta de candidaturas do Bloco às autarquias. Daí que a direcção do BE tenha optado para antecipar a X Convenção, em vez de a realizar em Novembro, já muito próxima quer do Orçamento para 2017 quer das candidaturas autárquicas.

No limite, todos os partidos terão de ter o xadrez autárquico já decidido a seguir às férias de Verão. Perante esta verdadeira corrida contra o tempo, Catarina Martins optou por refugiar-se em declarações inócuas e genéricas, condimentadas com uma boa pitada de demagogia. As autárquicas de 2017 serão uma “prova fundamental” da “responsabilidade que cresce” no partido – disse a porta-voz do Bloco, orgulhando-se de uma “intervenção cada vez mais consistente” a nível autárquico: “Encontramo-nos nas lutas por um país pensado para as pessoas, desenhado para a inclusão, projectado para os desafios do futuro. Dentro de ano e meio, as eleições autárquicas serão uma prova fundamental para dar força a essa experiência e responsabilidade que cresce”, sustentou a bloquista.

A verdade é que nas últimas eleições autárquicas, em 2013, o Bloco de Esquerda perdeu a única presidência de Câmara que detinha no País, a de Salvaterra de Magos.

O discurso oficial

A grande novidade que Catarina Martins levou à X Convenção foi o anuncio de o BE ter agendado para 29 de Junho um debate potestativo – de carácter obrigatório – no Parlamento em torno do desemprego e da “dignidade” que devem ter todos aqueles que se encontram sem emprego.

“Não aceitamos medidas que não servem nem para formação nem para encontrar emprego e que atribuem aos desempregados a culpa do desemprego. É preciso acabar com a perseguição às vítimas da crise”, sublinhou a porta-voz do Bloco, Catarina Martins, que falava na sessão de abertura da Convenção do partido, que decorreu em Lisboa.

“No próximo dia 29 de Junho, em agendamento potestativo do Bloco, defendemos a dignidade de quem está desempregado […]. Há já acordo com o Governo e vamos acabar com a humilhação da obrigação das apresentações quinzenais”, vincou, referindo-se ao fim da obrigação das apresentações de todos os que não têm trabalho e estão registados nos Centros de Emprego.

Outro dos “trunfos” que Catarina levou à Convenção foi o acordo, que já existe e terá “aprovação final” parlamentar em breve, sobre a lei “que, entre outras alterações, determina que a renda apoiada passa a ser calculada pelo rendimento líquido, baixando as rendas e protegendo o direito à habitação”.

“Há já acordo e em breve será a aprovação final no Parlamento”, disse, criticando depois a direita política.

O céu é o limite bloquista

O maior partido da esquerda radical portuguesa não esconde a ambição de chegar ao Governo. Mas quando vai a votos, como aconteceu nas últimas autárquicas, os resultados ficam muito aquém das ambições e os “azares” sucedem-se…

O Bloco de Esquerda quer ser “a força mais forte” do Governo de Portugal. Preto no branco, Pedro Filipe Soares – actual líder parlamentar que na anterior Convenção disputou a liderança – clarifica o que é o objectivo do BE: “E à pergunta ‘quer o Bloco de Esquerda ser Governo?’, a resposta é: quer ser a força mais forte do Governo de Portugal, porque sabe que é assim que, mais forte, defende as pessoas”.

Sobre a ideia de um eventual cronómetro que estará a contar “para mandar abaixo o Governo”, o líder da bancada parlamentar foi peremptório: “nós estamos do lado das pessoas na garantia de que esta maioria parlamentar lhes trará sempre e em cada momento a reposição de rendimentos e de direitos e em cada momento que esta maioria parlamentar estiver deste lado, nós estamos lá com toda a força”.

Já Catarina Martins enalteceu o resultado do partido nas últimas legislativas e sublinhou que, se o partido tivesse mais força, o Banif “não teria sido entregue ao Santander”.

Palavras textuais: “Tivesse o Bloco tido mais força e o Banif não tinha sido entregue ao Santander. Tivesse o Bloco mais força e o governador do Banco de Portugal não continuava a assustar o País com ameaças de colapso bancário umas atrás das outras. Tivesse o Bloco mais força e Portugal não tinha assinado com a Turquia a vergonha do acordo anti-humanitário que é o contrário do que a Europa tinha que fazer”, sustentou a porta-voz bloquista, aplaudida por centenas de militantes e apoiantes, em Lisboa.

Catarina Martins falava no pavilhão desportivo do Casal Vistoso, na sessão de abertura da X Convenção do Bloco de Esquerda. E frisou: “O Bloco teve 10% nas legislativas de Outubro de 2015, determinamos a maioria mas não temos ainda a força para fazer o Governo”. E “falta muito, falta mesmo o mais difícil”. Mas o partido, assevera, irá continuar a sua intervenção “na defesa, por exemplo, do emprego e dos pensionistas”, sempre considerando as linhas vermelhas traçadas com o PS para a viabilização do Executivo.

Ou seja: para o Bloco, “o céu é o limite”…

ARTIGOS SIMILARES