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Vasco Callixto

Figura ímpar do historial da Aviação Portuguesa, Carlos Eduardo Bleck faleceu em 2 de Dezembro de 1975; há 40 anos. Foi não só o primeiro aviador civil português, mas também o autor de uma proeza única nos primórdios da aeronáutica nacional: voou sozinho  sobre três continentes.

Volvidas quatro décadas, não tem o que há muito devia ter: uma artéria com o seu nome em Lisboa e uma presença, igualmente, na toponímia da Amadora, onde voou pela primeira vez e onde foi recebido em apoteose no final da primeira viagem de ida e volta efectuada por aviadores portugueses. Justo será que a falta seja corrigida, embora tardiamente.

bleck1Honrou-me Carlos Bleck com o seu acordo para ilustrar a capa do II volume do meu livro “Fala a Velha Guarda” com uma fotografia da entrevista que me concedeu em 1957, durante a qual recordou as fases mais marcantes da sua vida de aviador e de praticante do automobilismo desportivo, em que igualmente se distinguiu.

Mais tarde, com muito prazer e muito interesse, recebi das suas mãos um exemplar de “Rumo à Índia”, o precioso volume em que revela toda a sua actividade aeronáutica. Sem dúvida, uma rica personalidade, hoje  ingloriamente esquecida e ignorada pelas novas gerações. Creio bem que nem houve um avião da Tap com o nome de Carlos Bleck.

Obtendo em 1925 o “brevet” de primeiro aviador civil diplomado em Portugal – no mesmo ano venceu o Quilómetro de Arranque no Porto e o Circuito do Estoril – Carlos Bleck dedicou toda a sua vida à aviação.  Foi um “Homem do Ar”! O desporto automóvel preencheu somente a sua juventude. O jovem aviador queria algo mais do que simplesmente voar até ali ou acolá, queria voar bem mais além, como na época faziam aviadores de outras nacionalidades. E conseguiu-o!

Em 1928, aos comandos do avião “Portugal”, lançou-se na primeira viagem aérea, sozinho, com rumo à Índia. Como me disse durante a avoenga entrevista, “nessa viagem não  atingi Goa, uma aterragem forçada na Palestina destruiu-me o avião”.

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Apesar do sucedido, Carlos Bleck continuou com a Índia no pensamento. Entretanto, dois anos depois, em 1930-31, com o tenente Humberto da Cruz, efectuou a primeira viagem aérea de ida e volta, a Angola, da Amadora até Benguela e regresso à Amadora.

E em 1934 o seu grande desejo teve um final feliz. Voltou a voar sozinho – durante 65 horas, com 14 aterragens –  e chegou à Índia, aterrando em Diu e em Goa. Como me declarou em final da já citada entrevista, “o momento em que tive a honra de sentir as rodas do avião por mim pilotado beijarem o planalto de Vasco da Gama, em Mormugão, foi o mais emotivo da minha vida de aviador”.

Infelizmente, no ano seguinte, em 1935, ante um cometimento que seria de vulto, Carlos Bleck voltou a não ter a sorte consigo. Na pista da Granja do Marquês malogrou-se a tentativa de bater o recorde aéreo Europa-América do Sul, acompanhado por Costa Macedo. E não voltou a pilotar, “tal o desgosto de que fiquei possuído”.

Fundador, mais tarde, da CTA-Companhia de Transportes Aéreos, antecessora da TAP, a aviação comercial preencheu o resto da vida de Carlos Bleck.

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