Submarinos: mais perguntas sem resposta

Submarinos: mais perguntas sem resposta

0 1829

“A polémica compra passou pelas mãos de vários líderes políticos”

Basílio Martins – basilio@portugalconfidencial.com

Existe uma autêntica frota de perguntas sem resposta que continuam ocultas em águas profundas, relativamente ao caso da compra dos dois submarinos U214 que voltou que foi arquivado em Dezembro do ano passado, na mesma semana em que a comunicação social divulgou gravações de conversas entre membros do grupo Espírito Santo, nas quais discutem os cerca de 30 milhões de euros de comissões que receberam no negócio.

Mas há mais…

Quem acompanhar a maioria das notícias sobre o arquivamento do processo dos submarinos poderá pensar que a única pessoa envolvida no negócio é Paulo Portas.

Muitos jornalistas e comentadores “esquecem” que esta polémica compra passou também pelas mãos de três outros líderes políticos, referidos durante os últimos anos como possíveis candidatos às eleições presidenciais de Janeiro de 2016.

Passou pelas mãos de três partidos e sete governos. E teve como interveniente um grupo bancário suspeito de inúmeros crimes.

Em 2008, a eurodeputada socialista Ana Gomes acusou Portas de ter sido a pessoa que “fez entrar a Escom” – uma antiga empresa do grupo Espírito Santo – no negócio dos submarinos, afirmando que parte dos cerca de 30 milhões pagos à Escom por serviços de consultoria “teriam sido desviados para, através de contribuições de militantes imaginários, rechear as contas do partido de Portas.”

Na comissão parlamentar de inquérito à aquisição de equipamentos militares realizada no ano passado, onde foi analisada a compra dos submarinos, a deputada do CDS-PP Cecília Meireles confrontou Ana Gomes, respondendo-lhe que “há uma coisa que nós sabemos: a Escom entrou (no negócio) em 1998 e Portas em 2002, portanto Portas não fez a Escom entrar em contrato nenhum.

Das duas uma: ou tudo isto é falso, ou se alguém fez entrar a Escom para receber luvas para partidos, esse alguém é do PS. Foi o PS que decidiu comprar os submarinos, abriu o concurso e definiu as contrapartidas. Todos os factos nos conduzem ao PS.”

Cecília Meireles acrescentou que “entrou dinheiro nas contas no CDS, com um recibo que ficou famoso por razões que nenhum de nós defenderá. Dei-me ao cuidado de ir ver as contas do PS: receberam em donativos cerca de 183 mil euros em 2004, 1 milhão de euros em 2005 e 3 milhões em 2006.

Se eu aplicasse às contas do PS a lógica aplicada às contas do CDS, diria que quando o PS entrou no governo passou a receber 16 vezes mais donativos – e só podia concluir que foi a Escom.”

Também em 2008, Ana Gomes acusou Portas de corrupção noutro negócio que considerou suspeito: um contrato de 450 milhões com a fabricante Agusta-Westland para a aquisição de 12 helicópteros EH101. A eurodeputada escreveu que “as continhas bancárias de alguns senhores envolvidos” estão bem gordas.

Quando mais tarde percebeu que esse contrato não foi da responsabilidade de Portas mas sim de Rui Pena, ministro da Defesa do governo de Guterres, nunca mais tocou no assunto. Ana Gomes pediu desculpas ao CDS numa audiência parlamentar em Agosto passado sem nunca negar as suspeitas em torno dos helicópteros – mas estas deixaram de ter interesse porque afinal atingem o PS.

“Quando os nomes mencionados são do CDS ou do PSD fala-se muito neles. Quando são do PS, nunca se fala e faz-se de conta que não se passa nada”, comentou Meireles, referindo como exemplo o diário de Adolff.

Em 2011, um tribunal alemão deu como provado que Jürgen Adolff, ex-cônsul honorário de Portugal em Munique, foi subornado com 1,6 milhões pela Ferrostaal para facilitar o acesso às autoridades portuguesas no negócio dos submarinos.

Um dos documentos confiscados pelos investigadores foi o seu diário, onde descreveu contactos com políticos nacionais. A revista “Visão” publicou-o em Fevereiro de 2014, destacando que Adolff terá falado com Portas e Durão Barroso – mas omitiu que se encontrou pessoalmente com Veiga Simão, outro ministro da Defesa de Guterres, em Agosto de 1999.