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JOÃO JOSÉ BRANDÃO FERREIRA

Desta vez não se chegou a ver apenas céu e mar, mas deu para perceber (isto é, ter uma vaga ideia), da dificuldade que é andar no mar e daquilo que passaram os nossos antepassados quando se aventuraram às Descobertas. O “desta vez” coube a um “cruzeiro” organizado pela Associação Nacional de Cruzeiros (ANC), que entendeu rumar a Ceuta, a fim de comemorar os 600 anos da tomada daquela cidade por uma expedição naval portuguesa, comandada pelo próprio Rei que, paciente e competentemente, a organizara: D. João I, o de Boa Memória. E que de facto deixou boa memória (e descendência), pois tudo lhe correu bem e ao Reino, sob a sua liderança.

Foi feliz a ideia da ANC, fundada em 28/2/94, e cujo objectivo estatutário é o de promover o desenvolvimento da prática desportiva e recreativa, da vela de cruzeiro. Resultou da fusão da Associação de Pequenos Veleiros de Cruzeiro e da Associação de Veleiros de Cruzeiro. Engloba cerca de 1000 veleiros e 4.000 praticantes. Presentemente é liderada por Rui André Ribeiro, um experiente velejador com cerca de 7.500 horas de navegação.

A escolha nem sequer foi difícil, por óbvia: seis séculos de um feito de armas notável (a primeira e maior operação anfíbia desde o fim do Império Romano do Ocidente) e marco assumido pela maioria dos historiadores, como sendo o início da expansão marítima dos portugueses, que os iam alcandorar durante um século, à maior potência marítima do globo.

Infelizmente para o Estado Português nada disto, mesmo sendo óbvio, foi tido como merecedor sequer de uma singela evocação. Andam desligados da realidade, pela simples razão de que deixaram de pensar e de actuar como portugueses!

Felizmente, por outro lado, a sociedade civil, consumada na generalidade da população e das instituições nacionais, tem-se mobilizado para comemorar o evento de várias maneiras, mostrando que a nacionalidade não está moribunda e a vida não se resume a futebol, concertos, novelas e… “negócios”.

Responderam à chamada 16 veleiros dos 25 inicialmente inscritos, e cada um fez o seu planeamento de modo a que a concentração final se realizasse na marina de La Línea, junto ao “Peñón” de Gibraltar, de modo a que pudéssemos “acometer” Ceuta em conjunto, no dia 10 de Agosto.

A frota a navegar-cópia

Quão longe das cerca de 220 velas e 20.000 homens que o antigo Mestre de Avis – cuja bandeira foi eleita para ser arvorada em cada embarcação – fez aparecer frente aos muros da cidade, ocupada pelos seus habitantes mouros, que devem ter ficado de olhos esgazeados perante tão terrífica quanto magnificente visão.

Desta feita, em vez das levas de 50 homens desembarcados das galés do Infante D. Henrique – grande impulsionador da conquista – na praia de Santo Amaro, perto da Porta de Almina, desembarcámos pacificamente na marina da cidade, com cerca de 75 homens, mulheres e crianças, cuja dificuldade maior foi atravessar o Estreito de Gibraltar debaixo de um nevoeiro inclemente. Ao menos, houve algo que nos fez recordar as dificuldades de antanho.

Fomos bem recebidos em Ceuta – cidade com cerca de 18,5 Km2 e 82.000 habitantes – embora sem alardes: três dias com notícias nos jornais; sessão de boas vindas na Marina Hércules, com tapas e bebidas ao bom gosto de Espanha, e um jantar (este já organizado e pago em Lisboa) que a todos reuniu em confraternização, dignando-se estar presentes algumas autoridades portuárias, membros da Cidade Autónoma de Ceuta e do Serviço de Turismo da cidade. O Cônsul Português fez-se representar pela Secretária do Protocolo. Jantar antecedido por uma volta turística pela cidade e um passeio de barco, oferecidos pelo turismo local.

Vista de Ceuta, com o Monte Facho ao fundo
Vista de Ceuta, com o Monte Facho ao fundo

Ceuta mudou de mãos, pelo Tratado de Lisboa, de 1668, que reconheceu a Restauração da Coroa Portuguesa na Dinastia de Bragança, após o seu governador, em 1640, ter sido o único em todo o mundo português que não aclamou D. João IV. Por razões ainda não completamente clarificadas nos dias de hoje.

Mas Ceuta nunca perdeu o seu cunho português, não só por causa dos monumentos que deixámos, onde se destacam as muralhas, mas porque as autoridades locais mantêm as cores (e a coroa) portuguesas e a da cidade de Lisboa (cujo estandarte foi o primeiro a ser levantado na cidadela moura), por todo o lado. Até a rua principal se chama “Camões”. É uma cidade agradável e razoavelmente arranjada e limpa e com forte implantação militar. Nesta destaca-se a Legião Espanhola, fundada em 28/1/1920, e ainda se pode ver uma lápide junto ao respectivo museu onde o seu fundador, o General Millán-Astray, falou às tropas: “Combatereis sempre; morrereis muitos, quiçá todos…”.

Emociona, porém, ver a imagem de Nossa Senhora, oferecida a Ceuta pelo Infante D. Henrique, em 1430, e que por vezes acolhe entre as suas mãos o “pau” (aleo), transformado em bastão, que pertenceu a D. Pedro de Menezes, seu 1º Capitão, que ali foi deixado com 2.500 homens para defesa daquele que foi o primeiro bastião cristão no Norte de África muçulmano e é hoje um dos últimos. Quando D. João I perguntou a D. Pedro se ficava bem, ele, altivo, respondeu: “Com este pau me basto”. Começa a faltar gente desta estirpe.

Cumprido o objectivo e recuperadas as forças, foi hora de recolher cabos, defensas e encetar o regresso ao longo da costa andaluza e portuguesa, onde nos recolhíamos em agradáveis e retemperadoras marinas, o que se fez no dia 12. Algumas das marinas que nos acolheram foram as de Portimão, Mazagon, Rota, Barbate e La Línea.

O mar é um óptimo local para pensar, pois há tempo para tudo. Para um neófito como eu – faltava esta experiência ao meu “curriculum” – foi tempo de interiorizar várias coisas, algumas das quais peço vénia para partilhar com os leitores.

Em primeiro lugar, navegar no mar não é pêra doce: é duro, dá trabalho e requer saber. Muito saber, que cobre um conjunto variado de disciplinas e que não se aprende de um dia para o outro. Mas que se pode perder rapidamente…

Depois, é necessário aprender a matriz do tempo. Isto é, o passar das horas em função da velocidade do navio – para mim que sou aviador, confesso que não foi fácil…

Em navegação trabalha-se ou vigia-se. Não dá para fazer muito mais (tirando os pescadores inveterados a quem agradeço o belíssimo atum que comi à boleia); o veleiro nunca está quieto e há que tentar não enjoar!

Depois, aprende-se a respeitar o mar, pois ele tudo pode e tem muitas caras – e isto liga-se à segurança, pois facilmente “ele” nos arrebata e leva; e a segurança leva-nos à disciplina que por sua vez é fundamental para a organização e funcionamento da vida a bordo. A disciplina deriva da hierarquia e é esta que garante a autoridade. Estes conceitos não são só para militares, aplicam-se a todos os que andam no mar.

E foi assim que fomos (e viemos) a Ceuta. Compreendo agora melhor a frase do Poeta: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Mas também se aprende que se vive, navegando. E felizes são aqueles que têm algo para recordar.

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